Wittgenstein e links de um blogueiro picareta

É pra valer:  tornei-me um blogueiro picareta. Não consigo postar o que quero, não arranjo tempo pra atualizar essa bagaça e agora vou aderir até ao recorte e cola para ver se não decepciono quem insiste em freqüentar esse espaço minguado.

Casa de Wittgenstein e Engelmann (1926)

Mas antes, queria fazer só alguns comentários. Pelo que notei, a enfática tomada de posição da ministra da cultura contra algumas premissas da reforma da Lei de Direitos Autorais (LDA) confunde mais que esclarece. Não sei se é ignorância ou má fé, mas parece que a ministra não conhece as discussões que envolvem a modificação da legislação. Não lembro de nenhuma proposta que apontasse pra isso.

Aliás, na discussão maior  se questionava o papel monopolista dos escritórios privados de arrecadação. Eles  têm poder muito maior que os autores. Bem, como sei pouco sobre o assunto, seguem endereços na internet mais informados.

O texto do diretor de cinema Jorge Furtado é um primor, serve para entendermos a loucura burocrática do ECAD. Nem Kleist e nem Kafka dariam conta. O jurista Ronaldo Lemos destrincha outras contradições do Ecad e Pablo Ortellado vê o que está por trás da patriotada alegórica contra o Creative Commons.

Esta página reúne diversos textos sobre a reforma. E Túlio Vianna também crítica a proposta de reforma, mas porque considera ainda um tanto tímida. Nessa postagem, o professor Túlio fez uma compilação do que já produziu sobre o tema. Aprende-se muito.

Por enquanto, fecho o capítulo dos direitos autorais e abro a das dúvidas editoriais. Atualmente, a prática do assédio moral é amplamente discutida. Nomeia-se a violência dos covarde de Bullying, entendido como o sofrimento de quem atura valentões.

Será que para língua portuguesa não seria legal adotar o buli (ou bule), saber que eles bulem os meninos. Em termos de vó, como disse o grande Mateus Potumati: Pare de bulir com o seu irmão.

Dito isso, queria compartilhar com vocês trechos do Cultura e Valor, volume póstumo de manuscritos de Wittgenstein lançado bem depois de sua morte. Eles foram reunidos Georg Henrik Von Wright e têm um tom mais livre que os outros textos do autor. Ele se permite a fazer juízos, mesmo entendendo quão indefinitivos eles são. Aprendi e me diverti muito.

 

pato é coelho

Seguem dois trechos. Em um, de 1914, ele fala sobre cultura e em outro, de 1930, fala sobre arte da forma mais fantasmagórica possível. No último, aliás, ele se refere ao seu grande amigo Paul Engelmann. Além de ser um dos seus maiores correspondentes, Engelmann foi o arquiteto ajudou Wittgenstein a fazer a sua casa. Era um arquiteto moderno, que trabalhou com Loos e que nos faz aproximar as vanguardas desse pensador tão ousado. Seguem os trechos, cultura e arte

1914

Temos tendência para confundir a fala de um chinês com um gorgolejo inarticulado. Alguém que compreenda o chinês reco­nhecerá, no que ouve, a língua. Muitas vezes, não consigo, ana­logamente, distinguir num homem a humanidade.

1930

Engelmann disse-me que em casa, ao remexer uma gaveta cheia de manuscritos seus, estes lhe parecem tão excelentes que pensa que valeria a pena dá-los a conhecer a outras pessoas. (Diz que o mesmo se passa ao ler cartas dos seus parentes já falecidos.) Mas quando pensa em publicar uma selecção desses manuscritos, as coisas perdem o seu encanto e valor, o projecto toma-se impos­sível. Eu disse que tal se assemelhava ao caso seguinte: nada há de mais extraordinário do que ver um homem, que pensa não estar a ser observado, a levar a cabo uma actividade vulgar e muito sim­ples. Imaginemos um teatro; o pano sobe e vemos um homem sozi­nho num quarto, a andar para a frente e para trás a um ci a sentar-se, etc., de modo que, subitamente, estamos a observar um ser humano do extenor, de um modo como, normal­mente, nunca podemos observar-nos a nós mesmos; seria como observar com com os nossos próprios olhos um capítulo de uma biografia — isto poderia, sem dúvida, ser ao mesmo tempo inquietante e maravilhoso. Estaríamos a observar algo mais admirável do quê qualquer coisa que um dramaturgo pudesse arranjar para ser representado ou dito num palco: a própria vida. – Mas isso é o que vemos todos os dias, sem que tal nos provoque a mais ligeira impressão! Sim, mas não o vemos nessa perspectiva. – Bem, quando Engelmann olha para o que escreveu e o acha extraordi­nário (embora não se preocupe com a publicação de qualquer dos seus escritos), vê a sua vida como uma obra de arte feita por Deus e, como tal, merecendo decerto ser contemplada assim como qual­quer vida e tudo o mais. Mas só o artista é capaz de apresentar assim uma coisa individual de modo que ela nos apareça como uma obra de arte; é verdade que esses manuscritos perderiam o seu valor  se fossem examinados um a um e, especialmente, se fossem olha­dos desinteressadamente, isto é, por alguém que não sente por eles, à partida, qualquer entusiasmo. A obra de arte obriga-nos ­assim dizer – a vê-Ia da perspectiva correcta; mas na ausência da arte, o objecto é apenas um fragmento da natureza, como ou qualquer; podemos enaltecê-lo com o nosso entusiasmo, mas is não dá a ninguém o direito de com ele nos confrontar. (Continue a pensar num desses insípidos instantâneos fotográficos de um fragmento de paisagem que tem interesse para quem os tirou por­que estava lá e sentiu algo; mas qualquer pessoa olhará para eles com frieza de um modo inteiramente justificado, até ao ponto em que é justificável olhar friamente para uma coisa.)

Mas parece-me também que há outra maneira de apreender o mundo sub specie aeterni, para além do trabalho do artista. É o caminho do pensamento que, por assim dizer, voa sobre o mundo e o deixa tal como é – observando-o de cima, em voo.

4 comentários sobre “Wittgenstein e links de um blogueiro picareta

  1. tai uma demonstração do que é esse Ministério da Cultura. E não tenho dúvidas que vamos ver um monte desses medalhões fazendo a mesma coisa em breve. A cultura brasileira caminha pra irrelevancia absoluta.

    http://musica.terra.com.br/noticias/0,,OI4995659-EI1267,00-Maria+Bethania+consegue+autorizacao+para+captar+R+mi+para+blog.html

  2. Caros, no caso da Maria Bethânia, eu não acho que a culpa seja da gestão do MinC, mas de um legislação que precisa ser mudar urgentemente. A Lei Rouanet é uma bizarrice legal e precisaria ser mudada de cabo a rabo.

  3. Chegando atrasada, mas acho que ainda valem alguns pitacos. Quando vc diz que não se lembra de nenhum proposta, é porque não houve mesmo. A grande questão da nova gestão Minquiana é a falta de projeto. Não apresentaram nenhum. Ainda não tornaram público um consistente programa de desenvolvimento para a Economia Criativa, só anunciaram a criação de uma Secretaria para o tema (e com um excelente futuro quadro de funcionários, vale destacar). Não se fala mais na Reforma da Lei Rouanet (e na necessidade da discussão de novos sistemas e métodos para aprovação de projetos que o novo PL exigirá do MinC, 120 dias após a sua publicação). E a implementação do Plano Nacional de Cultura e do Sistema de Informações e Indicadores Culturais, quando começa? A nova gestão acredita que o a LDA precisa de mais discussão, mas não apresentam a versão final devolvida pela Casa Civil em dezembro de 2010 (a promessa é para hoje). A Ministra, em seu discurso de posse, disse: “a gente se vê na fascinante obrigação de dar passos novos e inovadores”. No entanto, até agora não criou novos marcos para a política pública de cultura no Brasil. Só retomou velhas teratologias.

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