Pontapé inicial – Impressões sobre a bizarra experiência de participar do primeiro chute da Fifa para a Copa do Mundo 2014, por Maria Carolina Trevisan

Sim , sim, o blog anda meio parado e o acúmulo de tarefas dos três responsáveis por este espaço tem impossibilitado aquela atualização ágil e o debate moleque que sempre rolou nessa linda plataforma. Não temam, as coisas estão ficando mais tranquilas e acho que a alegria deve voltar a ser mais frequente por aqui. Pra começar, publicamos  o texto da nossa grande amiga Carol Trevisan – que é jornalista e trabalha com iniciativas da área social – sobre sua participação no primeiro evento da Copa do Mundo de 2014 e todas as cores que o império absolutista da bola brasileira pode ter. Para ler, recortar e comentar:

Pontapé inicial – Impressões sobre a bizarra experiência de participar  do primeiro chute da Fifa para a Copa do Mundo 2014, por Maria Carolina Trevisan

Bom humor e muita emoção...

Rio de Janeiro, 29 de julho. Seis e meia da tarde. Hora do rush na cidade maravilhosa. Ônibus lotados, carros e pedestres se misturam a um lusco-fusco que cega. As luzes vermelhas das lanternas em fila contrastam com a Baía de Guanabara, o cheiro da maresia e uma temperatura amena, o que faz do calçadão de Copacabana o melhor lugar para se estar.

Mas era hora do compromisso. Os ônibus com convidados da Fifa para o banquete que antecede o sorteio das eliminatórias da Copa 2014 partiam do luxuoso hotel Windsor Copacabana rumo ao Pier Mauá. O convite, assinado por Joseph Blatter, presidente da Fifa, e Ricardo Teixeira, presidente da CBF, sugeria como traje “bussiness atire”. Pouco a pouco os assentos foram ocupados por homens de terno-uniforme azul escuro, idênticos e com a palavra FIFA bordada no canto esquerdo do paletó. Para acompanhar, loiras perfumadas, cabelos em laquê, vestidos longos e brilhos mais adequados a casamento de princesa.

Esse foi o primeiro choque. O segundo, golpe bem mais forte, foi perceber que esse veículo cheio de desconhecidos e desimportantes seria escoltado por pelo menos quatro batedores da Polícia Rodoviária Federal, montados em uma bela Harley Davidson vintage. A população, espremida nos coletivos, era literalmente apartada para deixar passar sem atrasos tão distinguida turma. Foram pelo menos 10 desses. E assim, a Fifa, o governo e a prefeitura do Rio, começaram a mostrar que a elite brasileira, política e futebolística, é capaz de organizar uma Copa do Mundo. Deu vergonha.

Na chegada ao pier, os convidados eram recebidos com champanhe Chandon rose, caipirinhas, claro, e vários petiscos típicos de sabores irreconhecíveis. Carros pretos brilhantes, com motoristas negros brilhantes, estacionavam em uma área ultra vip (VVIP, segundo a Fifa O que seria? Very Very Important People? #medodessagente). Desembarcavam ali cartolas, ministros, prefeitos, secretários e secretários dos secretários. Perceber essa divisão entre as pessoas foi o choque número três. Mas não acabou.

Choque número quatro: com tantos VVIP, o mar seria um meio de ataque terrorista óbvio e fácil. Para evitar qualquer atentado, um barco da polícia esteve de prontidão do começo ao fim do evento, garantindo a segurança de todos nós. Enquanto isso, conversava-se, fumava-se e bebia-se a vontade. Até que as portas para o banquete foram abertas.

Cartões nominais espalhados sobre as mesas guiavam os comensais. No mapa de lugares, mais um choque: a Fifa guardou para a área de responsabilidade social uma mesa no lugar mais importante, primeira fila, cara a cara com o palco. Era a patota da “Corporate Social Responsibility” dividindo espaço com o Ministro do Esporte, Orlando Silva, o governador do Rio, Sergio Cabral, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, além de Blatter, Teixeira, Havelange, Cafu, Bebeto, entre outros. O que isso significa?

Estava, então, claríssimo que faz parte da reconstrução da imagem da Fifa dar importância à sua área de responsabilidade social. E o cheiro do poder é ludibriante. Pode mesmo embriagar a vista de quem não estiver atento e preparado. Os “privilégios” não paravam: o cardápio em português e inglês anunciava fettuccine de palmito pupunha, camarão ao gengibre com couscous marroquino, filet em crosta de ervas e haricot vert, além de mil sobremesas. E champanhe a vontade. Para nós, serviço na mesa. Para o resto, só buffet.

Havia cerca de dois mil convidados. Na mesa VIP da responsabilidade social éramos nove. Bem poucos para tamanha missão. Em meio ao rega-bofe, o “muito obrigada” em português forçado do Mr. Blatter. Assim que o jantar terminou todo o mundo saiu correndo de volta para o hotel, em um estranho movimento de fuga. Na volta, a mesma escolta vergonhosa, agressiva e, ao mesmo tempo, muito reveladora.

O sorteio

Mas o grande show aconteceria no dia seguinte, na Marina da Gloria. Gastou-se cerca de R$30 milhões, entre prefeitura e governo local, para que o sorteio das partidas preliminares da FIFA World CUP fosse um sucesso e continuasse mostrando a capacidade do país em receber o megaevento. Fui com a convicção e a esperança de que alguma coisa importante pudesse acontecer, além das bolinhas, mas decidi não mais aproveitar a carona em ônibus escoltado. As presenças ilustres contrastavam com a manifestação do lado de fora que pedia “uma Copa do povo” e “ fora Teixeira”.

Para adentrar o local do evento, era necessário passar pelo controle da Polícia Militar, pelo raio x e pelo scanner de bolsas, além de deixar isqueiros ou outros objetos “perigosos” para trás. Na entrada, um corredor com estandes das cidades-sede mostrava as promessas de cada uma, seus merchandisings, marketing propositions, presentations e folders. Tudo em inglês, logicamente. O mundo do futebol internacional não fala português. Mas parece que ama o Brasil.

Soou o sinal e era momento de entrar. A TV Globo não poderia tolerar atrasos. Ventava muito e a tenda ameaçava sair voando. De novo, a elite estava ali, ocupando suas praças reservadas. E o grupo da responsabilidade social, outra vez, na primeira fileira. Foi o choque número seis: apenas dez metros nos separavam de Blatter, Grondona, Teixeira, Havelange, Pelé, Cafu, Neymar, Bebeto, Zico, Zagallo, Ronaldão, e, mais tarde, da Presidente da República do Brasil, Dilma Roussef. Não dava para acreditar.

Choque número sete: repetiu-se muitas e muitas vezes, para todos os cerca de 600 milhões de telespectadores de mais de 200 países, que a Copa do Mundo 2014 é, agora, a “Copa do Mundo da FIFA”. No Brasil, fala-se Copa do Mundo e ponto, sempre foi assim. Agora, a “Copa do Mundo da FIFA” é marca registrada e tem preço.

Os discursos que se seguiram foram elucidativos. Estava claro que Pelé (escolhido como embaixador honorário da Copa) e Teixeira não estão de amizade, que o rei é aliado de Dilma e que a presidente não dá a menor bola para Teixeira ou Blatter. As falas do governador e do prefeito do Rio mencionaram o legado da Copa e ressaltaram avanços nos campos esportivo, estrutural e econômico, na mobilidade urbana e no saneamento. Eduardo Paes passou quase perto ao dizer que “futebol não tem classe social” e que é “um meio de transformação”, porém, não disse nada sobre sua função e seu papel em um mega evento para diminuir as diferenças sociais. Mas citou o ex-presidente Lula e declarou: “o maior legado da Copa é a auto-estima do povo brasileiro”. Mas, e se o Brasil perder a Copa? Suicídio geral?? Choque número oito.

A situação melhorou quando a presidente Dilma subiu ao palco. Falou em liberdade, justiça social e paz como legados. Não era possível iniciar esse evento sem que ao menos essas palavras fossem lembradas. Em resumo: a Copa do Mundo da Fifa é uma coisa. A Copa do Mundo de Futebol, no imaginário do povo brasileiro, é outra coisa. E é de todos.

A partir daí começou o momento bolinhas, uma espécie de bingo. Estrelas como Neymar, Cafu, Ronaldo, Bebeto e Lucas sortearam a teia de jogos eliminatórios até a Copa. Os cerimonialistas vestidos de gala, Fernanda Lima e Tadeu Schmidt, apresentadores da TV Globo, anunciavam cada passo. O deslize ficou por conta de Schmidt, que equivocadamente chamou Ronaldo de Romário, sendo este último persona non grata na Fifa, a ponto de nem aparecer em nenhuma das imagens de futebol brasileiro que se mostrou. Entre um sorteio e outro, com pequenos shows nos intervalos, vídeos de pessoas como Gisele Bündchen (expert no tema), Paulo Coelho (!!) e até Oscar Niemeyer tentavam convencer os presentes da capacidade brasileira de receber a Copa, lembrando que futebol é a paixão nacional, mas esquecendo de seu componente tóxico, o ópio do povo.

Como vocês viram, saí chocada de todo esse espetáculo. Preocupada também. Mas entendi que há um espaço que precisa ser ocupado por propostas e ações e que o momento é agora. Se a Fifa está precisando da ala da responsabilidade social para mudar a sua imagem e nós queremos uma Copa do Mundo com o mínimo de efeitos sociais nocivos – queremos o contrário -, é preciso aproveitar (com olhar crítico, sempre), impôr o papel da sociedade civil e propor alguma alternativa. Porque o pontapé inicial (kick off) da Copa foi dado. Mas é o povo brasileiro que está sendo chutado.

5 comentários sobre “Pontapé inicial – Impressões sobre a bizarra experiência de participar do primeiro chute da Fifa para a Copa do Mundo 2014, por Maria Carolina Trevisan

  1. ótimo texto. é isso mesmo. a copa deixou de ser uma coisa pra quem gosta de futebol e começou a ser uma coisa pra quem gosta de luxo, poder, mala luivitton (a mala que levou a última taça, ó que merda), mala preta, branca e os malas que ficam correndo atrás de auto-promoção. uma chatice. a copa américa foi um péssimo futebol, mas pelo menos pudemos contar com a baranguice dos argentinos que mandaram todo mundo praqueles estádios chulés no cafundó e com zagueiro que não quer saber se é messi, neymar ou pato e descem o chinelo igual. se não fizer gol vai pra casa e pronto. agora copa do mundo não tem isso. se a coréia não consegue fazer gol e toma, anula o gol da espanha e valida o da coréia. gente, o itaquerão NÃO TEM GERAL! e destruíram o pronto-socorro que ficava lá do lado pra passar uma via praquela merda. a dona maria que leve seu filho pra catanduva, sei lá. coisa de gente colonizada, credo. FORA FIFA!

  2. Excelente texto, descrição e espírito crítico da autora. Se o Brasil tivesse mais Marias como essa, menos deslumbradas e mais pro-ativas, poderia ser chamado de Nação com N…Sensacional!

  3. Rafael, é isso: olhos abertos porque o que vem junto com a Copa – do ponto de vista social – é foda. Obrigada pelo comentário.

    Ju, não zoa! rsrs

  4. Muito bem observado! A autora com sua observação realista “sem maquiagem” transmitiu com fidelidade o escárnio coletivo que vivemos em dias de copa da FIFA. Na minha opnião, esse “mega-eventos” que ocorrerão no Brasil, são como as festas que fazemos em casa: Gastamos dinheiro, o povo sai falando mau, e no dia seguinte, além de acordar de ressaca, temos que arrumar a bagunça que ficou… É ISSO AI BRASIL!!! (e dá lhe ópio)

  5. Me dá calafrio de pensar no preço dos ingressos, na torcida – que não tem costume de ir à estádio, mas sim a eventos VIPs, liderada pelo Luciano Huck cantando “eu sou brasileiro, com muito orgulho, etc e tal”….de arrepiar a bile!!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s