Miragem: Lucas Arruda

Este texto é a resenha da última exposição do Lucas Arruda e foi publicado na revista DASartes número 25. 

Imagem
LUCAS ARRUDA
Sem título
2012
óleo sobre tela
51 x 61 cm

Lucas Arruda parte de gêneros tradicionais da pintura. As suas telas são marinhas, paisagens. O artista parece preocupado com todas as prerrogativas do gênero: as proporções entre céu e terra, os modos de fazer a luz em cada quadro, a maneira de dispor os elementos mais verticalizados no horizonte. Mas não é só isso. Parece haver um modo de tratar a imagem que escapa a quem não presta atenção na forma.

Na sua última exposição, na Galeria Mendes Wood, no fim do ano, Lucas Arruda continua a série Deserto modelo. No mais das vezes, são paisagens litorâneas, mas agora, também começam a aparecer uma série de trabalhos com mata. Nenhum quadro é grande. Aliás, aqui, a maior parte dos trabalhos é pequena, o que faz lembrar pintores como Boudin e Jongkind.

O interesse é menos o assunto, e mais no modo como ele aparece a nós. A pintura parece guardar a ambiguidade da melhor arte moderna. É feita de uma tessitura de pinceladas descontínuas que se cruzam na tela e sugerem tanto uma forma abstrata plana como uma imagem reconhecível.

Nestes trabalhos de agora, tenho a impressão que as figuras foram ainda mais simplificadas do que em trabalhos anteriores. Arruda chamou a atenção para aspectos mais estruturais da obra.

Imagem
LUCAS ARRUDA
Sem título
2012
óleo sobre linho
40 x 40 cm

Em algumas das paisagens mais interessantes, o quadro tende a uma cor só. Lucas Arruda trabalha com gestos mais carregados de tinta sobre uma superfície mais rala de valores do mesmo espectro de cor.

Uma marca sobre a outra sugere uma variação. Como a variação tonal é pequena, a cor parece se diluir, as figuras parecem se desfazer e a imagem também parece ter pouca solidez.

Em um pequeno quadro que tende à cor de chumbo, temos a impressão de que o artista escolheu uma paleta muito parecida para descrever o lugar que ele mostra. Assim, água, céu, areia, tinta, tela, parecem compartilhar da mesma natureza. É como se o material fosse disposto em movimentos horizontais e seguisse um movimento de sedimentação. Esse movimento parece ser desmentido por áreas mais dispersas da tela. A pintura parece ser feita dessas imagens que ora aparecem com muita clareza, mas é permeada de lapsos.

Esse modo de descrever um lugar tem algo das virtudes e das vicissitudes das nossas lembranças. A imagem parece incompleta, imperfeita. Além disso, também parece tornar aqueles lugares mais distantes de nós.

As lembranças cuidam de subtrair o que queremos esquecer. Se revivêssemos o que passou, talvez a lembrança perdesse a validade. Quanto mais nos aproximamos, essas paisagens de Lucas Arruda também parecem desaparecer. São miragens. Se carregam alguma ilusão, é aquela dos afetos, que encontra em pessoas e lugares o que ninguém mais vê.

Imagem
LUCAS ARRUDA
Sem título
2012
óleo sobre linho
24 x 30 cm

2 comentários sobre “Miragem: Lucas Arruda

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