Um mundo estrelado por fantasmas

A convivência com fantasmas já rendeu muito assunto aqui no Guaciara.  Andy Warhol já apontava um mundo em que as imagens criadas ou celebradas pela indústria cultural se tornavam entes que não pereciam e conviviam conosco sem vestígios de envelhecimento ao longo dos anos, ressignificando os indivíduos profundamente.

Assim, tornam-se espécie de entidades que habitam o mundo sem muito propósito. No mundo real, Michael Jackson foi o personagem que ressignificou até o seu corpo para se manter como uma imagem “sem espessura, sem nenhuma resistência, algo escaneável, transformado em informação sobre a qual se pode operar qualquer mudança”, nas palavras de Rodrigo Naves.

Vivemos num mundo povoado por imagens trazidas pelo mercado que se tornam canônicas e que começam a adquirir uma vida independente do sujeito, em que até as notícias são ressignificadas e ganham um aspecto novo (os incríveis autotunes no youtube provam isso).

Mas nada chega perto dessa notícia publicada por Ricardo Calil em seu blog nessa semana:

“Tron: O Legado” prometia trazer uma pequena revolução tecnológica: rejuvenescer um ator. No caso, Jeff Bridges, protagonista do “Tron” original, de 1982.

O rosto do ator foi mapeado e rejuvenescido digitalmente. Depois, foi “colado”, ou sobreposto, ao corpo de outro ator mais jovem. O objetivo era dar vida a Clu, espécie de jovem avatar do personagem de Bridges. No filme, o Bridges atual contracena com sua versão jovem. Técnica parecida havia sido usada em “O Curioso Caso de Benjamin Button”, para envelhecer Brad Pitt. Mas ela reaparece mais sofisticada em “Tron: O Legado”.

Mas qual é a importância da evolução dessa tecnologia? Por que ela pode ser uma revolução? Porque ela pode significar um passo decisivo para concretizar aquela velha fantasia – desejada por muitos, temida por outros – de ressuscitar atores já mortos. Com ela, será possível que Marlon Brando ou Marilyn Monroe, para ficar em dois exemplos, voltem a aparecer em filmes inéditos.

E é justamente isso que George Lucas, o homem por trás de “Star Wars”, pretende fazer. Pelo menos é isso o que garante Mel Smith, um antigo colaborador do cineasta, em uma entrevista ao jornal americano “Daily Mail”. “Ele está comprando os direitos para o cinema de estrelas mortas com a esperança de colocá-las juntas num filme com truques de computador. Assim, Orson Welles e Barbara Stanwyck poderão aparecer ao lado das estrelas de hoje”, contou Smith.

Com essa sintetização da face humana e sua remodelação computadorizada, acho que o mundo atinge um limite da manipulação desses fantasmas canônicos da indústria cultural. O ator em si se torna uma marca sem previsão de expirar. Um velho de setenta anos pode ter vida útil como galã por mais centenas de anos e um defunto sepultado há algumas décadas pode ser estrela de uma superprodução.

Se essa história vingar, a face humana que ganhava eternidade em filmes e na imaginação das pessoas continua ativa como ativo da indústria do cinema e da TV da maneira como desejarem os criadores ao longo dos anos. Os personagens vividos anteriormente pelos atores se tornam entidades coladas a cada cartaz na porta dos cinemas num verdadeiro candomblé da indústria cultural.

12 comentários sobre “Um mundo estrelado por fantasmas

  1. Na moral, ficou muito legal. Ouytra coisa a esse respeito é a possibilidade de chips no cérebro moverem outros corpos. A pesquisa do Nicolelis tem algo a ver com isso

  2. Só de ter a pespectiva de assistir Francisco Couco e Tarciso Meira ad nauseum…vai ser demais!!!!!

  3. Ad nauseaum e em qualquer tipo de produção, já pensou o número de pornôs com estrelas do passado, assim que se encerrarem os copyrights dos rostos das pessoas?

  4. Nossa, laurose, merece mais especulação sobre hein? Fiquei pensando aqui em termos de ficção científica, essa parada toda é muito foda…

  5. Não só rostos, mas de repente rola uns Ctrl C, Ctrl V de bundas e os escambau

  6. E com essa expertise toda, vai ser mole daqui um pouco inventarem uns caras TOTALMENTE fake.

  7. Que a gente vivia uma época necrofílica nos EUA eu já sabia. A falta de energia vital de uma cultura em que absolutamente nada além do lucro tem qualquer importância só pode dar nisso. Palavra de alguém que vive há anos na Zumbilândia…

  8. eu acredito nisso e até estou criando um grupo de investigadores paranormais onde visitaremos casas mal assombradas e gravaremos toda a esperiência e postar no you tube para que todo mundo possa acreditar que eles existem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s