Monteiro Lobato, um racista

Uma cambada subiu nas tamancas quando o Ministério da Educação publicou parecer recomendando que o uso de Caçadas de Pedrinho, do Monteiro Lobato, em sala deveria ser acompanhado de instrumentos que contextualizem epítetos e caracterizações que hoje são inaceitáveis em nossa interação social (como o racismo).

Mesmo sem ler, jornalistas, deputados, escritores e escritoras indignados de plantão, quadrinistas gagás e toda sorte de gente que não costuma ler pareceres e nem livros infanto-juvenis se mandou a gritar CEEEEEENSUUUUUUUURAAAAA! A democracia brasileira – mais uma vez – estava em perigo e  Monteiro Lobato era a quinta maravilha para todos os brasileiros.

No meio tempo a maior parte de sensatez nesse debate foi reunida nos posts de Idelber Avelar sobre o assunto e nos magníficos textos de Ana Maria Gonçalves –  Não é sobre você que devemos falar e Carta Aberta ao Ziraldo.

Eis que a eleição passou, o carnaval acabou, a poeira baixou, o assunto mudou e os incautos sumiram. Alguns jornalistas ou estudiosos parece que resolveram ler a obra do Monteiro Lobato pra ver qual era a dele.

Hoje a Mônica Bergamo publicou a seguinte nota na Folha de S. Paulo (acesso só para assinantes):

CONFISSÕES DE LOBATO
A revista “Bravo!” publica em maio cartas inéditas do escritor Monteiro Lobato. “Um dia se fará justiça ao Ku Klux Klan; tivéssemos uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos livres da peste da imprensa carioca -mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”, escreveu em 1938 o escritor, censurado pelo governo por racismo

A nota obviamente vai dizer que o governo “censurou” Monteiro Lobato, uma mentira deslavada, uma vez que o governo nunca proibiu a livre circulação de suas obras, que continuam a ser vendidas nas livrarias, compradas por bibliotecas e, provavelmente, até utilizadas em salas de aula.

A Conferência Nacional de Educação, ligada ao Ministério da Educação, recomendava que os estudantes tivessem orientação sobre o racismo na obra de Lobato e considerava que o uso desse tipo de conteúdo em sala de aula era um constrangimento para os alunos negros. É só ler o parecer. (atualização: na minha opinião, tinha de ser banido da sala de aula mesmo).

Assim como não leram a obra de Monteiro Lobato, jornalista no Brasil não costuma ler nada, mesmo quando mostram que Monteiro Lobato era de fato um odioso e grotesco racista.

O Unicef lançou na semana passada a campanha Por um infância sem racismo, a motivação é atacar a discriminação racial que persiste no cotidiano das crianças brasileiras e se reflete nos números da desigualdade entre negros, indígenas e brancos. E essa discriminação também é muito forte nas salas de aula, nos livros infantis e faz com que crianças e adolescentes abandonem as escolas. Vale a pena visitar o site oficial!

53 comentários sobre “Monteiro Lobato, um racista

  1. “A Conferência Nacional de Educação, ligada ao Ministério da Educação, recomendava que os alunos tivessem orientação aos alunos sobre o racismo de Lobato e achavam que o uso desse tipo de conteúdo em sala de aula era um constrangimento para os alunos negros.”
    confuso, tem algum ‘alunos’ errado aí

  2. A carta de Ildeber eu já tinha lido. Muito bom o artigo do Lauro. Sem contar que toda a obra do Lobato já foi publicada, o que não caracteriza censura alguma, que ao meu ver significa extinguir um pensamento ou uma obra. O que até então não tinha sido publicado eram suas cartas que revelaram um ser humano desprezível.

    Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: “Meu romance não encontra editor. […]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.” – Da Carta aberta ao Ziraldo que o Lauro se referiu.

  3. Essa onda de caça às bruxas que demoniza pessoas a partir de uma visão superficial e muitas vezes canhestra é, na realidade, tão tacanha e repugnante quanto pode ser, por exemplo, uma manifestação racista. O linchamento do Monteiro Lobato por essas hordas ressentidas e politicamente corretas é comparável às perseguições macartistas ou fundamentalitas, é comparável ao que se tem de mais simplista e temerário em termos de postura pretensamente cidadã. Vocês, hoje, mesmo que se confirmem como verdadeiras todas as alegações sobre o suposto racismo do Monteiro Lobato (já analisaram a fundo o caso? houve defesa?), agem muito mais como inquisidores medievais do que como cidadãos democráticos e conscientes que esperávamos mais numerosos no século XXI.

  4. Monteiro Lobato era sim, racista. Nem era preciso que estas cartas viessem á tona, quem leu Memórias de Emilia lembra do trecho constrangedor em que a boneca sai em cima da Tia Nastácia porque ela deixou o anjinho fugir ( o anjo era a imagem da pureza, ariano,a imagem do anjo católico sem tirar nem por) Pra mim é inconcebível que uma criança leia um livro destes sem ser devidamente contextualizada sobre o autor, o tempo e as circunstâncias da publicação. Vale dizer que o próprio Lobato reescreveu vários de seus livros conforme eram reeditados, reavaliando suas possições. Infelizmente esse viés racista nunca desapareceu.

  5. agora, é preciso que se diga. Lobato foi um dos grandes escritores da literatura infantil, assim como Griffith foi um excepcional diretor mesmo sendo também racista. História do mundo por exemplo abre varias frentes de questionamento, os meninos o tempo todo sdão interlocutores céticos de quem ministra as aulas, no caso a Dona Benta, e a visão que fica é profundamente pessimista e de total indignação especialmente com as guerras, a religião e o colonialismo. Há muito mais em Lobato que racismo, mas neglicenciar esse aspecto, é tão errado quanto reduzir sua dimensão apenas ao racismo.

  6. Enquanto educadora, não acredito que banir os livros do Monteiro Lobato das salas de aula vai adiantar alguma coisa.
    Como trabalhar com as crianças um asunto tão delicado e importante banindo-os de suas vistas? Por mais escroto que ele tenha sido em vida, é inegável a qualidade literária de suas obras. Além de evitar o debate sobre o tema, os alunos não terão acesso a uma obra riquíssima.
    Paulo Freire fala sobre isso no seu livro “Pedagogia do oprimido”. Como tirar as pessoas da sua situação de miséria e ignorância sem contextualizar o que está sendo estudado? Trazer o tema para a sua realidade?
    Há que se ler Monteiro Lobato sim e discutir o porque da linguagem utilizada por ele sim! Bani-los é só jogar a sujeira pra debaixo do tapete e manter a população ignorante.
    Ele não era o único que pensava dessa maneira, a sociedade naqueles tempos era racista. Isso tem que ser esclarecido para as crianças. Tantas coisas podem ser trabalhadas a partir daí… Podemos ter aulas de história, de lingua portuguesa, filosofia, ética…. O Brasil será um país ainda mais burro.

  7. Engraçado como todo mundo que vem defender o Monteiro Lobato parece não ter lido os tetos. Onde tem caça às bruxas, sinceramente? Horda ressentida com o quê? Ressentimento transborda é nessa citação do Monteiro Lobato. E “suposto racismo” para um defensor da KKK é mesma coisa que alegar suposto anti-americanismo nos discursos do Ahmadinejad, por exemplo. Sinceramente, caro Roberto, te recomendo a leitura do Monteiro Lobato, antes dessa gritaria em caixa de comentários.

    Em todos os documentos do MEC e todas os textos que eu li, nunca vi recomendação para banir os livros do autor do Sítio do PIca Pau Amarelo, mas sem contextualização, a leitura de um livro como Caçadas de Pedrinho (que tem uma criança duramente racista coo herói) é um convite a uma idenificação que já é posta na sociedade. Pra quem é branco, é moleza esbravejar contra o politicamente correto. Quem sofre com racismo é diferente.

    Recomendo a leitura do material da Unicef. O racismo em sala de aula é um motivo sério de evasão escolar e de diminuição dos alunos nos seus primeiros anos de estudo. É muito mais sério do que só um debate que veio dos EUA sobre Politicamente Correto, diz respeito a vida das pessoas. O título do texto de Ana Maria Gonçalves é brilhante nesse sentido com o texto Não é sobre você que devemos falar (http://www.idelberavelar.com/archives/2010/11/nao_e_sobre_voce_que_devemos_falar_por_ana_maria_goncalves.php).

    “Peço agora que você faça um exercício: imagine uma criança na sala de aula das escolas públicas de ensino médio e fundamental no Brasil. Negra. Sei que não deve ser fácil colocar-se sob a pele de uma criança negra, por isso penso em alternativas. Tente se colocar sob a pele de uma criança judia numa sala de aula na Alemanha dos anos 30 e ouça, por exemplo, comentários preconceituosos em relação aos judeus: “………… ………..”, “………… ………….. …… .. ….”. Ou então, ponha-se no lugar de uma criança com necessidades especiais e ouça comentários alusivos ao seu “defeito”: “…………. …………”, “…………….. …………..”. Talvez agora você já consiga sentir na pele o que significa ser essa criança negra e perceber a carga histórica dessas palavras sendo arrastada desde séculos passados: “macaca de carvão”, “carne preta” ou “urubu fedorento”, tudo lá, em Caçadas de Pedrinho, onde “negra” também é vocativo. Sim, sei que “não se fala mais assim”, que “os tempos eram outros”. Mas sim, também sei que as palavras andam cheias de significados, impregnadas das maldades que já cometeram, como lâminas que conservam o corte por estarem sempre ali, arrancando casca sobre casca de uma ferida que nunca acaba de cicatrizar. Fique um pouco de tempo lá, no lugar dessa criança, e tente entender como ela se sente. Herdeira dessa ferida da qual ela vai ter que aprender a tomar conta e passar adiante, como antes tinham feito seus pais, avós, bisavós e tataravós, de quem ela também herdou os lábios grossos, o cabelo crespo, o nariz achatado, a pele escura. Dói há séculos essa ferida:

    Volte agora para o seu lugar e se ouça falando coisas do tipo: “Eu li Monteiro Lobato na infância e não me tornei racista”, ou “Eu nunca me identifiquei com o que a Emília disse”, ou “Eu não acho que chamar alguém de macaco seja racista”, ou “Eu acho que não tem nada de ofensivo”, ou “Eu me recuso a ver Lobato como racista”, ou “Eu acho um absurdo que façam isso com um autor cuja leitura me deu tanto prazer”. Se você não é parte do problema, nem como negro nem como racista, por que se colocar no centro da discussão? Você também já não é mais criança, e talvez seja a hora de entender que nem todas as verdades giram em torno do seu ponto de vista. Quando criança, talvez você tenha crescido ouvindo ou lendo expressões assim, sempre achando que não ofendiam, que eram de brincadeira e, portanto, agora, ache que não há importância alguma que continuem sendo ditas em livros dados na escola. Talvez você pense que nunca tenham te afetado. Mas acredito que, se você continuar não conseguindo se colocar sob a pele de uma criança negra e pelo menos resvalar a dor e a solidão que é enfrentar, todos os dias, o peso dos significados, ouso arriscar que você pode estar enganado. Elas podem ter tirado de você a sensibilidade para se solidarizar com esse grave problema alheio: o racismo. Sim, porque tenho a sensação de que racismo sempre foi tratado como problema alheio – é o outro quem sofre e é o outro quem dissemina -, mesmo sua erradicação sendo discutida no mundo inteiro como direitos humanos. Direitos de todos nós. Humanos. Direito de sermos tratados com dignidade e respeito. E é sobre isso que devemos falar. Não sobre você.”

  8. Você acha mesmo que vim aqui falar sobre mim, Lauro? Não, meu nego. Vim apenas manifestar a repulsa que sinto pelo julgamento açodado e fundamentalista que agora deram de fazer da obra do Monteiro Lobato, e dele próprio, querendo impingir às pobres crianças que eventualmente o leiam uma espécie de filtro, uma espécie de de camisinha ideológica, uma espécie de mecanismo indutor que as leve à mesma compreensão de texto que vocês, os guardiães da consciência, considerem “a” adequada e “a” correta. Eu, de minha parte, não subjugaria tanto a inteligência e a sagacidade infantis, assim como não me dedicaria tanto a sair por aí a prolatar sentenças sumárias de condenação contra aqueles que, por uma razão ou por outra, não tenham se revelado tão puros e imaculados quanto vocês (que, como diria o Pessoa, na certa são todos príncipes). Se a caótica e maravilhosa complexidade humana os assusta e atormenta, tentem ao menos não querer impor ao mundo esse patológico traço limitante que os leva a querer esterilizá-lo, que os leva a esse anseio louco de tentar varrer para debaixo do tapete tudo o que não lhes pareça suficientemente asséptico e destituído de complicação. Os nossos petizes, creia, não carecem da ajuda desse tipo de Exército da Salvação, ao menos não tanto quanto carecerão, caso doutrinas como essa emplaquem, de autonomia e de liberdade para viverem por si sós as suas vidas.

  9. bom, nesse caso ai nao vejo onde está tão maravilhosa complexidade. A visão de Lobato mesmo para aqueles tempos era bastante rasa, limitada, tipificadora no que diz respeito à raça. Quem parecia estar querendo uma assepsia geral era ele mesmo. apesar de que, repito, não lhe faltou inteligencia para rever suas posiçoes sobre vários temas, inclusive na forma como tratou o homem do campo em Jeca Tatu. Acredito que Lobato, um notório polemista, se envergonharia de seus defensores que não querem saber de debate nenhum, só de desqualificar aqueles que o questionam.

  10. A visão dele, no tocante a raça, talvez fosse mesmo rasa, como rasa é a visão moralista de quem não consegue conceber a possibilidade de que nas pessoas, ou num grande artista, possam conviver, em função da complexidade inerente à sua condição humana, aspectos às vezes francamente inconciliáveis e contraditórios, essas coisas que tanto atormentam e afligem às pessoas de mente exclusivamente cartesiana. Quanto à desqualificação, a impressão que tenho é que ela parte também de quem se apresenta para tachar de racista o escritor, e de “cambada” aqueles que eventualmente discordem dessa sua sentença inapelável e reducionista.

  11. Foi uma cambada mesmo Roberto, muita gente. Não tem nada de pejorativo em cambada. Falo isso em um monte de textos pra coisas boas e ruins. E não me refiro só a imprensa. A crítica a imprensa nesse texto (que eu acredito que vc não leu) está no uso da palavra censura.

    E outra a visão do Monteiro Lobato a respeito de raça não é rasa, é criminosa, violenta. Em “O Presidente Negro”, que vc também não leu, ele propõe um plano de eliminação dos negros é isso. Quer mais?

    A recomendação do MEC não pede a censura e ninguém quer censurar o Monteiro Lobato. Trata-se de expôr um fato que é inenarrável até por uma tiete do escritor de Taubaté – ele era uma racista e grande admirador da Klu Klux Klan. Abominava pessoas pretas e expressa isso em sua literatura. Era um posicionamento bizarro dele, lastreado numa ciência de almanaque – que era o máximo onde chegava a “sapiência” dele.

    Em Caçadas de Pedrinho, quando o protagonista usa “macaca de carvão”, “carne preta” ou “urubu fedorento” é pra ter efeito cômico. Tia Nastácia é uma incapaz de entender meia sentença. Desculpe-me fera, se você acha que isso não faz a cabeça das pessoas, é por que nunca pôs o pé numa sala de aula na vida.

    Eu estudei em escola pública de interior, onde referências pejorativas a pessoas não-brancas saía a toda hora da boca de professores e alunos. Isto sempre constrangeu profundamente os colegas pretos, os deixava desconfortáveis na sala e não tenho dúvidas que prejudicou o desempenho deles em sala de aula. Em um desses casos, o desfecho foi dramático, mas não é para este post.

    Negar isso, é não querer enfrentar um problema que existe no país. É inventar uma mentira para não sair do seu campo de conforto. Não se trata aqui de discutir as outras qualidades de Monteiro Lobato. Se trata de discutir do impacto do seu claro ativismo racista na sua obra literária em uma sala de aula.

    Achar que o que as pessoas lêem, escutam ou presenciam na vida não tem impacto na vida delas é de uma negação da vida sem precedentes.

  12. Vamos lá, caro Lauro. Do fim pro começo. Eu acho que o que as pessoas lêem, escutam ou presenciam tem impacto, sim, na vida delas. E seria um total idiota se não achasse. O que acho também, ao contrário de vocês, é que essas experimentações, às vezes brutais, às vezes desagradáveis, às vezes dolorosas, são inerentes à vida e dela fazem parte. Não há como isolar as pessoas do que quer que seja neste mundo, não há como tentar esterilizar o mundo para que as crianças ou quem quer que seja não tenha contato com as “sujeiras” que ele, o mundo, produz. Deste modo, eu acho que o melhor caminho não é tentar privar a criança de conhecer essas coisas por si mesmas, e segundo a própria sensibilidade. Educar, para mnim, não é esconder as coisas das crianças, mas abrir portas para que elas, por si sós, tenham como processar as informações às quais tenham acesso. Vc se refere dramaticamente, por exemplo, ao constrangimento das crianças negras que, em sala de aula, se sintam atingidas por um trecho de livro do ML. Me desculpe, mas aí vc é que parece não ter dado nunca aula na vida. As crianças são cruéis ao extremo em seu convívio, a ponto de ser comum, no contato que travam e nessas suas primeiras experiencias de sociabilização fora do âmbito da família, que a gordinha seja chamada de Baleia, o espinhento de Chokito, o magrelo de Alfinete e assim por diante. O constrangimento da criança negra, portanto, num contexto desses, seria apenas mais um entre vários outros, todos, diga-se, passíveis de censura e incompatíveis com a convivência civilizada que os educadores tentam, ou devem tentar, implantar em suas respectivas salas de aula. O caso, portanto, é tentar fazê-las entender o modo como conviver com respeito e civilidade, o que nunca se dará por meio de um ilusório afastamento que se faça delas com essas realidades tão presentes no mundo. Simplesmente proibir as manifestações consideradas nefastas, em suma, não resoverá jamais o problema. O que os resoverá,isto sim, é fazer com que as crianças por si sós, e pelas experiências que tenham, cheguem à conclusão de que, na vida social, o respeito e a civilidade são elementos importantes e dignos de culto.

  13. Seguindo… Eu não li, e nem quero ler, por absoluta falta de interesse, o tal livro O Presidente Negro. Li a maravilhosa e genial coleção completa dos livros do Sítio, numa edição antiga de livros com capas duras verdes e com ilustrações, poucas, em preto e branco. A sua interpretação do livro do Presidente Negro, pelo que entendí, é a de que o ML estava propondo um genocídio ou algo assim. Acho pouco provável. Ainda que seja isso, porém, acho que cada pessoa deve interpretar por si mesma a coisa, e não pelo filtro dessa sua, no mínimo discutível, interpretação. Hoje, graças a Deus, lemos o Sheakespeare, por exemplo, sem maiores explicações adicionais e pelos textos originalmente escritos. Há histórias muito cruéis contadas por ele, as quais, interpretadas de um certo modo, poderiam ser tidas como verdadeiras incitações ao crime. Os filmes, os livros, as pinturas, ao longo da História, sempre trataram de temas muitas vezes horripilantes, e quase nunca se esmeraram em advertir de maneira acautelatória, em notas de pé de página, que aquilo não era para ser tomado ao pé da letra. Eu, meu caro Lauro, tenho mais medo do filtro das consciências que se julgam superiores do que das narrativas, por mais perversas que pareçam, dos grandes – ou mesmo dos pequenos – artistas. Esses filtros, por mais bem intencionada que seja a motivação dos que os defendam, são piores do que qualquer outra coisa para a evolução humana. A Igreja, por muito tempo, numa época de trevas, esmerou-se, com a mais santa das intenções, a retirar do alcance do rebanho o que julgava pernicioso e mau. Ela própria, a partir do uso de tal poder, se perverteu e se degenerou, e de quebra queimou pessoas na fogueira. Hoje, fazendo as vezes da consciência religiosa medieval, apareceram com essa nova consciência obtusa do politicamente correto, com esse nosso novo Grilo Falante, a querer nos apartar dos males do mundo e a demonizar tudo o que julguem incompatível com o Bem. Eu, de minha parte, modestamente seguirei sempre contra as proibições a as catequeses indutórias dessa espécie, até orque estou careca de saber que, para o ser humano, nada pode ser mais atraente e delicioso do que o que seja proibido. O ML é pra ser lido e interpretado por crianças contamporâneas do mesmo modo que nós, hoje em dia, devemos e podemos ler o Sheakespeare: sem necessidade de censura, ou, no caso da catequese, essa meia-censura-branda, de uma dessas explicaçõezinhas fofas de pé de página.

  14. Roberto, uma coisa é um colega implicar com o outro com qualquer característica que ele tenha. Outra é o material escolar (que seja um livro de ficção) trazer uma série de ofensas aos negros e ser discutida em sala de aula ignorando a questão racial. Sinceramente, você não tem a menor ideia do que é isso.

    Mas para sua fé no Monteiro Lobato não bastam argumentos.

    Sobre o Presidente Negor segue o resumo: EUA, 2228 – três partidos concorrem às eleições presidenciais americanas. O partido dos homens brancos com o presidente Kerlog, o partido das mulheres, com a feminista Evelyn Astor, e o partido dos negros, representado por Jim Roy.

    A divisão dos brancos entre homens e mulheres faz com que os negros elejam Jim Roy.

    A derrota é dramática para os EUA, homens e mulheres brancos se unem e usam “a inteligência” para eliminar a raça negra, através de uma substância esterilizante colocada em um produto para alisamento de cabelos crespos.

    Basicamente é isso. Se não acredita, recomendo que leia.

    Outros grandes escritores – como Céline e Pound – foram também eugenistas e racistas odiosos. Agora, a partir do momento que o livro é dado para crianças, todo cuidado tem de ser tomado. Caso contrário, a exposição ao preconceito a partir do material escolar pode ser dramática. Ainda mais num país onde esse racismo é uma realidade social.

    Outra ninguém “proibiu” o Monteiro Lobato nem nenhum escritor no Brasil. Estão todos liberados para qualquer um ler. O que se recomendou foram “instrumentos que contextualizem epítetos e caracterizações que hoje são inaceitáveis em nossa interação social”. O professor deve ter esse papel sim.

    Ou como você acha que deve ser a aula? Ele dá o livro, chega na sala e pergunta: E aí galera, legal né?

    Porra, tem uma série de ofensas aos negros no livro que precisam ser trabalhadas seja com o Lobato, seja com o Shakespeare. Aprendizado é isso.

    O que vc fala do Shakespeare por exemplo, deve se referir ao Mercador de Veneza, não é? Na Inglaterra, essa é a única peça dele em que a questão do antisemitismo é colocada fortemente no material escolar. E a peça só é dada para alunos do High School. Existe um cuidado muito grande em se usar o exemplo para reverter opiniões racistas e essa formação contra preconceitos é um papel da escola também.

    A partir daí acho que não tenho nada mais a argumentar. Estou me repetindo aqui.

    Não aprendo nada com a sua insistência em dizer que eu sou representante do politicamente correto malvadão que trata as crianças como burras e nem vc aprende com o que eu falo (na verdade, não sei se vc as lê, sinceramente). Abraços e fique a vontade para colaborar.

  15. mesmo que se quisasse não haveria como apartar uma criança negra das experiencias brutais da vida porque num país como o Brasil ela é lembrada da sua condição a cada momento, desde pequena e sempre pejorativamente. Só mesmo quem nunca foi alvo desse tipo de barbaridade pode teorizar sobre ela com tamanho distanciamento. E já que voce faz essa ligação absurda juntando Shakespeare e incitação ao crime, também seria justo dizer que pelo seu critério crianças judias deveriam ser submetidas a literatura hitlerista sem filtro ou contextualização. Vamos deixá as crianças livres pra interpretar. Não apenas as judias mas também aquelas que escutam em casa que o holocausto é uma mentira inventada. Já que estamos no território livre das analogias, a minha até faz mais sentido porque diz respeito a preconceito e marginalização de um grupo social.

  16. A interpretação das coisas, na História do mundo, por mais que tenham tentado tangenciá-la por meio de dogmas e de doutrinas reducionistas, sempre foi e seguirá sendo livre, ou, se não livre, ao menos forjada a partir dessa enorme geléia geral, dessa enorme bagunça que são os muítissimos pontos de vista que podemos adotar na avaliação e no sentimento de seus inesgotáveis mistérios. Eu, de minha parte, seguirei achando lamentável e reducionista, por exemplo, que num blog que se pretenda iluminista – e não medieval – seja adotado um título como este, “Monteiro Lobato, um racista”. Acho que, em termos de produto educativo, as vantagens da literatura do ML superam em muito eventuais defeitos ou passagens tidas, nele, como preconceituosas, isto em razão do amplo potecial dessa literatura em estimular nos pequenos, por outro lado, o melhor da imaginação, o melhor do gosto pelo conhecimento e o melhor da fantasia. Eu não troco, com os defeitos todos que possa ter, um único livro infantil do ML por um milhão de livros do naipe, por exemplo, dos Ursinhos Carinhosos ou coisa que os valha, que, como sabem, não carregam pecado ou preconceito algum. Tenho filhos e tive a oportunidade de me deparar, por várias vezes, com livrinhos de histórias adotados nas escolas que, apesar de muito bonitinhos e corretos, eram, em termos de literatura, absolutamente insossos e medíocres. Chancelados, provavelmente, por órgãos como o MEC ou, quem sabe, até mesmo a UNICEF, aquela instituição de pseudo-benemerência.

  17. E não era um racista?

    O Monteiro Lobato continua tendo sua obra toda chancelada e recomendada pelo MEC.

    Não sou iluminista, nem nenhum outro tipo de classificação.

    Chega um ponto em que a discussão não rende.

  18. Só pra esclarecer. A menção à possibilidade de que o Sheakespeare fosse tido como um incentivador de crimes eu fiz não porque creia nisso, mas para ilustrar o fato de que narrar assassinatos ou tramas odiosas não significa, necessariamente, compactuar com elas ou difundi-las. Quanto ao aspecto pessoal dos artistas, a mesma coisa. O Dostoiewski (será assim que se escreve?), por exemplo, foi um jogador compulsivo e o Edgar Alan Poe um alcoolatra. Deve ter havido, em relação a eles, pessoas que, em razão desses deslizes, com a maior das boas intenções os tenham considerado, por conta da visão estreita e moralista que tivessem, perniciosos e indignos de ser lidos.

  19. engraçado, nenhum deles escreve para crianças e nenhum deles propunha o desaparecimento de um tipo de gente do mapa por causa da cor da pele.

  20. O que vc não entendeu é que não é sobre concordar ou discordar, não é sobre padrões de vida, é sobre o que isso causa aos outros e ao fato de que ninguém sofreu censura, mas vc insiste na tegiversação.

    E insisto, Monteiro Lobato não era um racista?

    Ou você queria que eu colocasse: Monteiro Lobato, criador da Emília. Tenha dó né.

  21. Li todos os livros infanto-juvenis do ML e jamais me deparei, neles, com qualquer proposta de destruição de raças. Mesmo nesse tal O Presidente Negro, acho pouco provável que tal ideia tenha sido lançada como proposta e não como um aspecto da trama. A entender assim, poderíamos dizer, por exemplo, que cineasta que fez o Laranja Mecânica queria disseminar a violência gratuita. De resto, sobre essa pretensão de vocês, de controlar o que os livros poderão causar às crianças, quero dizer que a qualifico como uma espiração ilegítima ao direcionamento ou, mais adiante, à censura, ao menos quando tratem de obras da qualidade da do Monteiro Lobato, que, lida por gerações e gerações de brasileiros, não os tornou um bando de racistas ou de perigosos pervertidos.

  22. Vale lembrar, por exemplo, não sei se é o seu caso, que há quem defenda a alteração do texto original, de modo a adaptá-lo aos novos tempos e a suprimir-lhes os defeitos. Isto, pra mim, é simplesmente abjeto.

  23. Como diz o texto da Ana Maria Gonçalves, não é sobre nós que devemos falar, vc devia ler.

    Também li toda a coleção do Sítio quando era criança, não me incomodava tb, mas eu também já ouvi terríveis impropérios racistas sem me incomodar tb. Aposto que você é branco, vc acha que isso não faz diferença?

    Como te disse, se você gosta desse canal aqui pra desabafar, beleza, fique a vontade, mas a conversa já deu. Estamos nos repetindo.

  24. Pra finalizar. Acho que vou abrir um blog e botar assim: Edgar Alan Poe, um bêbado. Seria legal, né?

  25. cara, eu acho ser bêbado legal, não vejo problema nenhum nisso. Grande parte dos meus amigos são ótimas pessoas e enchem a lata. Se fazem mal a alguém, são a eles mesmos. Não têm ódio por ninguém. Um racista é bem pior e Monteiro Lobato era racista, por mais que vc o ame.

  26. Não tenho amigos racistas, não gosto da companhia.

    E vá fundo, faça esse blog contra os bêbados que eu sigo lutando contra o racismo aqui.

  27. Você então não sabe o que morre de gente por conta de brigas de bêbados, sem contar o que morre em razão de bêbados ao volante! Seguramente muito mais do que se mata por questões raciais. A bebida, em termos de potencial para causar mortes no Brasil, é caso muito mais sério que o racismo.

  28. Eu não tenho bandeira nenhuma, não, já que não tenho pretensão de tutelar ninguém. E parabéns pelo espaço democrático desse seu blog, que permite a discordância e o debate. Saiba que eu, apesar de não ser negro, tenho enorme orgulho de fazer parte de um país onde a majestosa cultura negra criou raízes profundas e nos influenciou a todos. Um abraço.

  29. Você, Lauro, a exemplo de seus pares moralistas, realça e destaca no Monteiro Lobato, numa breve, peremptória e irrecorrível sentença, o que nele poderia haver de pior, e relega ao nada tudo o que nele havia de melhor, como, por exemplo, a sua magistral literatura infanto-juvenil. Seria o mesmo, conforme eu já disse, de se ressaltar, no Edgar Alan Poe, que ele era alcoolatra, no Dostoiewski, que era jogador compulsivo, no Borges, que era racista, no Nelson Ropdrigues, que era ligado aos militares do golpe de 64, no Jimmy Hendrix, que era drogado, no Pablo Picasso, que era violento com as mulheres e por aí afora, sem mencionar o incrível legado da arte de cada um deles para a melhoria da raça humana. Tudo como se você fosse uma criatura imaculada e livre de imperfeições, que é como aliás se julgam os moralistas em geral, ao menos até que suas taras e defeitos reprimidos saiam do armário e se revelem para espanto do mundo.

  30. A questão é só uma, não pode entregar à leitura em sala de aula um texto que diminua uma criança. Qualquer um que já esteve diante de uma classe sabe o efeito que isso pode ter. Não se trata do temperamento e nem das escolhas pessoais. Ninguém disse que um artista bom precisa ser uma pessoa boa (embora eu não veja nenhum problema em ser bebum e drogado), só que colocar obras que constrangem crianças não é a melhor maneira de ensinar. Quer que desenhe?;

  31. O cerne da questão foi, sim, abordado por mim. Basicamente, é ito:

    Acho que às crianças deve ser dado ler e comprender o texto sem induções como essas, que parte de gente cujo entendimento, limitado e moralista, não pode ser tido como o correto e o único possível e nem se interpor, feito um biombo, entre o livre discernimento da criança e a literatura que lhe seja oferecida.

    E por quê?

    1) Porque, se vocês consideram racistas os trechos apontados nos livros, certamente sabem que durante décadas e décadas ninguém achou, tanto que jamais se falou nisso. De fato, nunca se noticiou sobre alguém que tenha tido, na infância, essa sensação de constrangimento ao ler um livro do ML, cujas histórias, aliás, sempre foram unanimidade entre crianças de todas as cores.

    2) Porque vocês querem antecipar, nas crianças, um mal-estar que elas mesmas não manifestaram até agora. Caso manifestassem, aí sim caberia a intervenção do educador, caberia abrir-se uma discussão sobre o tema e conduzi-la, obviamente, no sentido de se abordar, em primeiro lugar, o contexto da época em que o livro foi escrito (o que é relevante)e, em segundo, as questões relativas à perniciosidade de qualquer forma de discriminação racial nas relações sociais.

    Pra acabar, vou lhes dizer que me vem à mente uma canção feita por um ícone da cultura negra no Brasil, o Gilberto Gil, a exaltar a magia do Sítio do Pica Pau Amarelo.

    Será que ele, o Gil, não viu que as histórias do Sítio eram todas permeadas do mais odioso racismo?

    Será o leitor Gilberto Gil, que é negro, tão menos perspicaz que os gênios do MEC a ponto de levantar a bola de quem nitidamente sempre quis destruir a sua raça?

    Com a palavra, os gênios.

  32. durante décadas e décadas a escravatura também foi considerada legal e aceita socialmente como algo normal. Alguns senhores de escravos possivelmente usaram esse mesmo argumento aí contra a abolição. Felizmente a dinâmica das relações sociais, das formas de percepção e assimilação de preconceito não são estáticas.

  33. Na escola, quando criança, Malcom X disse ao professor que queria se ser advogado. O professor respondeu que ele poderia, no máximo, se tornar carpinteiro.

    Nessa época os negros não entravam pra faculdade no Estados Unidos. Isso em meados dos anos 30, 40.

    Considerando a época e as transformações sociais ocorridas até então,a disciplina HISTÓRIA não ajudaria nisso?

    O aluno tem que saber que o livro em questão é de uma época em que tudo era diferente.

    Um literário racista jamais seria aceito num país como o Brasil, nos dias de hoje.

  34. Ao contrário do vc diz, não me consta que não tenha havido resistência e firme oposição ao regime escravocrata no país, conforme comprovam, por exemplo, a rebelião de Zumbi dos Palmares e o Movimento Abolicionista, a poesia de Castro Alves e a a insurreição de João Candido.

    Creio que só quem considerava aceitável a situação eram os senhores que dela tiravam proveito e não o senso comum, sobretudo a partir do estabelecimento de mais e maiores centros urbanos, que permitiram que a questão entrasse em pauta e saísse do isolado âmbito das fazendas e das minas.

  35. Em uma época não muito remota toda a sociedade brasileira era racista, e se percebe que a sociedade em que os personagens estão inseridos retratam tal época. Não sei o que dizer – excluir uma obra tão valiosa!!!
    Qual criança não “viajou” com as histórias de Monteiro Lobato?

  36. Pelos céus, não se trata de censura. Censura não é isto. O que é censura: é proibição, é riscar frases e alterar o texto, é queimar livros.

    Os livros continuarão sendo lidos, no original, por gerações a fio, e encantando com sua literatura elaborada. Com a diferença de que, agora, quando as crianças lerem “macaca acarvoada” o professor dirá: “Então turma, o que vocês acham que isto quer dizer? Por que vocês acham que os personagens do Monteiro Lobato tratavam algumas pessoas assim? Hoje isso é errado, por causa disto e disto”.

    A imprensa (e muita gente) ignora (alguns voluntariamente) este argumento: não se trata de censura, no sentido original da palavra (proibição, acobertamento). Mas pode-se dizer também que é uma “censura da experiência”, que impede que os leitores tenham uma visão independente das idéias do texto, imposta por um Ministério que se preocupa cada vez mais com o ideário que circula na sociedade. Isto, de fato, é uma característica do totalitarismo.

    Contra este argumento existe o seguinte: uma visão que carece de orientação (seja oficial ou não) NÃO ESTÁ isenta de preconceitos, porque estes transitam muito facilmente na malha social. Uma criança muito pequena já pode ser racista. E nós sabemos que isto acontece: no Brasil, o racismo ainda é uma realidade social tanto dentro como fora das escolas.

    A melhor solução para acabar com o racismo – porque é importante acabar com ele – não é a censura. Aliás, a censura não é boa solução para nada: um mundo mais livre de experiência seria bem mais ok. A melhor solução é a orientação cuidadosa, seguida de contextualização.

    Senão, nos tornamos fascistas de ambos os lados

  37. Lauro, não sou educadora, mas sou mãe. Tenho a coleção completa infantil do ML que minha mãe leu na infância pra mim e eu amava. Obviamente, por sermos brancas (ela, que ainda é gringa, e eu) os trechos racistas eram detalhes menos marcantes que os heróis fantásticos. Mas para mim basta saber dos trechos horrendos para não querer seguir com essa leitura para minha filha – ou uma leitura muito, mas MUITO mesmo, contextualizada, daquelas que você aproveita pra mostrar que nem tudo que é bom é bom mesmo e que existe perversidade mascarada pelas mais belas embalagens. Me dói um pouco porque foi uma leitura (audição) marcante pra mim na infância. Mas, realmente, não é sobre nós que devemos falar. beijos

  38. As opiniões de Lobato refletem o espírito de época, racista e conservador. É bom lembrar também da sua crítica arrasadora à Anita Malfati e aos modernistas de 22.

  39. Essas opiniões da época já eram contestadas na época. E se já eram uma merda de opinião, continuam sendo. Monteiro Lobato pode ser até legal, mas numa boa, dá pra sobreviver sem ele sem nenhum arranhão. A literatura universal e brasileira tem mais um monte de autores. Vocês saudosos, superem isso: a infância de vocês acabou, seus filhos não precisam e – se forem espertos – vão correr das referências culturais que vcs acham essenciais. Essa coisa da infância querida que eu vou reproduzir no meu pimpolho pra mim é muito falta do que fazer. Vai brincar com seu filho e tenta aprender com ele o que vcs não aprenderam na infância.

  40. Constrangimento para alunos negros? Ninguém nota o “racismo” nos livros dele até que façam algazarra com isso. Li seus livros todos e muitos colegas de escola negros também e todos nos divertimos muito. Se Lobato era racista ou não, pouco me importa. O racismo não se faz presente em suas obras, a não ser que considerem assim termos da época como o “beiço” de Tia Nastácia. As crianças nada sabem sobre racismo até que um adulto imbecil ensine a elas.

  41. “E essa discriminação também é muito forte nas salas de aula, nos livros infantis e faz com que crianças e adolescentes abandonem as escolas”

    Quem escreveu essa mentira idiota? Quem abandona a escola por causa de um livro infantil? Essas campanhas, sim, levantam o racismo e incitam o ódio entre as pessoas, separando-as por cor.

  42. Os argumentos das tietes lobatianas é sempre o mesmo: Li e não sou racista, as crianças não sabem o que é racismo, bla bla bla. Parem de falar de vcs mesmos.

    A Unesco lançou estudo no final do ano passado em que uma série de crianças negras da américa latina diziam que se sentiam descriminadas no ambiente escolar. Quuem não acredita nisso deve provar o contrário e não desqualificar.

    O pessoal vem dar chilique em blog sem ler o que está escrito. Não é porque vc é fã do Lobato que ele deve ser o que vc pensa dele.

    Repito: Em Caçadas de Pedrinho, quando o protagonista usa “macaca de carvão”, “carne preta” ou “urubu fedorento” é pra ter efeito cômico. Tia Nastácia é uma incapaz de entender meia sentença. Desculpe-me fera, se você acha que isso não faz a cabeça das pessoas, é por que nunca pôs o pé numa sala de aula na vida.

    Numa boa, um adulto e um livro dado em sala de aula moldam o vocabulário de uma criança e ler livros assim por obrigação escolar constrangem a criança na sala de aula. Quem desqualifica isso é por que tem sensibilidade de um freezer.

  43. Fico pasma de como é difícil trazer a reflexão, a mudança a transformação do pensar em algumas pessoas. Apesar de ter lido, quando criança, as obras do Lobato e ter ficado maravilhada, está la para quem quiser ler o quanto ele era racista.
    Aqueles que não admitem isso sequer possuem uma argumentação sólida. Só retórica Pura.
    Sou mãe, professora e jamais deixaria o meu fiho de 4 anos de idade ler tal obra sem que eu o ajude a refletir sobre tais trechos racistas. Jamais deixaria uma criança que está formando a sua personalidade e o ser humano que ela será, ler sozinho tais livros e tirar suas próprias conclusões, como pretendem alguns. Quem defende isso, não conhece nada, absolutamente nada de criança.
    A criança tem todos os instrumentos, no seu corpo para apreender esse mundo e os seus elementos. Não é uma tábula rasa. Produz conhecimento e cultura.Porém, ainda não desenvolveu plenamente suas competências. As vivências experimentadas não são as mesmas de um adulto. o adulto pode ler um texto e formular, sozinho, mil hipóteses sobre ele,ainda mais sobre um assunto tão terrível, por que tem repertório suficiente para isso. Repertório de mundo. A criança não. É uma questão de lógica. Quem tem 4 anos não não pode ter o mesmo acúmulo de vivências e experimentações que aquele que tem 20 ou 5o anos.
    Podemos, como adultos, até ler o texto do Monteiro Lobato e dizer: ” O lobato era racista? Pouco me importa.” O importante é que lí as suas histórias e adorei. E ainda que fosse, não podemos nos esquecer do seu incrível gênio literário”. Para a criança, não é assim: para ela, fica que a tia Nastácia tem carne preta, como o seu coleguinha de sala, talvez, ou que ela subia na árvore como uma macaca. Aliás, quem nunca viu a famosa imagem da evolução do humana, em que o ser humano vai passando do macaco até chegar no homem, branco, no final da evolução. O negro fica alí pelo meio. É um belo exemplo de como esses conceitos e significados vão passando em aparentes inofensivos trechos de livros, vídeos, músicas, imagens, acumulando-se no repertório das crianças,e adultos, e agente vai convivendo como se fosse normal.

    As crianças precisam sim de um mediador. Senão não precisam sequer ir à escola. jogamos os livros em suas mãos e dizemos: virem-se, tirem suas próprias conclusões. o papel do professor, que é esse observador, pesquisador e mediador das experiências das crianças, é ajudá-las a compreender as suas diversas experiências que já existem, e incentivá-las a criar outras tantas que lhes permitiram acessar o conhecimento. Vejamos bem: ajudá-las e incentivá-las é “fazer com elas” que é MUUUUUITTTTTOOOO diferente de fazer para elas.
    Francamente, defender o uso de um tipo de livro desse sem que haja, sequer, uma contextualização, demonstra que tal pessoa nem ao menos compreende o papel da escola. O mundo que está aí serve apenas para alguns. Necessitamos de um mundo que seja para todos. Para isso devemos romper com aquilo que chamamos tradições, clássicos, BLÁ, BLÁ, BLÁ. É papel da escola, sim, transformar a realidade social que está aí posta, confortável para uma minoria, em uma realidade social em que todos caibam.
    Monteiro Lobato era um escritor, um gênio literário criador de narrativas que encanta as crianças? Certamente. MAS, ERA RACISTA. Não é especulação. nem o caso de alguém dizer: ” eu não vejo nada disso”. A prova que elucida a “acusação” está escrita, publicada, assinada pelo próprio “acusado”.
    Não só está escrito como desenhado. Lobato reproduz um modelo de sociedade nociva, desigual, segregadora, preconceituosa, também em alguns personagens. Senão, vejamos: porque raios a vovó Benta, que é branca, não é a empregada doméstica. E o saci, terrível como ele só, não é um menino branco. Alguém consegue dizer?
    Eu tenho algumas hipóteses, mas para não me alongar muito lançarei apenas uma: os negros ocuparem lugares subalternos de submissão de sempre servir ao branco é um resquício da escravidão.
    Esse mal, a escravidão, precisa ser sim, conhecido pelas crianças, porém precisamos ajudá-las a ver o quanto isso foi um crime horrível contra seres humanos.
    Podemos até dizer às nossas crianças que o Lobato é maravilhoso e escrevia histórias incríveis, mas jamais podemos deixar de ajudá-las a compreender que, apesar disso, ele escreveu coisas horríveis que diminuía as pessoas negras que são tão humanas como qualquer outro.
    Parabéns, Lauro Mesquita. Os seus argumentos são muito sólidos e incontestáveis.Para quem quiser ler.

    Nani

  44. eu pensei q a ku klus kan so existio depois da 2 guerra mundial. muito interessante.

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