TERRA DE NINGUÉM . ESPAÇO E TEMPO NA OBRA DE JESSICA BARLOW E GABRIELLE SELLEN

A revista Mais Soma publicou esse texto, resultado de um primeiro contato com o trabalho dessas duas artistas. No fim, não sei se ele ficou a altura da qualidade da revista. Mesmo assim, depois de um longo intervalo, resolvi publicá-lo no blog. Acho que merece. Primeiro, porque tapa o buraco. Nos últimos tempos, estou muito ocupado  e a coisa aqui está devagar. Além disso, um pouco depois de entregar o texto, escrevi um parágrafo que estava fora da versão original e incluí aqui. O escrito ficou mais longo, com um degrau a mais. 

Jessica Jane Barlow

Muitos conheceram lugares distantes através da arte. Por exemplo, é bem provável que a maioria dos jovens falantes de língua alemã do começo do século XX tenha tido seu primeiro contato com o Oriente Médio através das estereotipadas aventuras de Hadji Alef Omar (Bin Hadji Abul Abbas, ibn Hadji Dawul Dalgossara), da série de romances iniciada com “Através do Deserto”, de Karl May (o mesmo de Winetou).

Fico a pensar no impacto que os relatos de Marco Polo ou as pinturas de Rugendas tiveram para construir a visão europeia sobre o extremo oriente chinês e a floresta tropical brasileira. O curioso é que a maior parte dos relatos foi feito por gente que nunca tirou os pés de seus domínios. Gente que inventava esses espaços distantes ou que imaginava como sua terra natal havia sido décadas atrás, séculos atrás.

Esse uso da imagem, da imaginação, para recriar lugares onde nunca se esteve é muito antigo. A arte lida com isso desde que não tinha esse nome. Criar passados ideais, futuros assustadores e terras distantes. Muitas vezes se tratava apenas de uma oposição destinada a exaltar o lugar onde se vivia, depreciar as pessoas que vinham de fora ou expor acontecimento poucos elogiáveis da história de determinado local. Nesse caso, o uso de Gauguin de imagens da vida do dia a dia da Polinésia parece ser exemplar.

Mas, se até algumas décadas atrás o recurso servia para atiçar a curiosidade dos lugares desconhecidos, hoje não parece ter a mesma função. A arte contemporânea continua a recriar lugares distantes, sobretudo lugares distantes que nunca estiveram em lugar nenhum, nem na história e nem na cartografia. No entanto, hoje essa criação não aponta para formas de vida que neguem as formas de organização da sociedade.

No ano passado, em Londres, pude conhecer duas artistas inglesas muito jovens que tentam, a partir de sua produção visual, reinventar um lugar distante no tempo e no espaço daquilo que elas imaginam que seja Londres. Uma faz isso no tempo, a outra, no espaço. Uma inventa o que seria uma arte contemporânea brasileira, e a outra, o que seria a produção gráfica de décadas atrás.

Gabrielle Sellen inventa um Brasil mítico em suas esculturas, penetráveis e instalações. Já Jessica Jane Barlow não parece interessada em fazer a arte de outro país em sua terra natal, mas recria uma estética a partir da precariedade da linguagem de fanzineiros que publicaram seus trabalhos antes que ela nascesse. Sua estética parte das deficiências técnicas das artes gráficas da cultura xerográfica do punk hardcore da década de 1980. Assim, uma trabalha como se fizesse arte de um outro país, e a outra ilustra como um artista de outra época. Porém, esse uso de elementos de outros lugares aqui se assemelha mais a uma fantasia do que à recriação de outro lugar, o que me parece muito interessante.

Gabrielle Sellen

Gabrielle tem razões íntimas para refazer as experiências sensoriais do Brasil em sua obra. Filha de uma brasileira, só conheceu o país há bem pouco tempo. Conhecia as histórias e os sabores nacionais através da mãe, nascida no interior de Minas Gerais. Assim, antes de começar o curso de artes plásticas em Camberwell, pesquisou a cultura brasileira e se deliciava com a pronúncia de uma língua tão macia como o português do Brasil.

Gabrielle se identificou com a arte sensorial produzida pelos neoconcretos e seus herdeiros. A obra de Hélio Oiticica dos anos 60 seria seu totem, mas ela associaria essa produção (sobretudo a instalação Tropicália, exposta na Tate) às obras de outros artistas contemporâneos brasileiros, como Ernesto Neto, Laura Lima, Cildo Meireles e Beatriz Milhazes.

Mas Hélio Oiticica e as ações terapêuticas de Lygia Clark eram o que ela queria fazer. Interessava-se pelo uso de materiais baratos e a soma de sensações visuais, táteis, corporais. Ou seja, de um uso da arte como forma de atiçar todos os sentidos. No Brasil, se encantou com os tecidos de chita, e a escultura passa a ser algo para vestir e para entrar, para ter uma experiência mais íntima que a do olhar distanciado.

O curioso é que, ao contrário do que ocorre com Oiticica, por exemplo, não se trata de uma experiência de enfrentamento, mas do uso de materiais e formas bastante codificadas que emulem uma experiência de “brasilidade”. O risco de resvalar no estereótipo é tão grande como os dos europeus que fizeram dos desertos asiáticos um lugar “exótico”.

De forma distinta, Jessica Jane Barlow se vale da produção punk DIY, cujo aspecto formal é o alvo de seu interesse. A artista tem como linguagem principal a produção de impressos, aos quais associa imagens improváveis. Um desenho feioso (os desenhos são a pior parte de sua produção) passa a atribuir sentido a uma foto misteriosa. Somos surpreendidos ao descobrir que a artista está reconstruindo narrativas da literatura contemporânea usando um expediente que parece precário e provisório.

Ela se vale do modo de compor dos fanzines. É muito interessante observar, através de seu trabalho, como o punk agora se tornou um discurso completamente incorporado à cultura dos jovens ingleses. Não é mais feio, nem agressivo, mas um modo de reunir materiais.

Jessica cria ilustrações e as associa ao texto como se fosse a editora de um fanzine que líamos (nós com mais ou menos 30 e 40 anos) quando adolescentes. Não vemos mais a linguagem como uma deficiência, ou fragilidade, mas como estilo.

Assim, suas composições monstruosas e com forte comentário social acabam pensando o punk como somente mais um capítulo da história da arte. Curiosamente, é essa a versão que domina o pensamento crítico inglês hoje. Uma maneira de recriar o punk como uma forma estética como qualquer outra, que não parece ir contra nada, apenas o mau gosto. Acho inclusive que críticos como Simon Reynolds são responsáveis por essa associação entre a podreira e o bom gosto. Entendo que tal recriação do punk como estilo e não mais como uma forma crítica de pensar tem seus limites, mas isso fica para outro dia.

Mas incomoda, pro bem e pro mal, o modo como essas duas meninas façam de realidades que pouco conhecem, lugares para tentar se diferenciar quem as circunda. Claro que o papo é entre gente honesta. Mesmo assim, mostra uma nova e, ao meu ver menos interessante, relação que a arte e a subjetividade parecem ter no início do século. Vamos depois pro que parece valer mais a pena.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s