Paulo Pasta no Centro Universitário Mariantonia

Gris de Payne, 2010 óleo s/ tela 50 x 70 cm

 

A exposição mais badalada do momento em São Paulo é de uma artista muito ruim: Paula Rego. Ela erra a mão na técnica, sobretudo no empasto do giz pastel, apela pra temática moralmente impactante e se mostra uma chata de galocha. Mas a cidade tem muita coisa legal pra ver.

Na Caixa Cultural, na Praça da Sé, há uma boa amostra de trabalhos recentes de Tatiana Blass, pude conhecer também o trabalho de residências da Red Bull, com boas surpresas e desenvolvimentos empolgantes de artistas que acompanho, como Ana Prata. No CCBB, a exposição sobre o Islão tem um bom andar sobre caligrafia e uma parte razoável de indumentária. Gostei e me surpreendi com o filme de Yoshua Okon, na Baró, e curti as pinturas de Rodrigo Borges, mas gostei mesmo é do cubão dele,  na Emma Thomas. As duas galerias  ficam no mesmo prédio.

Agora, ainda não vi a mostra nova do Waltercio Caldas , na nova Raquel Arnaud e nem a do William Kentridge na Soso. Não passa da semana que vem. Mas fui mais de três vezes ver os filmes do Anri Sala e as pinturas do Paulo Pasta. Aliás, tive a honra de escrever o texto sobre a última exposição do artista que parece falar muito das particularidades da arte contemporânea daqui.  O texto segue abaixo. Antes, celebro. Semana que vem abrem duas coletivas que prometem: segunda no Paço das Artes e quarta na Galeria Millan. Essa, vem com o melhor conceito curatorial de todos os tempos: Porque sim.

Segue o texto sobre o Paulo Pasta:

Azul três cruzes, 2010 óleo s/ tela 50 x 70 cm

 

As escolhas recentes de Paulo Pasta nos deixam a impressão de que ele busca maior clareza em sua pintura. Há alguns anos, as tintas estão menos opacas, as cores são menos nebulosas e as formas têm contornos nítidos. O traçado turvo das figuras deixou de existir. A passagem tonal permanece suave, mas é evidente.

Agora, a tela é feita de áreas de cor que se inscrevem umas dentro das outras. Antes, o artista partia da natureza-morta, como sugestão, agora usa a pintura de espaços interiores. Está mais para Vermeer do que para o Morandi anterior. No entanto, aqui é difícil saber o que envolve o que. Por isso, mesmo que pareça menos embaçada, a estrutura ainda é indefinida.

Num díptico, a viga que estrutura o primeiro quadro aparece como um retângulo miúdo na tela vizinha. Não sabemos que cor está dentro, que cor está fora. O artista partiu de uma pintura em que as formas não parecem plenamente constituídas, amadurecidas, para outra, feita de espaços intrincados.

Parte da pintura brasileira tem como tema central essa indeterminação da imagem. Por exemplo, nas paisagens de Guignard, a cor lavada não esclarece qual é a extensão do lugar que pinta. A profundidade parece ter sido suspensa. Tudo é neblina. Neblina pontuada por casas, figuras miúdas. Os personagens das últimas pinturas de Iberê Camargo também são massas de tinta que tentam se mostrar como corpos. Ciclistas que se movimentam em busca de uma forma definida para uma massa disforme.

Paulo Pasta é o artista que melhor lida com essa indefinição do espaço e quem trouxe isso de maneira mais evidente para a reflexão da arte contemporânea. Mais ainda, fez dela contraponto claro às formas recentes de arte que vendem decoração luxuosa, planos mirabolantes e prazeres momentâneos como formas de sugerir espaços deslumbrantes. Mas também não parte daí para um elogio ao ascetismo ou à dificuldade. Só afirma que para encontrar beleza e harmonia, é preciso se haver com um mundo violento. Lugar encantador, mas onde sacadas espertas não bastam.

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