Toda revolução é um lance de dados (Straub & Huillet, 1977)

Em São Paulo, o ano começou ontem, com essa mostra dos filmes que Danièle Huillet e Jean-Marie Straub fizeram juntos. A mostra acontece no CCBB e se não me engano, tá tudo lá. Irei ao maior número de filmes possível.

Eles são provavelmente uns dos artistas mais influentes do século XX. Dos que trabalham em dupla, acho que sua influência só é comparável à de Bernd e Hilla Becher (mas tenho a impressão que Straub e Huillet  talvez sejam mais influentes). Aliás, eles também foram alguns dos artistas que levaram o debate a partir da obra do Brecht mais longe. Tanto no aspeco da encenação como do engajamento.

Poucos filmes deles estão disponíveis no Brasil, a oportunidade, portanto é unica. Deixo como aperitivo o filme que eles fizeram sobre o Lance de dados  do Mallarmé. Serve como convite para a mostra e uma provocada inocente no SOPA.

Mostra Straub-Hiillet – CCBB (Rua Álvares Penteado 112, Centro). Telefone (011) 3113-3651. De 3ª a domingo. R$ 4. Próximo às estações Sé e São Bento do Metrô.

11 3113-3651/3652
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3 comentários sobre “Toda revolução é um lance de dados (Straub & Huillet, 1977)

  1. Detalhe: li num artigo que o morrinho sobre o qual estão sentados os recitadores do poema-constelação do Mallarmé foi onde teriam sido depositados os corpos de alguns revolucionários da Comuna de 1871.
    Aliás, diversos montes ou montanhas são vistos nos filmes do casal Straub-Huillet, com diversos significados.
    Eu já vi uns 15 filmes da Mostra – não verei mais porque não poderei… Uma crítica que faço é: como podem espremer 40 anos de produção em apenas duas semanas? Fica difícil ver tudo, por mais que se queira e se tenha vontade.
    Então, como dica para quem não terá tempo de ver nem mesmo os 15 que vi, deixo:
    1. Todos os primeiros filmes feitos na Alemanha, até “Crônica de Ana Magdalena Bach” – formam um tipo de bloco, reacessado mais tarde, em termos estilísticos, no filme “Relações de Classes”, já da década de 80;
    2. “Othon” – esse filme é simplesmente a maior pancada que tomei dum filme nos últimos anos; será preciso revê-lo outras vezes para começar a vê-lo: porque ouví-lo é quase tudo que se pode fazer numa primeira visão;
    3. “Moisés e Arão” – Schoenberg e Straub-Huillet partilham vários preceitos e temas;
    4. “Da nuvem à Resistência” – aqui se lançam as bases do que virá a ser um novo ciclo estético e material na trajetória do casal, em diálogo com os filmes baseados em livros do Vittorini;
    5. “A morte de Empédocles” e a “Antígona” – parte de uma espécie de trilogia Holderlin, ambientados na Antiguidade, e lidando com temas essenciais ao casal: poder, insubordinação, juventude, morte.
    Abração!

  2. Estou internado na mostra (quando o trabalho deixa). Fui nas sessões do primeiro dia e em uma de cada outro dia. Se tudo der certo, amanhã vejo uns dois filmes. Tem sido um prazer indescritível.

    Agora, estou besta com Moisés e Aarão. Talvez seja um dos filmes mais bonitos de todos os tempos. É daqueles momentos em que eu queria que todos os meus amigos estivessem lá. Já havia assistido ao filme e já vi uma encenação da ópera, mas talvez pelo momento da minha vida, talvez por maior maturidade, nunca havia me emocionado tanto. A fala da segunda seqüência já é pra animar defunto. Todo o filme (tal como a ópera) gira em torno da ideia de como convencer da salvação por um Deus que se recusa a se mostrar. Um Deus invisível, irrepresentável, infinito e ilimitado. Um Deus e uma salvação que não se mostraram nunca.

    Tendo isso como condição, como seguir adiante na tarefa da salvação do povo escolhido? A diferença é que se trata de falar sobre isso com imagens, mais, com planos de cinema, com duração, materialidade, e uma luz que eu vou falar.

    E os Straub – Huillet fazem isso de maneira magistral. Os planos são simples, secos e nenhum se mistura com o outro. Cada plano, planos longos, é uma ação e elas são separadas. A segunda seqüência de Moisés e AArão diante dos judeus é uma das coisas mais lindas que eu já vi. O modo como eles mostram Deus, seja na natureza, ou naquele furta-cor é uma das formas mais fortes de representam que eu já vi. Acho que com os filmes do Dreyer, Godard, poucos fizeram cinema com imagens tão lindas. A Juliana que estava comigo e amou a Paixão de Joana D’Arc expressou a mesma emoção.

    Como disse a cima, é daqueles filmes pra assistir com as pessoas que você mais gosta e papear o resto da vida. Saímos do CCBB e o mundo caia. Mas a presença das questões do filme era muito mais forte.

  3. Quem me dera poder ver isso! Praticamente nada da obra do casal foi exibido em película no Brasil. Lembro-me só da “Crônica…”. O único filme deles que saiu em vídeo aqui é o recente e sempre belo “Sicilia!” (com o título “Gente da Sicília”), baseado no romance de Vittorini.
    Dessa raça de cineastas raros lembraria, além de Dreyer e Godard, o Bresson e o Pedro Costa, que, aliás, fez o mais belo filme sobre o cinema já realizado (segundo Godard – e eu concordo): “Onde jaz o teu sorriso?”, que é sobre o casal na montagem de “Sicilia!”. Aula de cinema, no sentido literal e metafórico, e de vida.

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