Tragédia também na cobertura

Já não bastasse a tristeza de um assassinato como de ontem, a cobertura da tragédia em Realengo no Rio de Janeiro nos deu mais motivos para ficarmos consternados.

Notou-se que a cobertura dos grandes jornais e dos sites ainda prefere o boato e a especulação a correr atrás dos fatos. Nenhuma constatação poderia ser mais triste no Dia do Jornalista. Segue uma lista dos fatos mais impressionantes de uma cobertura muito mal-feita.

– A insistência em dizer que o assassino era muçulmano, só por que uma vez ele disse que queria explodir um avião que nem “aqueles caras”, e tratar todos que acreditam no islamismo como potenciais terroristas (sinceramente, uma coisa que ultrapassa a fronteira do nojento);

– Acreditarem, publicarem e espalharem o boato que ele tinha HIV e que essa tinha sido a motivação do crime – sem dúvida  uma das coisas mais toscas que eu já vi na vida e um exemplo de anti-jornalismo gritante;

– A mania de entrevistar crianças e adolescentes  que acabaram de presenciar um fato chocante e de colocar a repórter mulher como uma psicóloga para as câmeras ( o Profissão Repórter, da Globo, havia feito coisa parecida com crianças vítimas de abuso sexual há uma semana antes);

– Questionar muito pouco o teor religioso e misógino da carta do psicopata. O quanto essa insistência na virgindade e em Jesus (sim, Jesus não Alá) tem a ver com a construção do perfil de um sujeito perturbado;

– Mostrarem onde fica a casa do assassino (que já foi toda depredada) e da família dele – que corre o sério de risco de também ser destruída. Com a destruição da casa e do computador do menino , os linchadores atrasaram – e muito – as investigações;

– A única coisa boa – na Globo, pelo menos – foi insistir no questionamento de como ele conseguiu as armas, onde ele recebeu treinamento para recarregar a sua arma etc.;

– Acho que os blogueiros e twitteiros deveriam parar com esse hábito de também insistirem que o cara cometeu essa barbaridade por que ele era religioso ou coisa assim. O sujeito era francamente perturbado. É fundamental traçar os motivos que levaram ele a esse trauma, mas sem pré-julgamentos e sem tratar isso como um padrão para assassinos em massa.

– Estas histórias são muito difíceis de cobrir, por que partem de uma situação complicada demais de explicar. Por isso taxar e criar uma explicação definitiva do que levou uma pessoa a cometer um ato de violência como esse é sempre arbitrário.

Ainda estou sem tempo para colocar fotos e links aqui na página. Depois dou trato aqui, enquanto isso vale a conversa.

27 comentários sobre “Tragédia também na cobertura

  1. acompanhei a cobertura desde cedo e foi um show de horrores. ao invés de informação e orientação corretas, um festival vampiresco de insensibilidade, mau gosto e ridículo. lauro, o sentimento foi esse aí, a tristeza só aumentou pra todo lado. 😦

  2. Realmente está muito tosca a cobertura. Além de ficarem batendo na mesma tecla insistentemente, criam estereótipos de comportamento traçados como de um psicopata que coloca em julgamento as pessoas sem qualquer tipo de transtorno mas que apenas são tímidas ou reservadas. Tenho muito medo desse tipo de apontamento. De repente, o menininho na escola que morre de vergonha de falar em voz alta ou de abordar um coleguinha vai passar a ser taxado de esquisito, estranho, de comportamento duvidoso. Todas essas taxações são, no mínimo, bastante perigosas.

    O pior de tudo é exporem a família do Wellington da forma como estão expondo. Isso coloca em risco a integridade física e moral de pessoas que não tem a ver com o ocorrido. Diga-se de passagem, casos de cobertura da imprensa como essas não faltam, infelizmente. Vide o famoso caso da Escola Base e tantos outros. Um total anti-jornalismo, vergonha alheia demais!

  3. Com certeza é triste ver esse jornalismo.
    Um condução dos fatos tão mal intensionada.
    De pensar que o jornalismo é tão útil se feito de forma séria e consequente.

  4. cogitaram que o sujeito era seguidor do islamismo. pensei, quando o cara é muçulmano, a culpa é da religião dele. quando o assassino é católico, foi o próprio indivíduo responsável pelo desequilíbrio.
    depois que insistiram em dizer que ele mirava nas meninas prioritariamente, imaginei: falta pouco pra dizerem que o cara era homossexual e depois até do pt.

  5. E aquele programas que a Globo agora resolver montar, num formato de “bate-papo” com “especialistas” em que as conclusões são sempre as de que é preciso aumentar a represssão? Ora, por que as escolas não têm detectores de metal? Perguntava um engravatado. Evidentemente que ninguém teve peito de lembrar a ele que se não houvesse armas não haveria a necessidade de dectores de metal e que os brasileiros (agora tão chocados com toda a tragédia) votaram contra o desarmamento, bem recentemente.

  6. Lauro, a questão religiosa foi podre nesse e em outros casos. Nenhuma religião prega chacina. OK, não pode usar Religião nessas! Ponto.

    Mas houve ontem uma ação imediata de grupos religiosos malucos (no Brasil, por causa da predominancia cristã, foram só de cristãos) e a velha mídia topou esse papo, acusou o islamismo, etc. Além de um delegado do Rio que mencionou “falta de Jesus Cristo” como causa (!).

    A carta do atirador cita religião o tempo todo, então entendo que é difícil não rolar oportunismo de quem quer cutucar os extremistas aqui (Silas Malafaia, Dep. Marco Feliciano, etc) e mostrar que eles (também) estão fabricando monstros intolerantes. Acho até q devia ser crime esse pessoal falar que tsunami, AIDS, ser africano (!!!), etc é tudo falta de Cristo. Eu fico puto!

    Abraços!

  7. Oi! Concordo em vários quesitos, só tenho duas observações:
    eSpeculação é com S.
    Aparentemente quem destruiu o computador foi o próprio assassino.

    🙂

  8. Que bom saber que existe pessoa assim tão lúcida e carinhosa com a vida em tempos de tanta tristeza!… Que imprensa in-feliz, gente! Quantas condenações sobre o rapaz sem contexturalizar a sociedade em que vivemos, já
    saem matando outr@s… Abraço-o com imenso afeto pela oportunidade de ler algo mais humanizador.

  9. Esqueceram de falar do bullying, falaram q ele foi vítima de bullying na infância… convenhamos, essa história de bullying é uma palhaçada! Nossa sociedade é altamente preconceituosa, em vários níveis, temos preconceitos de classe social, raça, cor, religião, opção sexual, enfim, no Brasil as diferenças não são respeitadas!

    Como cristão católico, praticante, coordenador de grupo de jovens, posso dizer que dentro da igreja existe sim muita intolerância, não posso ser hipócrita, eu estou lutando contra isso, tentando passar conceitos de respeito e tolerância com as diferenças, não consigo mudar a cabeça de todos, mas posso lançar uma semente no coração dos mais novos. Por outro lado, também me sinto de certa forma desrespeitado, às vezes ridicularizado, principalmente por colegas de faculdade, mas nem por isso reajo de forma agressiva nem contra quem me critica e nem contra pessoas inocentes.

    Essa intolerância generalizada de nossa sociedade reflete de forma diferente nas pessoas, tem pessoas que não se incomodam, que conseguem levar isso sem tantos problemas mas se as pessoas já possuem algum desvio de conduta, as coisas se intensificam quando ela se sente rejeitada pela sociedade e realmente na nossa sociedade falta espaço para pessoas que não seguem o “padrão”. Esse rapaz não deve ter sido apenas “zuado” na escola, mas também em outros locais, até mesmo pode não ter sido aceito dentro de sua própria casa. O que para as pessoas pode ser uma simples brincadeira, uma “zoação”, para a pessoa q recebe, q já pode ter recebido várias dessas brincadeiras, pode servir de estímulo para uma atitude agressiva.

    Não estou querendo tirar a culpa dele, mas apenas tentando entender os motivos de tal atitude, simplesmente taxá-lo como louco e achar que está tudo certo é fácil, mas não é verdadeiro.

    Uma pena que nenhum veículo de informação tenha tido alguma abordagem que levasse a essa reflexão, mas fica a proposta para todos: Como nossa sociedade lida com as diferenças? Como eu lido com as diferenças? Que testemunho eu estou passando para os meus filhos, para a minha família, para os meus amigos? Como as minhas atitudes podem influenciar as atitudes das outras pessoas?

  10. Ao invés do mínimo de respeito pelas vítimas, o jornalismo brasileiro deu um show de irresponsabilidade.

    Sobrou até para a internet. Se religião, fundamentalismo e terrorismo islâmico soariam pesado demais para o público tupiniquim (já basta terem importado dos EUA o paralelo com Columbine), a solução foi culpar a internet, pois o responsável pelo massacre supostamente era uma pessoa isolada e que passava muitas horas na internet.

    Assim que descobrirem sua banda ou cantor favoritos, a mídia terá outro alvo, outro assunto para analisar profundamente em todos os horários possíveis.

    http://tsavkko.blogspot.com/2011/04/o-massacre-de-realengo-e-falencia-do.html

  11. Concordo demais. No fim da noite, postei isso:

    Acompanhei chocada durante todo o dia as notícias pela TV e pela internet. É uma tragédia, tentei me colocar no lugar dos colegas que estavam na cobertura, acredito mesmo que alguns tentam fazer um bom trabalho, mas fiquei passada com algumas insinuações irresponsáveis, cada um falando uma bosta maior que a outra pelo tal do furo jornalístico, um achismo sem fim.

    Agora o cara não é mais islâmico, não tem mais a história do HIV, e quem vai pedir desculpa por tanta besteira em cima de uma tragédia que chocou geral? Incitação ao ódio, irresponsabilidade, sensacionalismo, informações não apuradas, comentaristas cretinos achando qualquer coisa – quem disse que a mídia não precisa ser socialmente controlada?

    Não foi a primeira – aliás, é uma cagada seguida da outra – e espero mesmo que um dia a gente possa ter mais orgulho da nossa profissão. Hoje, especialmente, fiquei com nojo.#prontofalei

  12. Ainda esses dias reclamei em meu twitter dos efeitos que a busca desenfreada por cliques e furos tem feito com o jornalismo. Essa mania de querer dar primeiro, dar com exclusividade só destroi a capacidade de apuração da imprensa. Uma pena para nós jornalistas.

  13. Também fiquei indignado com a cobertura midiática.

    Tive a mesma sensação de nojo quando faziam a cobertura da invasão pirotécnica no Complexo do Alemão.

  14. Sem falar nos charlatões de plantão, ou melhor, psiquiatras e psicólogos que encorajados pela mídia deram um show de besteiras, desinformação e falta de ética profissional. Primeiramente porque não é ético diagnosticar um indivíduo sem saber o seu histórico, muito menos publicamente. Cada um aparecia com um diagnóstico diferente. Muito mais por narcisismo do que por questões de interesse verdadeiro. Chegaram ao cúmulo de colocar a introspecção como um sintoma potencializador de comportamentos anti-sociais. Coitado dos artistas! Falaram em bullying, esquizofrenia, psicopatia, sociopatia, paranóia, etc…cada um com uma verdade pronta…um verdadeiro (des)serviço a sociedade civil. Será que a mídia não consegue ter um mínimo de reflexividade sequer sobre as informações que ela disponibiliza? No fim, a ciência acaba transformada em auto-ajuda charlatanesca quando a mídia usa especialista em porra nenhuma para tentar solucionar algo infinitamente complexo na busca imediata por respostas nesse fluxo frenético informacional. Desinformação é a lei!

  15. É verdade Guilherme, sempre existem especialistas de ocasião dispostos a falar de tudo. Já já o Demétrio Magnoli se pronuncia sobre o caso. Quando pensamos que nãodá pra ser mais triste, eles pioram a situação. Alguém viu o JN ontem? Eles tentaram limpar a barra deles, mas a emenda saiu pior do que o soneto.

  16. francamente quando começa esse negócio de quantas condenaçoes sobre o rapaz” e procurar entender os motivos eu peço dispensa e saio. Ele matou 13 crianças, isso é que realmente importa.É a vida destas criancas que nao tiveram escolha. Ele teve o tempo todo. Existe um claro limite que alguém ultrapassa quando se dispoe a matar. nao to nem um pouco interessao em entender o que leva alguém a cometer uma barbaridade destas. Tadinho dele. Eu sou um dos maiores críticos da velha mídia mas acho que a cobertura deles refletiu um estado de confusão em que a sociedade inteira mergulhou pra responder a uma violencia tao sem sentido e pelo menos trouxe a tona a discussão que realmente importa que é a do desarmamento.

  17. Rodrigo, nessas horas precisa ser responsável. Não pode ser islamofóbico, preconceituoso com portadores do vírus da AIDS, não pode colocar os familiares do assassino em risco e nem constranger as crianças mais do que elas foram constrangidas. O jornalismo não pode servir para piorar a situação de quem já vive o pior dos infernos.

  18. Meninos, concordo. E também concordo que esse papo de bullying já deu. Se ser zoado quando criança bastasse pra sair apavorando por aí, metade da população seria chacinada. Além da cobertura mal feita, com a ajuda dos números exagerados de mortos que foram divulgados antes e depois retratados, me irrita MAIS (pq não tem nem a desculpa da correria do hard news) todos os fulanos colunistas/articulistas falando as maiores bobagens em suas traduções do evento. Textos irresponsáveis ou imbecis disfarçados de linguagem poética se valendo da dramaticidade do cenário. Coisas na linha “o homem é uma raça falida”, “por que não matou os adultos?/ os políticos”. Vou te falar…

  19. também acho uma atitude irresponsável, setores da imprensa sairem ventilando preconceitos , Tiago.

  20. PRONUNCIAMENTO DO CEDECA RIO DE JANEIRO SOBRE A EXPOSIÇÃO DAS
    http://www.cedecarj.org.br/noticias/114

    CRIANÇAS E ADOLESCENTE VÍTIMAS DO MASSACRE DE REALENGO.

    Enviado por cedecarj, 14/04/2011 – 00:26
    PRONUNCIAMENTO PÚBLICO DO CENTRO DE DEFESA DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
    – CEDECA RIO DE JANEIRO –

    Assunto: Exposição das crianças e adolescentes vítimas do massacre ocorrido na Escola Municipal Tasso da Siqueira (Realengo – RJ)

    “Nenhum tipo de violência é justificável
    e todo tipo de violência é evitável”.
    (ONU, Estudo Mundial sobre Violência contra Crianças)

    O CENTRO DE DEFESA DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE – CEDECA RIO DE JANEIRO, filiado a ANCED-DCI – vem a público se solidarizar com os adolescentes vítimas de violência na Escola Municipal Tasso de Siqueira (Rio de Janeiro – Realengo) e ao mesmo tempo repudiar os excessos e o sensacionalismo que as mídias têm cometido na exposição de crianças e adolescentes vitimadas, não somente as que foram vítimas fatais (perda da vida), mas todas as que passaram pelo extremo estresse emocional da tragédia ocorrida no dia 07/04/2011, na referida Escola Municipal Tasso da Siqueira.

    A cobertura de boa parte dos meios de comunicação nos primeiros dias seguiu o padrão e até mesmo o dever da cobertura jornalística – um fato de grande impacto demanda cobertura, demanda mobilizar todos os meios e recursos do poder público, da sociedade em geral e da comunidade local; demanda necessariamente cobertura ao vivo e demais práticas. No que pese alguns exageros, de modo geral era cobertura do fato.

    Contudo, agora, os meios de comunicação, especialmente os telejornais, passam a ir à casa dos estudantes que estavam no local e solicitam longas e detalhadas narrativas:

    Como você fez para fugir?
    – O que você sentiu quando seu colega foi baleado?
    – Você ficou com medo de morrer?

    A criança ou o adolescente postudos em frente a uma casa simples, uma rua qualquer da região, ao lado de outro colega também vitimizado. Submetidas a processos de revitimização ao relembrarem o sofrimento que passaram, eles tornam-se alvo da curiosidade de milhões de telespectadores.

    Repudiamos a exploração do uso da imagem dessas crianças e desses adolescentes que há dias corriam para salvar suas vidas. Diversos programas de tv e rádio, transmitidos praticamente para todo o país e de grande audiência, repercutindo no exterior, exploram a imagem de tais crianças e adolescentes pela exposição pública do sofrimento físico e psíquico a que foram submetidos. Tais programas não só têm violado o direito ao respeito e à dignidade dessas crianças e adolescentes, garantidos por lei, como também afrontam os valores éticos e sociais de toda a sociedade, comunidade de Realengo, professores e funcionários da escola e das famílias das vítimas.

    Rio de Janeiro, 13 de abril de 2011.

    Diretoria, Equipe e Associad@s do CEDECA RIO DE JANEIRO

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