Pugilato filosófico – a etiqueta do conflito intelectual

 Esse comentário foi escrito em resposta a uma reportagem de Uirá Machado, na Folha de São Paulo, à época das eleições municipais de 2012. Nela o jornalista relatava – ironizava, sejamos justos – a suposta petulância de passagens da tese de doutorado do então candidato Fernando Haddad, defendida no departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, em que ele comentava com viés crítico a obra de filósofos, clássicos e contemporâneos, globais e locais. Me incomodou nela não apenas o subtexto amarrozado, por assim dizer – José Serra despencava rumo à derrota, Haddad subia nas pesquisas, o que pode ter ou não incomodado parte da equipe, ou mais propriamente da direção, daquele jornal, e daí a pauta meio gratuita – mas a falta de compreensão da natureza da própria vida intelectual, institucionalizada em universidades e suas dinâmicas e ritos, puramente acadêmicos ou nem tanto. O texto fez que ia sair na própria Folha mas não saiu, e ficou guardado na gaveta. Tomando carona na iniciativa do Lauro, o guardião eterno do Guaciara, resolvi postar o bichinho para ele pelo menos tomar um ar. É meio metido a sério e posudo, talvez, mas a intenção era tentar não contaminá-lo com o calor das eleições. Eu o dediquei na época, e dedico aqui novamente, à memória do professor Antônio Flávio Pierucci.

            A vida intelectual é fundada no conflito. Inovação e criatividade, em todas as áreas da vida acadêmica, pressupõem oposições e rivalidades. A imagem convencional do filósofo ou do cientista metido com seus pensamentos em seu gabinete, ou tomando notas solitariamente durante a pesquisa de campo ou no laboratório para depois apresentar, triunfalmente, seus resultados a uma audiência embasbacada, satisfaz nosso desejo de paz e concórdia na Torre de Marfim (o já folclórico azedume da política acadêmica à parte) – afinal, seus habitantes estariam desde sempre envolvidos em uma busca compartilhada pela Verdade –, mas é falsa. “Não devemos nos esquecer”, escreveu o economista Joseph Schumpeter, “que escolas de pensamento são realidades sociológicas. Elas possuem estruturas próprias – relações entre líderes e seguidores – suas bandeiras, seus gritos de guerra, seus humores, seus interesses demasiado humanos. Seus antagonismos fazem parte da sociologia dos antagonismos de grupo e das guerras de facções. Vitória e conquista, derrota e perda de território, são em si mesmos valores para todas as escolas de pensamento, e parte de sua existência”.

Dar um passo atrás e olhar com certa distância sociológica os episódios de disputa intelectual pode nos deixar menos assombrados com sua aparente violência ou falta de modos e entender melhor os motivos estruturais que levam a vida acadêmica a se organizar em torno dessas rivalidades.

Territórios em disputa

Intelectuais têm em comum com gangues juvenis e Estados o fato de disputarem espaços escassos. No caso destes últimos, estão em jogo áreas de controle e influência – seja o do comércio ilegal em um bairro ou de recursos naturais estratégicos – via o monopólio, legítimo ou de fato, do exercício da violência. No caso dos primeiros, está em disputa o que se convencionou chamar de espaço de atenção intelectual – o lugar da “ação intelectual” –, igualmente escasso. Assim, onde há criatividade intelectual há rivalidade em função da disputa por recursos via de regra minguados. O campo intelectual se divide historicamente em no mínimo duas posições (uma andorinha só não faz verão) e no máximo seis. Abaixo disso há estagnação intelectual, pouca ou nenhuma criatividade, repetição e ortodoxia, o fantasma de alguma figura proeminente que esqueceu-se de deixar tarefas instigantes para a geração posterior; acima desse patamar máximo, há uma cacofonia que se sustenta por pouco tempo e indica um período de crise e reorganização dos espaços de atenção. Não é de surpreender, então, que, assim como no caso gangues e Estados, o padrão básico da vida intelectual seja o de formação de alianças e o estabelecimento de rivalidades.

 Gentileza e acrimônia

Essa rivalidade pode assumir, no entanto, pelo menos duas formas diferentes. Quando se trata de demarcar uma nova posição a partir de um capital cultural herdado, ao qual o membro de uma nova geração queira se associar sem se subordinar, o racha pode ser gentil: “Platão é um grande amigo”, teria dito Aristóteles a respeito de seu mestre, “mas a Verdade uma amiga ainda maior” (verdade aqui sendo um código para “minha posição”).

Mas as rivalidades podem ser mais intensas e azedas, em especial quando se trata de intelectuais que por força das circunstâncias, e não por falta de talento, se viram excluídos dos espaços de atenção disponíveis. Schopenhauer dava pulos de ódio ao ver seu colega Hegel assumir a posição de super star do Idealismo alemão, arrastando pequenas multidões para suas conferências enquanto as de Schopenhauer ficavam literalmente às moscas. Ambos foram alunos de Fichte, ambos estavam na linha de sucessão prontos para assumir o papel de nova eminência da filosofia na Alemanha. Mas tratava-se de uma cidade pequena demais para os dois, e Schopenhauer teve sorte de viver o bastante para ser redimido pela geração seguinte de intelectuais (entre eles, famosamente, Wagner e Nietszche) e salvar-se de uma provável condenação a uma posição secundária no panteão do Idealismo.

Boa parte do caráter corrisivo da prosa de Marx também pode ser atribuída ao sentimento de ter ficado, em vida, de fora do agito. Os alvos de sua crítica ácida em A ideologia alemã – Feuerbach, Bruno Bauer, Stirner – haviam sido seus companheiros de círculo de discussão filosófica, e todos saíram na frente com a publicação de seus sistemas. Bakunin e outras figuras do movimento revolucionário que provaram do veneno de sua pena também haviam conseguido se sentar primeiro na cadeira que Marx julgava ser sua por direito. (Postumamente, Marx assumiria o papel de padroeiro de (quase) toda revolução, real ou imaginária).

Há ainda uma outra espécie de acrimônia na disputa intelectual, quando o que está em jogo é um embate não intra, mas intergeracional. Aspirantes correm o risco de parecer pouco originais, ainda mais quando trabalham sob as asas de um intelectual eminente. Nesses casos o embate pode ser mais incisivo, quando o aspirante pressente no ar a abertura de novos espaços a serem ocupados por quem tiver mais talento ou chegar primeiro. Muitas vezes a estratégia de sobrevivência de quem não quer assumir o lugar mais modesto de seguidor é atirar para todos os lados. O conflito é constitutivo do mundo intelectual, e condição para que seja um ambiente marcado pela criatividade e não pela repetição escolástica de ortodoxias.

Lutando morro acima

Esses lembretes sobre a natureza conflitiva do mundo intelectual ajudam a repensar o sentido das anedotas acadêmicas recontadas por Uirá Machado em artigo nesta Folha, envolvendo o professor e candidato a prefeito Fernando Haddad e outras figuras importantes da faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, o filósofo José Arthur Giannotti entre elas, assim como dos comentários supostamente pretensiosos de sua tese de doutorado.

É claro que, feitas as contas, academicamente Haddad, enquanto aspirante, estava lutando morro acima. Gerações anteriores – Giannotti, Ruy Fausto e Paulo Arantes, para ficar com exemplos locais – estabeleceram um padrão altíssimo para os estudos de clássicos da filosofia moderna, Hegel e Marx entre eles.

Discordar de um intelectual e elegê-lo como rival, no entanto, é reconhecer sua centralidade no debate.“Para manter-se na linha de frente da ação intelectual”, escreveu o sociólogo norte-americano Randall Collins, que reconstruiu em detalhes esses vínculos de conflito que atravessam a longuíssima história universal dos intelectuais, “é preciso estar antenado com o ponto onde as linhas de oposição estão em mutação; um intelectual formula não apenas a sua posição, mas a sua posição enquanto distinta de posições que são muito parecidas com as suas, e também enquanto ponto de oposição às de seus  rivais proeminentes.”

Intelectuais estabelecidos e aspirantes entram necessariamente em oposição. Muitas vezes são pesos-pesados, e o ruído dos sopapos que trocam, muitas vezes em público, pode assustar uma audiência menos acostumada à rispidez dessas situações. Um murro de George Foreman poderia custar a vida a mim e a você; Muhammad Ali, no entanto, aguentou oito rounds seguidos de jabs, diretos, cruzados e uppercuts do então campeão até levá-lo à lona. Foreman jamais deixaria isso acontecer se seu rival não soubesse bater e apanhar como gente grande.

Refração

É claro que o debate intelectual reflete – ou antes, refrata – outros posicionamentos: políticos, por exemplo. Como o próprio artigo nos lembra, a tensão espelha uma outra, entre PSDB e PT. Essa é a principal lição do estudo de Pierre Bourdieu sobre a “ontologia política” de Martin Heidegger. A interpenetração de crise econômica, política e universitária dos anos 1920 na Alemanha se traduziu, na obra de Heidegger e de outros pensadores conservadores contemporâneos seus, numa metafísica da decadência. Da mesma maneira, quando um intelectual favorece uma ou outra interpretação de um clássico (como Marx ou Habermas) também indica onde repousam suas lealdades, filosóficas mas também políticas.

As regras do jogo

O que soa como desrespeito e pretensão é, nessa perspectiva, indício da autonomia do debate intelectual num país cuja democracia mostra sinais de boa saúde, no qual política e universidade se interpenetram sem se colonizar. Um ambiente que permite que intelectuais conduzam seus embates em termos puramente – ou quase – disciplinares, disputando interpretações e pretensões de validade no seu jargão próprio, jogando um jogo cujas regras todos reconhecem como legítimas, ainda que vez por outra alguém na geral grite “falta!”.

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