Em São Paulo, o ano começou ontem, com essa mostra dos filmes que Danièle Huillet e Jean-Marie Straub fizeram juntos. A mostra acontece no CCBB e se não me engano, tá tudo lá. Irei ao maior número de filmes possível.

Eles são provavelmente uns dos artistas mais influentes do século XX. Dos que trabalham em dupla, acho que sua influência só é comparável à de Bernd e Hilla Becher (mas tenho a impressão que Straub e Huillet  talvez sejam mais influentes). Aliás, eles também foram alguns dos artistas que levaram o debate a partir da obra do Brecht mais longe. Tanto no aspeco da encenação como do engajamento.

Poucos filmes deles estão disponíveis no Brasil, a oportunidade, portanto é unica. Deixo como aperitivo o filme que eles fizeram sobre o Lance de dados  do Mallarmé. Serve como convite para a mostra e uma provocada inocente no SOPA.

Mostra Straub-Hiillet - CCBB (Rua Álvares Penteado 112, Centro). Telefone (011) 3113-3651. De 3ª a domingo. R$ 4. Próximo às estações Sé e São Bento do Metrô.

11 3113-3651/3652
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O contato com a música de Stockhausen modificou muito a composição de Anthony Braxton.

O compositor, saxofonista e improvisador chega a dizer que a influência do inovador alemão foi existencial e o levou a radicalizar a sua música pra caminhos diferentes de outros precursores do free jazz. Achei um depoimento do gênio falando sobre sua composição favorita.

As variações e a sintaxe de fato têm muito a ver com a música de Braxton. É muito interessante as relações que ele faz com o ritmo e sobretudo as variações de andamento.

Aqui vai tudo junto.

Tudo bem, tudo bem, nesse blog já passa mosca e o que tem de teia de aranha acumulada aqui e ali não está no gibi. O ano de 2011 não foi fácil pra ninguém e isso acabopu refletindo nesse abandono do Gua Gua. Mas a retomada começa agora e nada mais nobre do que dar uma força ao nosso grande amigo André Mantelli.

A alegria em pessoa Mantelli foi responsável por momentos muito felizes no Rio e são dele (e do meu chapa Alberto), as imagens de um dos dias mais felizes da minha vida.

Ele é um fotógrafo excelente e ontem foi assaltado no Rio. No roubo, subtraíram dele quase todo seu equipamento, isso bem em meio a um grande trabalho que ele faz sobre a Mata Atlântica. Por isso reproduzo o post que ele fez em seu blog. E convido todos a darem uma força em sua vaquinha.

manta aid

é verdade, como cartunista sou um excelente fotógrafo.

e é exatamente por isso que criei esta página para que aqueles que gostam das minhas imagens-histórias possam me ajudar na reconstrução de um pequeno patrimônio de trabalho.

(para quem ainda não sabe, perdi todo o meu equipamento fotográfico, que estava sem seguro, num assalto no rio)

pensei muito antes de optar em colocar este help aqui. aliás, bastaria dar o nº de uma conta. contudo achei interessante abrir valores, prestar contas e agir com transparência monitorando publicamente a evolução desta campanha. se tiverem outras sugestões, serão mais que bem-vindas.

fiz duas listas: a primeira corresponde exatamente ao que perdi, que é a meta mínima, 18 mil reais;

a segunda coloquei um ‘plus’ sobre o equipamento – vai que a galera se empolga – e tento complementar.

mas, afinal como disse lévi-strauss, ’vive-se em abundância e “nada falta a não ser o que não se tem.’

o link da ‘vaquinha’ é este aqui: http://www.vakinha.com.br/VaquinhaP.aspx?e=112370

acho que é um bom negócio pra todo mundo. ;)

para alguns, pode ser uma oportunidade de investimento. mais ou menos como um leilão.

por exemplo.

se vc doar 20 reais pra causa, ganha um portrait de vc mesmo em formato digital que mandarei por email. não se preocupe, uma hora estaremos na mesma cidade, rs.

imagino fazer uma expo com retratos deste movimento solidário. usarei sua imagem, se autorizar.

por módicos 50 reais vc leva o mesmo retrato impresso, formato 20 x 30 cm.

doando 100, vc faz três destes últimos (mas só um seria usado naquela exibição).

500 reais a gente faz o portrait que poderá ser usado na expo + um ensaio fotográfico, com 20 fotos finais (sem impressão).

1000, vc ganha o ensaio + uma ampliação de 75 x 50 cm de foto a escolher no flickr/mantelli.

ou faça sua proposta!

mas nos ensaios não estão incluídos possíveis custos de produção, certo?

peço que espalhem, divulguem, me ajudem a romper a meta.

absolutamente tudo será revertido para uma produção fotográfica apaixonante.

(pelo menos é o que pensa o apaixonado)

obrigado de coração pela generosidade e fraternidade.

um caloroso abraço,

:)

Cada dia me interesso em quem faz da música algo tão sério quanto a própria vida e sabe que o ato de tocar pode ser confundido com o próprio viver. O Joe McPhee é um desses caras.

Recomendado pra quem ainda acha que as discussões sobre distribuição e impacto mercadológico a são menos importantes que a criação.

Morreu ontem a noite quem talvez tenha sido o único ídolo do rock nacional que os adolescentes da minha turma, na minha cidade na época admiravam: O Redson.

Quando éramos novos, em Pouso Alegre, não éramos amigos dos meninos por estudarmos na mesma escola e nem mesmo por morarmos na mesma rua. Claro que tínhamos amigos lá e cá, mas a razão das amizades era outra. Era porque gostávamos das mesmas coisas e, mais que isso, detestávamos as mesmas coisas. Era todo mundo roqueiro, de extrema-esquerda e gostávamos do punk (que era ideia, não visual), das loucuras que conhecíamos na casa do Murilo, no Cinema moderno e nos discos que eram vendidos pela RÉR Brasil.

Por isso, detestávamos o rock nacional, heavy metal, cultura e tudo que fosse diboy.

Mas o Redson cantava no Cólera. O melhor grupo punk. Que era radcó, cantado em português paulistano, inteligível e com potresto. Todo mundo adorava.Os anos passavam, os discos do Cólera eram menos tocados e eu nunca mais escutei. Aliás, a maioria dos meus amigos também ouvia pouco.

Mas tenho certeza que ele animou muita gente a gostar de música no Brasil inteiro. Eu me sinto em dívida com ele. Por isso, uma singela homenagem.

Espero que a terra seja leve e o seu sono tranquilo.

Sim , sim, o blog anda meio parado e o acúmulo de tarefas dos três responsáveis por este espaço tem impossibilitado aquela atualização ágil e o debate moleque que sempre rolou nessa linda plataforma. Não temam, as coisas estão ficando mais tranquilas e acho que a alegria deve voltar a ser mais frequente por aqui. Pra começar, publicamos  o texto da nossa grande amiga Carol Trevisan – que é jornalista e trabalha com iniciativas da área social – sobre sua participação no primeiro evento da Copa do Mundo de 2014 e todas as cores que o império absolutista da bola brasileira pode ter. Para ler, recortar e comentar:

Pontapé inicial – Impressões sobre a bizarra experiência de participar  do primeiro chute da Fifa para a Copa do Mundo 2014, por Maria Carolina Trevisan

Bom humor e muita emoção...

Rio de Janeiro, 29 de julho. Seis e meia da tarde. Hora do rush na cidade maravilhosa. Ônibus lotados, carros e pedestres se misturam a um lusco-fusco que cega. As luzes vermelhas das lanternas em fila contrastam com a Baía de Guanabara, o cheiro da maresia e uma temperatura amena, o que faz do calçadão de Copacabana o melhor lugar para se estar.

Mas era hora do compromisso. Os ônibus com convidados da Fifa para o banquete que antecede o sorteio das eliminatórias da Copa 2014 partiam do luxuoso hotel Windsor Copacabana rumo ao Pier Mauá. O convite, assinado por Joseph Blatter, presidente da Fifa, e Ricardo Teixeira, presidente da CBF, sugeria como traje “bussiness atire”. Pouco a pouco os assentos foram ocupados por homens de terno-uniforme azul escuro, idênticos e com a palavra FIFA bordada no canto esquerdo do paletó. Para acompanhar, loiras perfumadas, cabelos em laquê, vestidos longos e brilhos mais adequados a casamento de princesa.

Esse foi o primeiro choque. O segundo, golpe bem mais forte, foi perceber que esse veículo cheio de desconhecidos e desimportantes seria escoltado por pelo menos quatro batedores da Polícia Rodoviária Federal, montados em uma bela Harley Davidson vintage. A população, espremida nos coletivos, era literalmente apartada para deixar passar sem atrasos tão distinguida turma. Foram pelo menos 10 desses. E assim, a Fifa, o governo e a prefeitura do Rio, começaram a mostrar que a elite brasileira, política e futebolística, é capaz de organizar uma Copa do Mundo. Deu vergonha.

Na chegada ao pier, os convidados eram recebidos com champanhe Chandon rose, caipirinhas, claro, e vários petiscos típicos de sabores irreconhecíveis. Carros pretos brilhantes, com motoristas negros brilhantes, estacionavam em uma área ultra vip (VVIP, segundo a Fifa O que seria? Very Very Important People? #medodessagente). Desembarcavam ali cartolas, ministros, prefeitos, secretários e secretários dos secretários. Perceber essa divisão entre as pessoas foi o choque número três. Mas não acabou.

Choque número quatro: com tantos VVIP, o mar seria um meio de ataque terrorista óbvio e fácil. Para evitar qualquer atentado, um barco da polícia esteve de prontidão do começo ao fim do evento, garantindo a segurança de todos nós. Enquanto isso, conversava-se, fumava-se e bebia-se a vontade. Até que as portas para o banquete foram abertas.

Cartões nominais espalhados sobre as mesas guiavam os comensais. No mapa de lugares, mais um choque: a Fifa guardou para a área de responsabilidade social uma mesa no lugar mais importante, primeira fila, cara a cara com o palco. Era a patota da “Corporate Social Responsibility” dividindo espaço com o Ministro do Esporte, Orlando Silva, o governador do Rio, Sergio Cabral, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, além de Blatter, Teixeira, Havelange, Cafu, Bebeto, entre outros. O que isso significa?

Estava, então, claríssimo que faz parte da reconstrução da imagem da Fifa dar importância à sua área de responsabilidade social. E o cheiro do poder é ludibriante. Pode mesmo embriagar a vista de quem não estiver atento e preparado. Os “privilégios” não paravam: o cardápio em português e inglês anunciava fettuccine de palmito pupunha, camarão ao gengibre com couscous marroquino, filet em crosta de ervas e haricot vert, além de mil sobremesas. E champanhe a vontade. Para nós, serviço na mesa. Para o resto, só buffet.

Havia cerca de dois mil convidados. Na mesa VIP da responsabilidade social éramos nove. Bem poucos para tamanha missão. Em meio ao rega-bofe, o “muito obrigada” em português forçado do Mr. Blatter. Assim que o jantar terminou todo o mundo saiu correndo de volta para o hotel, em um estranho movimento de fuga. Na volta, a mesma escolta vergonhosa, agressiva e, ao mesmo tempo, muito reveladora.

O sorteio

Mas o grande show aconteceria no dia seguinte, na Marina da Gloria. Gastou-se cerca de R$30 milhões, entre prefeitura e governo local, para que o sorteio das partidas preliminares da FIFA World CUP fosse um sucesso e continuasse mostrando a capacidade do país em receber o megaevento. Fui com a convicção e a esperança de que alguma coisa importante pudesse acontecer, além das bolinhas, mas decidi não mais aproveitar a carona em ônibus escoltado. As presenças ilustres contrastavam com a manifestação do lado de fora que pedia “uma Copa do povo” e “ fora Teixeira”.

Para adentrar o local do evento, era necessário passar pelo controle da Polícia Militar, pelo raio x e pelo scanner de bolsas, além de deixar isqueiros ou outros objetos “perigosos” para trás. Na entrada, um corredor com estandes das cidades-sede mostrava as promessas de cada uma, seus merchandisings, marketing propositions, presentations e folders. Tudo em inglês, logicamente. O mundo do futebol internacional não fala português. Mas parece que ama o Brasil.

Soou o sinal e era momento de entrar. A TV Globo não poderia tolerar atrasos. Ventava muito e a tenda ameaçava sair voando. De novo, a elite estava ali, ocupando suas praças reservadas. E o grupo da responsabilidade social, outra vez, na primeira fileira. Foi o choque número seis: apenas dez metros nos separavam de Blatter, Grondona, Teixeira, Havelange, Pelé, Cafu, Neymar, Bebeto, Zico, Zagallo, Ronaldão, e, mais tarde, da Presidente da República do Brasil, Dilma Roussef. Não dava para acreditar.

Choque número sete: repetiu-se muitas e muitas vezes, para todos os cerca de 600 milhões de telespectadores de mais de 200 países, que a Copa do Mundo 2014 é, agora, a “Copa do Mundo da FIFA”. No Brasil, fala-se Copa do Mundo e ponto, sempre foi assim. Agora, a “Copa do Mundo da FIFA” é marca registrada e tem preço.

Os discursos que se seguiram foram elucidativos. Estava claro que Pelé (escolhido como embaixador honorário da Copa) e Teixeira não estão de amizade, que o rei é aliado de Dilma e que a presidente não dá a menor bola para Teixeira ou Blatter. As falas do governador e do prefeito do Rio mencionaram o legado da Copa e ressaltaram avanços nos campos esportivo, estrutural e econômico, na mobilidade urbana e no saneamento. Eduardo Paes passou quase perto ao dizer que “futebol não tem classe social” e que é “um meio de transformação”, porém, não disse nada sobre sua função e seu papel em um mega evento para diminuir as diferenças sociais. Mas citou o ex-presidente Lula e declarou: “o maior legado da Copa é a auto-estima do povo brasileiro”. Mas, e se o Brasil perder a Copa? Suicídio geral?? Choque número oito.

A situação melhorou quando a presidente Dilma subiu ao palco. Falou em liberdade, justiça social e paz como legados. Não era possível iniciar esse evento sem que ao menos essas palavras fossem lembradas. Em resumo: a Copa do Mundo da Fifa é uma coisa. A Copa do Mundo de Futebol, no imaginário do povo brasileiro, é outra coisa. E é de todos.

A partir daí começou o momento bolinhas, uma espécie de bingo. Estrelas como Neymar, Cafu, Ronaldo, Bebeto e Lucas sortearam a teia de jogos eliminatórios até a Copa. Os cerimonialistas vestidos de gala, Fernanda Lima e Tadeu Schmidt, apresentadores da TV Globo, anunciavam cada passo. O deslize ficou por conta de Schmidt, que equivocadamente chamou Ronaldo de Romário, sendo este último persona non grata na Fifa, a ponto de nem aparecer em nenhuma das imagens de futebol brasileiro que se mostrou. Entre um sorteio e outro, com pequenos shows nos intervalos, vídeos de pessoas como Gisele Bündchen (expert no tema), Paulo Coelho (!!) e até Oscar Niemeyer tentavam convencer os presentes da capacidade brasileira de receber a Copa, lembrando que futebol é a paixão nacional, mas esquecendo de seu componente tóxico, o ópio do povo.

Como vocês viram, saí chocada de todo esse espetáculo. Preocupada também. Mas entendi que há um espaço que precisa ser ocupado por propostas e ações e que o momento é agora. Se a Fifa está precisando da ala da responsabilidade social para mudar a sua imagem e nós queremos uma Copa do Mundo com o mínimo de efeitos sociais nocivos – queremos o contrário -, é preciso aproveitar (com olhar crítico, sempre), impôr o papel da sociedade civil e propor alguma alternativa. Porque o pontapé inicial (kick off) da Copa foi dado. Mas é o povo brasileiro que está sendo chutado.

A revista Mais Soma publicou esse texto, resultado de um primeiro contato com o trabalho dessas duas artistas. No fim, não sei se ele ficou a altura da qualidade da revista. Mesmo assim, depois de um longo intervalo, resolvi publicá-lo no blog. Acho que merece. Primeiro, porque tapa o buraco. Nos últimos tempos, estou muito ocupado  e a coisa aqui está devagar. Além disso, um pouco depois de entregar o texto, escrevi um parágrafo que estava fora da versão original e incluí aqui. O escrito ficou mais longo, com um degrau a mais. 

Jessica Jane Barlow

Muitos conheceram lugares distantes através da arte. Por exemplo, é bem provável que a maioria dos jovens falantes de língua alemã do começo do século XX tenha tido seu primeiro contato com o Oriente Médio através das estereotipadas aventuras de Hadji Alef Omar (Bin Hadji Abul Abbas, ibn Hadji Dawul Dalgossara), da série de romances iniciada com “Através do Deserto”, de Karl May (o mesmo de Winetou).

Fico a pensar no impacto que os relatos de Marco Polo ou as pinturas de Rugendas tiveram para construir a visão europeia sobre o extremo oriente chinês e a floresta tropical brasileira. O curioso é que a maior parte dos relatos foi feito por gente que nunca tirou os pés de seus domínios. Gente que inventava esses espaços distantes ou que imaginava como sua terra natal havia sido décadas atrás, séculos atrás.

Esse uso da imagem, da imaginação, para recriar lugares onde nunca se esteve é muito antigo. A arte lida com isso desde que não tinha esse nome. Criar passados ideais, futuros assustadores e terras distantes. Muitas vezes se tratava apenas de uma oposição destinada a exaltar o lugar onde se vivia, depreciar as pessoas que vinham de fora ou expor acontecimento poucos elogiáveis da história de determinado local. Nesse caso, o uso de Gauguin de imagens da vida do dia a dia da Polinésia parece ser exemplar.

Mas, se até algumas décadas atrás o recurso servia para atiçar a curiosidade dos lugares desconhecidos, hoje não parece ter a mesma função. A arte contemporânea continua a recriar lugares distantes, sobretudo lugares distantes que nunca estiveram em lugar nenhum, nem na história e nem na cartografia. No entanto, hoje essa criação não aponta para formas de vida que neguem as formas de organização da sociedade.

No ano passado, em Londres, pude conhecer duas artistas inglesas muito jovens que tentam, a partir de sua produção visual, reinventar um lugar distante no tempo e no espaço daquilo que elas imaginam que seja Londres. Uma faz isso no tempo, a outra, no espaço. Uma inventa o que seria uma arte contemporânea brasileira, e a outra, o que seria a produção gráfica de décadas atrás.

Gabrielle Sellen inventa um Brasil mítico em suas esculturas, penetráveis e instalações. Já Jessica Jane Barlow não parece interessada em fazer a arte de outro país em sua terra natal, mas recria uma estética a partir da precariedade da linguagem de fanzineiros que publicaram seus trabalhos antes que ela nascesse. Sua estética parte das deficiências técnicas das artes gráficas da cultura xerográfica do punk hardcore da década de 1980. Assim, uma trabalha como se fizesse arte de um outro país, e a outra ilustra como um artista de outra época. Porém, esse uso de elementos de outros lugares aqui se assemelha mais a uma fantasia do que à recriação de outro lugar, o que me parece muito interessante.

Gabrielle Sellen

Gabrielle tem razões íntimas para refazer as experiências sensoriais do Brasil em sua obra. Filha de uma brasileira, só conheceu o país há bem pouco tempo. Conhecia as histórias e os sabores nacionais através da mãe, nascida no interior de Minas Gerais. Assim, antes de começar o curso de artes plásticas em Camberwell, pesquisou a cultura brasileira e se deliciava com a pronúncia de uma língua tão macia como o português do Brasil.

Gabrielle se identificou com a arte sensorial produzida pelos neoconcretos e seus herdeiros. A obra de Hélio Oiticica dos anos 60 seria seu totem, mas ela associaria essa produção (sobretudo a instalação Tropicália, exposta na Tate) às obras de outros artistas contemporâneos brasileiros, como Ernesto Neto, Laura Lima, Cildo Meireles e Beatriz Milhazes.

Mas Hélio Oiticica e as ações terapêuticas de Lygia Clark eram o que ela queria fazer. Interessava-se pelo uso de materiais baratos e a soma de sensações visuais, táteis, corporais. Ou seja, de um uso da arte como forma de atiçar todos os sentidos. No Brasil, se encantou com os tecidos de chita, e a escultura passa a ser algo para vestir e para entrar, para ter uma experiência mais íntima que a do olhar distanciado.

O curioso é que, ao contrário do que ocorre com Oiticica, por exemplo, não se trata de uma experiência de enfrentamento, mas do uso de materiais e formas bastante codificadas que emulem uma experiência de “brasilidade”. O risco de resvalar no estereótipo é tão grande como os dos europeus que fizeram dos desertos asiáticos um lugar “exótico”.

De forma distinta, Jessica Jane Barlow se vale da produção punk DIY, cujo aspecto formal é o alvo de seu interesse. A artista tem como linguagem principal a produção de impressos, aos quais associa imagens improváveis. Um desenho feioso (os desenhos são a pior parte de sua produção) passa a atribuir sentido a uma foto misteriosa. Somos surpreendidos ao descobrir que a artista está reconstruindo narrativas da literatura contemporânea usando um expediente que parece precário e provisório.

Ela se vale do modo de compor dos fanzines. É muito interessante observar, através de seu trabalho, como o punk agora se tornou um discurso completamente incorporado à cultura dos jovens ingleses. Não é mais feio, nem agressivo, mas um modo de reunir materiais.

Jessica cria ilustrações e as associa ao texto como se fosse a editora de um fanzine que líamos (nós com mais ou menos 30 e 40 anos) quando adolescentes. Não vemos mais a linguagem como uma deficiência, ou fragilidade, mas como estilo.

Assim, suas composições monstruosas e com forte comentário social acabam pensando o punk como somente mais um capítulo da história da arte. Curiosamente, é essa a versão que domina o pensamento crítico inglês hoje. Uma maneira de recriar o punk como uma forma estética como qualquer outra, que não parece ir contra nada, apenas o mau gosto. Acho inclusive que críticos como Simon Reynolds são responsáveis por essa associação entre a podreira e o bom gosto. Entendo que tal recriação do punk como estilo e não mais como uma forma crítica de pensar tem seus limites, mas isso fica para outro dia.

Mas incomoda, pro bem e pro mal, o modo como essas duas meninas façam de realidades que pouco conhecem, lugares para tentar se diferenciar quem as circunda. Claro que o papo é entre gente honesta. Mesmo assim, mostra uma nova e, ao meu ver menos interessante, relação que a arte e a subjetividade parecem ter no início do século. Vamos depois pro que parece valer mais a pena.

Porque voltas de que lei (Amália Rodrigues e Mário Pacheco)

Porque voltas? De que lei?
Vem este sentir profundo
Por te saber como sei
Me sinto dona do mundo

Porque espada? De que rei?
Meu amor é fogo posto
És tanto de quanto amei
Que és tudo de quanto gosto

Por este amor que te tenho
Por ser assim como sou
És inferno de onde venho
És o céu para onde vou

Por que voltas? De que lei?
És tudo de quanto gosto
Me perdi e me encontrei
Nas voltas que tem teu rosto

Por que voltas? De que rei?
Em meu peito teu desenho
És tanto de quanto amei
Que és todo o mundo que tenho

E de tão rica que estou
Nunca tão pobre fiquei
Por ser assim como sou
E te saber como sei …

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