A gente quer inteiro, por Walter Hupsel

Nosso amigo Walter Hupsel é colunista do Yahoo e já melhorou bem os conteúdos do Guaci, colaborando por aqui. Em uma semana passada tão triste com as mortes de Abdias d Nascimento, Gil Scott Heron e dos ambientalistas Zé Cláudio Ribeiro e sua esposa Maria do Espírito Santo, além da triste e avassaladora derrota do ambientalismo no Congresso Nacional, a Marcha da Liberdade (e pela maconha que não pode ser mencionada) deu um alento ao insistente conservadorismo e interrompeu uma sequência ininterrupta de repressão de Estado às manifestações em São Paulo que já durava mais de 8 anos. A Vice publicou um relato bem divertido e Walter Hupsel traz um outro olhar sobre o que aconteceu da Paulista a República em São Paulo. 

A gente quer inteiro, por Walter Hupsel


Vamos tentar começar com um lide careta: Sábado, dia 21, teve a marcha da maconha em São Paulo. Na calada da noite da sexta-feira anterior, um desembargador resolveu que não curte estas coisas de liberdade e concedeu uma liminar ao Ministério Público proibindo a marcha com base numa parada que é difícil de entender: apologia ao crime.

Bom, podia falar eu que qualquer protesto para a mudança de uma lei é, por definição, fora da lei, e, por isso, seria esta parada aí de “apologia”. Pro tal desembargador é isso mesmo, conforme-se ou apanhe.

Uns abnegados fizeram a marcha assim mesmo. Acharam que pedir mudança nas leis não é crime, e por isso, ao invés de fazer uma passeata pelo direito de tomar um cafezinho na padoca da esquina, foram falar de liberdade.

A polícia também não curtiu muito isso aí. Durante a marcha da maconha, ofendidos com a tal liberdade de expressão, desceram o sarrafo feio na galera. Jogaram bombas, atiraram balas de borracha com armas de calibre 12 (escopeta). Uma polícia eficiente e bem técnica a da tucanolândia. As imagens são chocantes, assim como os relatos dos participantes. Enfim, a ordem pública foi cumprida, com requintes de crueldade, mas foi.

A violência legal do magistrado e a violência brutal dos gambés irritaram uma galera, que resolveu marcara para o Sábado seguinte uma nova marcha, a da liberdade.

Com a marcha marcada, o mesmo Ministério Público entrou novamente com um pedido de liminar para acabar com a nova marcha, a da liberdade. (só eu que acho irônico uma decisão judicial proibir a liberdade?).

O pedido foi julgado procedente por um outro desembargador, que também concedeu a liminar, também na calada da noite da sexta feira (impedindo que qualquer pessoa viesse a questionar a liminar, por falta de tempo hábil). Fã de Tom Cruise e do Minority Report, este brilhante sujeito viu na marcha da liberdade a possibilidade única de criar a figura do crime avant la lettre. A marcha da liberdade estava proibida porque seria uma marcha da maconha disfarçada, e as pessoas iriam lá pro MASP cometer apologia ao crime.

Mais um motivo pra ir, pensei eu, uma brutalidade desta não pode passar.¡No Passarán!

Fui, cheguei cedo, e comecei a ficar assustadíssimo com a quantidade de policial. Já vi clássicos na Fonte Nova com menos polícia. Mas eles tão certos, gente nas ruas pedindo a liberdade é muito, mas muito mais perigoso que um clássico com torcidas rivais.

O MASP tava lindo. Cartazes, flores, música. Gays, héteros, ecologistas, mães com crianças, ciclistas, punks, feministas… tudo e todos, com suas pautas múltiplas, vetoriais. Cada um querendo a sua liberdade de ser e de falar. Só não tinha políticos (eu, pelo menos, vi só dois: Ivan Valente, PSOL, e Eduardo Jorge – Secretário de Alckmin). Mais fantástico ainda. Política não partidarizada.

Enfim. Marcha da liberdade proibida (novamente: só eu me espanto com esta ironia?), clima tenso, policiais com suas câmeras filmando os participantes. Estranho, bizarro. Liberdade com vigilância não é liberdade, mas, enfim, não dá pra esperar coisas diferentes nesta tucanolândia mesmo.

Os policiais isolaram o MASP num cordão de isolamento, deixando claro que não permitiriam que os manifestantes se manifestassem.(Eu passei por isso em 2000, quando a polícia fez a mesma coisa e, depois que um retardado arremessou uma latinha de coca-cola nos gambés, eles invadiram o vão-não-tão-livre, metendo bala e jogando bombas. A galera ficou prensada entre as bombas e o despenhadeiro do MASP – 9 de julho. Pânico total!. Por causa disso, eu estava meio tenso).
Mas veio a boa notícia: Num acordo entre o Comando da PM e os manifestantes, a passeata foi liberada, desde que não cometesse a tal apologia. Alívio geral.

(aliás, impressão minha ou a PM descumpriu a ordem judicial? Ela tinha que proibir a manifestação, não? Ô TJ, mande prendem o comando da PM por descumprimento de ordem judicial, ou por desobediência militar, sei lá! Afinal, leis über alles, né?).

E a marcha (nomezinho feio, mas…) saiu, tomou às ruas. 4.000 pessoas segundo os sites, 10.000 pelos números dos manifestantes. Não existia palavra de ordem, apenas gritos de liberdade. De liberdade para os gays, para os ciclistas, de um mundo com menos ódio, contra o código florestal, pela liberdade de se questionar a ordem e suas instituições… como já disse, gentes difusas, tal como a sociedade. Foi realmente linda e alegre, mas paradoxal, contraditória.

A marcha da liberdade não podia falar de drogas, de maconha. É crime falar, é a tal da apologia. Assim, sem liberdade nenhuma,tutelada e controlada, filmada pelos senhores da ordem, a marcha foi andando. Um aqui, outro acolá, faziam trocadilhos com pamonha, se dizendo macumbeiro, e coisas assim. Alguns gritos no meio da multidão expressavam a rebeldia, e ousavam falar o inominável. Mas eram gritos tensos, medrosos, que anteviam cassetetes.

A marcha da liberdade existiu, foi bem bonita. Mas não foi livre. Foi “permitida” e não conquistada. Foi uma pequena traquinagem, foi pela metade, e não inteira. E liberdade pela metade é uma não-liberdade. Mas foi algo, algo bem melhor que ficar xingando no twitter, nas redes sociais.

4 comentários sobre “A gente quer inteiro, por Walter Hupsel

  1. enquanto isso o Seu Sergio Cabral mandaa policia bater em familia de bombeiro. Pusilânime, babaca, nunca vai ter um voto meu nem pra prefeito de quadra.

  2. Até quando esse bando de vagabundo vai ficar criando problemas, se esses maconheiros tivessesm alguma ocupação não ficariam fazendo passeatas a favor da maconha, trabalhar ninguém quer né, daqui a pouco teremos a marcha do crack e outra coisa essas pessoas são um monte de filhinho de papai que não sabe o que é acordar cedo pra trabalhar, ou fazer algo benéfico pra sociedade, apoiados por esse tal de Walter Huspel que defende bandido só pq a ROTA matou os bandidos que iriam explodir um caixa eletronico, leva os bandidos pra casa seu Walter com esse bando de maconheiro vagabundo. VÃO TRABALHAR.

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