Antes do mundo ser mundo

Francis Alÿs: Paradoxo da Praxis I (As vezes fazer alguma coisa não leva a nada) 1997

 

2010 foi um ano intenso. Não bastasse a Copa do Mundo no primeiro semestre, seguiu a eleição e a Bienal de São Paulo no segundo. A primeira revelou uma extrema-direita raivosa e envergonhada do país que não só incomodou, mas me entristeceu. A pequena burguesia, os religiosos davam amostras diárias de ódio de classe, de raça e, sobretudo, uma intolerância nunca antes vista na história da Nova República.

A Bienal foi o oposto e me empolgou. Eu devo ter sido uma das pessoas que mais foi naquela exposição. Não trabalhava lá, mas a visitei quase todas as semanas, as vezes mais que uma vez. O legal é que estive com amigos dos mais diferentes lugares, formações e interesses. Conversei com gente que admiro muito, com os amigos com quem compartilho as minhas ideias, meus parentes que me ensinam a toda hora, sozinho.

Pensei muito sobre a mostra. É inegável que ela melhorou significativamente. Tratava-se de uma exposição de verdade. Apesar de críticas justas à exposição, sobretudo ao modo de mostrar artistas como Mira Schendel, Kosuth e a ausência de salas mais apropriadas para os trabalhos de parede, eu gostei muito.

O ano foi animado, ainda devo resenhas de trabalhos como o de Rodrigo Andrade, Anri Sala, Godard, Francis Alÿs e, fora da Bienal, Ana Prata, Marcellvs, Hirschhorn, Beuys (aliás, dá pra comparar o sentido da política nele e no Alÿs que daria caldo) e tantos outros. De show então, nem se fala. Ornette Coleman, Phil Minton e Han Bennink, John Edwards, não é todos os dias. Olha que eu queria escrever sobre os shows que perdi, especialmente os de Veryan Weston, Jello Biafra, Dinosaur Jr, Pavement. Perdi tudo, olha que legal. Comemoro sem ironia, é legal saber que estive ausente momentos importantes da vida dos amigos. Demonstra que a cidade é mais viva que eu.

Pra comemorar o começo das atividades no blog posto uma música da Laurie Anderson, o melhor show de 2008, sobre a origem do território e o mundo antes do mundo. É o mais belo libelo sobre a geopolítica contemporânea. Divirtam-se e feliz 2011.


The Beginning of Memory

There’s a story in an ancient play about birds called The Birds And it’s a short story from before the world began From a time when there was no earth, no land. Only air and birds everywhere. But the thing was there was no place to land. Because there was no land. So they just circled around and around. Because this was before the world began. And the sound was deafening. Songbirds were everywhere. Billions and billions and billions of birds…

And one of these birds was a lark and one day her father died.
And this was a really big problem because what should they do with the body?
There was no place to put the body because there was no earth.
And finally the lark had a solution.
She decided to bury her father in the back of her own head.
And this was the beginning of memory.
Because before this no one could remember a thing.
They were just constantly flying in circles.
Constantly flying in huge circles.

3 comentários sobre “Antes do mundo ser mundo

  1. Gostei tanto do post que comprei esse disco – muito bom – e fiz um post com outra peça do Alÿs. Isso é que é poder de influência!!!

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