Caravaggio: ‘fatos tão evidentes não precisam de nenhuma argumentação’

Este é um texto modesto que eu fiz para a +Soma na ocasião da exposição do Caravaggio no Masp. Não tem grandes ambições, mas espero que ajude alguém.

Em 1592, com pouco mais de vinte anos, Michelangelo Merisi chegou em Roma com uma mão na frente e outra atrás. Poucos diriam que aquele rebelde, profano e violento, conhecido como Caravaggio, se tornaria um dos artistas de maior prestígio junto ao clero e a corte dos Estados do Papa.

A vida dele já daria um romance trágico. Viveu literalmente entre a cruz e a espada. Era devoto, mas bissexual, boêmio e extremamente violento. Assassinou um homem, teve malária, participou de brigas sangrentas. Além disso, na última década de sua existência, viveu como um fugitivo. Mas, foi ele que transformou o gosto e o modo de traduzir visualmente a religiosidade católica entre o século XVI e o século XVII.

caravaggio pedro
Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571 – 1610)Crucificação de São Pedro (1600)

No período, a arte romana ainda se orgulhava dos feitos dos artistas conhecidos maneiristas como Jacopo Pontormo e Rosso Fiorentino. As discussões em torno da arte se davam em torno de como trabalhar o espaço perspectivo, onde os artistas incluíam pequenas ousadias, os chamados caprichos. Era uma arte do efeito, da imaginação, da elaboração fantasiosa dos temas. As imagens estavam um pouco mais distantes do que haviam estado até o meio do século XVI. Os milagres pareciam comprovados por efeitos, mais do que pela racionalidade.

Nada mais distante dos trabalhos de juventude de Caravaggio. Suas pinturas evitam qualquer idealização. As perspectivas são minúsculas e as figuras parecem ocupar um espaço restrito. Tudo parecia excessivamente próximo. Era uma arte de uma representação direta.

Caravaggio vinha de Milão. Embora tratasse a arte como um ofício culto, formou-se em uma tradição periférica, distante dos debates de Roma ou Veneza. Criou uma pintura mais atenta aos contrastes simples de luz e sombra do que ao desenho sofisticado de Rafael e dos rafaelitas. Para um gosto tradicional, a sua obra parecia pesada. Ele se ocupava de dores e prazeres terrenos, não de uma idealização celestial.

O modo de pintar era mais direto. O artista encenava com modelos os seus motivos no ateliê e os pintava, muitas vezes, sem desenho preparatório, observando aquele teatro através do espelho. Evitava copiar os grandes mestres do passado, buscando uma forma mais concreta. A falta de composição espacial era vista como vulgar e grosseiro. Também aproximava a arte das sensações táteis. Como os efeitos do espelho podem fazer. Mais do que isso, prenunciava o gosto por temas de gênero (que seriam amplamente explorados pelos artistas do século XVII).

Os personagens, frutas, tecidos e objetos ganham presença física. Caravaggio representava temas do dia-a-dia, prazeres menores, prazeres obscenos. Muitas vezes a cor da pele indicava doença. Tudo ganha corpo. As folhas e cascas de frutas ganham cor de ressecamento, envelhecimento, decomposição. A relação entre as pessoas, lugares, tecidos indicam uma tensão erótica. A vida pintada é terrena, corpórea e carnal. Sua natureza morta, feita na juventude, quando o gênero ainda engatinhava, não mostra um cesto luxuoso, com uma mesa burguesa bem posta, mas a natureza com seus sabores, mas também suas idades. São folhas secas, cascas que escurecem.

CARAVAGGIO Canestra di frutta c. 1597 óleo sobre tela, 31 x 47 cm Pinacoteca Ambrosiana, Milão

Esse aspecto cru e cruel, direto e violento que seduziu o cardeal Francesco Maria Del Monte. Depois de ver seus Bacos, as cenas de jogo, Del Monte fez de Caravaggio seu protegido. Aquele personagem à margem aproxima-se do centro da cultura católica. É a imagem assustadora e sedutora que interessa àqueles cardeais e o papado. Uma imagem que não embelezava as figuras e não atenuava a sua presença.

Roma vivia um período tenso e violento. Não havia cem anos que o Vaticano perdera o monopólio do cristianismo ocidental, com o início da reforma protestante. O catolicismo torna-se uma cultura da persuasão, do convencimento. Nas telas de Caravaggio, milagres e martírios dos santos e de Cristo parecem mais próximos dos fiéis. Como se o artista não tentasse colocar espírito na matéria, mas carne na espiritualidade.

O crítico italiano Giulio Carlo Argan diz que se a pintura renascentista é de “argumentação tão perfeita que não é necessária a prova dos fatos” na pintura de Caravaggio “os fatos são tão evidentes que não precisam de nenhuma argumentação”. O sagrado nunca foi tão profano quanto na tela em que São Tomé enfia o dedo na ferida de Jesus. Isso não quer dizer que a pintura não seja religiosa, ela é. Só que o religioso aqui acontece na carne. A prova é sanguínea, não racional.

O interessante foi como essa imagem, cortada por luzes direcionadas, encenada, feita de posições pesadas que surgem ofuscadas na superfície da tela, deram subsídio, séculos depois, à linguagens como o cinema e a fotografia. Sua luz é direcionada, não ilumina todo o ambiente, ilumina as partes de maneira desigual. Aliás, mais que isso, ilumina as partes de maneira teatral.

Por isso os personagens são isolados, recortados em meio às sombras. não parecem dizer respeito ao resto da natureza, mas ao sofrimento que cada um carrega, mesmo no milagre. Talvez, o sofrimento venha junto com a carne, mesmo quando refletida no espelho.

CARAVAGGIO A descrença de São Tomé 1601-02 óleo sobre tela, 107 x 146 cm Schloss Sanssouci, Potsdam

Um comentário sobre “Caravaggio: ‘fatos tão evidentes não precisam de nenhuma argumentação’

  1. Me ajudou, e muito! Curiosa essa coisa da arte como discurso, não por intenção própria do artista, mas às vezes por ser instrumentalizada; daí não é apenas registro de uma conjuntura, mas coautora da conjuntura, exerce um papel ativo na construção da mentalidade de uma época (e que também significa desconstruir a mentalidade anterior, e nesse processo sempre há uma dose corrosiva de ironia). E ficam os substratos…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s