EVERYTHING IS HAPPENNIG: OS CICLONES DE FRANCIS ALŸS

Texto que publiquei no blog da Cosac:

Um furacão desorganiza. A paisagem estável, estática, que o artista Francis Alÿs prefere chamar de “simulação de ordem”, é desfeita em poeira. Assim, o que era a foto granulada de um deserto se torna a revoada dos grãos. O pó sai de um lugar, vai pra outro, e o areal árido avoa sem saber em que banco se assentará.

No livro Numa dada situação, que continua a reflexão consolidada no filme Tornado (2010), o artista associa as imagens dos redemoinhos a todo um vocabulário. Entre outras coisas, fala em Trauma, Turbulência, Tumulto, Incerteza, Violência, Dispersão. Tudo em letras maiúsculas e voz alta.

O livro é o resultado de um vídeo. Por dez anos, Francis Alÿs registrou suas incursões no interior mexicano em busca dessas modificações, melhor, transformações, que os filhotes de furacão, redemoinhos, tornados parecem causar em um terreno ermo, com poucos vestígios de que alguém esteve por lá. Momentos em que a terra seca é soprada pelo o que Guimarães Rosa chama de a “briga dos ventos”. Aliás, expressão também lembrada em Numa dada situação.

Mais do que isso, no entanto, o artista no filme tenta participar desse momento de disrupção. E corre em direção ao olho do furacão, literalmente, com sua câmera. Tenta capturar a imagem das pequenas rochas esvoaçantes, o ruído do caos.

Aliás, engraçada a expressão “olho do furacão” nesse contexto. Alÿs, em outros momentos, já fez literais outras expressões idiomáticas. Sem pensar muito, é possível lembrar o épico em tom menor Quando a fé move montanhas, vídeo de 2002, feito no Peru a partir de uma ação com voluntários. Se a frase retirada do evangelho sempre se referiu à capacidade da crença ser mais forte que qualquer obstáculo, no trabalho de Alÿs trata da possibilidade de um engajamento mover um monte de um lugar pra outro. Nesse projeto faraônico. Ele reuniu um batalhão de 500 pessoas enfileiradas. Todas munidas de pás (em sua maioria estudantes com uma camiseta branca com a frase estampada), para deslocar alguns centímetros uma duna alta.

É visível a satisfação do artista e dos participantes de compartilhar de tarefa tão ambiciosa como tirar um monte de seu lugar, mas resta a pergunta, qual o propósito disso? A pergunta talvez valha também para a ação do artista registrada no filme Tornado e no livro Numa dada situação. Uma boa chave para a resposta é o primeiro trabalho que vi do artista, o muito bem nomeado Paradoxo da praxis I (Às vezes fazer alguma coisa não leva a nada), de 1997. Neste vídeo, o artista empurrava um paralelepípedo regular de gelo pelas ruas do México como se moldasse uma peça. No deslizar, o bloco derretia, até se desfazer completamente.

Fazia-se um esforço danado para se perder alguma coisa. O resultado da ação era perder o que se tinha. No caso de Tornado, a ação parece comunicar com a daquele filme, mas o sentido parece ser o oposto simétrico.

Em primeiro lugar, pela própria natureza dos dois filmes. O Paradoxo é o registro de uma ação, de uma performance de um escultor que move o seu trabalho por ruas escaldantes (aliás, o artista fará isso em outros momentos). Tornado, não. Mais do que apenas o registro da ação, ele filma um lugar em repouso, a paisagem se modificando naturalmente, os fenômenos acontecendo independente da ação do homem.

O que reforça isso são, inclusive, os recursos de câmera. É claro que o trabalho, como os vídeos anteriores, mostra-se simples. Como aqueles que levaram o crítico e curador Cuauhtémoc Medina dizer que o artista prática um “subrealismo” (brincadeira com o sobre de surrealismo). Algo da encenação mais rebaixada possível. Mais baixa inclusive que as exigências elementares que nos fazem perceber aquilo como uma imitação de um acontecimento.

Ledo engano. O trabalho se vale de duas formas de filmagem e, inclusive, duas formas de narração. Uma, possivelmente feita pelo câmera Julien Devaux é de quem observa de longe, com a imagem e silêncio o redemoinho se formar. Na maior parte das vezes, parece um lugar monótono. Nada acontece, vez ou outra, alguns resíduos domésticos rolam pelo chão, surgem bichos domésticos vindos das encostas vistas de longe, das estradas contornando a paisagem. Essa câmera filma também o outro cinegrafista, o sujeito que entra e sai do tornado: Francis Alÿs.

Ele carrega a outra câmera. A dele capta o som natural da paisagem, sua lente está toda quebrada e arranhada. Carrega as marcas de quem entra e sai do furacão a toda a hora. Essa câmera, ao mesmo tempo, tem um olhar mais subjetivo, pois acompanha os movimentos do corpo do fotógrafo, e mais próximo da formação dos tornados. O curioso é que na montagem, além do ato de correr em direção ao tornado para captar a totalidade dos fenômenos que o compõem, a imagem filmada no olho do ciclone parece desmentir a cena cristalina dos ventos formando o evento à distância. Assim, além do ato, temos a cena da perda da nitidez.

Aqui, não fazer nada leva a alguma coisa, mesmo que também seja à dissolução. Alÿs trabalha em grande medida com o sentido da ação artística como ação política e social, como interferência direta no mundo. Seja para desconstruir concepções cristalizadas, seja para interferir em processos de violência social. Aqui, ele parece problematizar sua própria ação e partir pra sempre pertinente pergunta leninista: O que fazer?

Na melhor cena do filme Space is the place, de 1974, o pianista e compositor Sun Ra, que também escreveu o filme, depois de profecias interplanetárias e raciais, aparece na entrada de um prédio, em um bairro negro americano como se fosse o seu zelador ou porteiro. Lá ele é abordado por um daqueles personagens característicos dos filmes blaxploitation: o mendigo drogado de estimação do bairro. Sem pestanejar diante daquele corpanzil adornado com a indumentária colorida e brilhante do grande compositor americano, o vagabundo pergunta: “Whata happen”? Como perguntasse: “o que tá pegando”? Com serenidade e empáfia, Sun Ra responde de maneira definitiva: “Everything is happening”. Ou seja, tudo está acontecendo. Alÿs, no deserto, percebe também que tudo acontece ao mesmo tempo. Diante da simultaneidade é como se perguntasse que ato é de fato efetivo?

Mais vídeos aqui.

No site de Alÿs, existem vários filmes para baixar.

Um comentário sobre “EVERYTHING IS HAPPENNIG: OS CICLONES DE FRANCIS ALŸS

  1. Estava a procura de informações sobre o Francis Alys e me deparei com este blog, muito bacana os textos de arte. Virei visitar aqui mais vezes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s