O azedume eleitoral e a violência homofóbica

O Brasil é um país que sempre zelou por um preconceito velado, por acobertar suas violências com uma suposta cordialidade, onde todos conviveriam juntos e as diferenças seriam percebidas de maneira leve e sem maiores danos.

O argumento está presente em discussões contra a ação afirmativa nas universidades e até para questionar o racismo na obra de Monteiro Lobato. Muito malabarismo verbal foi gasto.  Como a escritora Ana Maria Gonçalves expõe brilhantemente no texto linkado acima:

Desrespeito é não reconhecer que o racismo nos divide em dois Brasis; um que se fosse habitado só por brancos (ricos e pobres), ocuparia o 30º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), e cairia para 104º lugar se fosse habitado só por negros (ricos e pobres). Ainda pretendo escrever um texto sobre manifestações de racismo na escola e sua influência nos primeiros anos de vida e de educação de brancos e negros. Mas, por enquanto, para quem chegou até aqui e continua achando que não há nada demais em expressões como “macaca de carvão”, “urubu fedorento”, “beiço”, “carne preta”, seja nos dias de hoje ou nos dias de escravidão, deixo apenas uma frase que poderia ter sido dita por outro personagem negro de Monteiro Lobato: “O vício do cachimbo deixa a boca torta”.”

O constrangimento explícito no  discurso do “não somos racistas” expõe o medo de reconhecer uma sociedade conservadora, muito preconceituosa e que se nega a reparar os seus erros. No momento em que o governo seriamente tentou construir uma saída legal contra esse tipo de violência e tentou reparar preconceito e abusos, a violência voltou em forma de campanha de guerra.

A campanha de José Serra, nesse ano:

– se posicionou  contra o PNDH3;

– contava com um vice abertamente contrário à política de Direitos Humanos de Lula  – e até de FHC;

– contava com apoio de skinheads, monarquistas, fanáticos religiosos;

– e utilizou  materiais dos extremistas de direita da TFP.

Com isso, parece ter destampado o bafo velado de uma sociedade desde sempre violenta, racista e decisivamente homofóbica.

Sujeitos que gastavam o latim para justificar seu preconceito, agora partem pra porrada sem meias palavras. Deixam o mau-hálito da intolerância destampado e ainda se orgulham disso, feito se fosse autoritária uma sociedade em que o racismo seja inaceitável e onde pessoas do mesmo sexo possam legalmente construir uma vida conjunta.

Para muitos se tornou aceitável que um deputado ou um pastor possam pregar ódio e violência contra terceiros  impunemente. Um sacerdote sobe ao seu púlpito e declara que o homem que ama outro homem ou a mulher que ama outra mulher são criaturas contra a humanidade e acusa quem o questiona de estar “limitando a sua liberdade”.

O parlamentar direitista defende a agressão física contra crianças e adolescentes homossexuais e ainda sai com a seguinte declaração: “Não venham querer se impor, achar que são uma classe a parte, que são privilegiados”. Sinceramente, se eu sair defendendo o espancamento sem misericórdia de ex-militares que falam merda a torto e a direito, o mínimo que vão me chamar é de maluco, terrorista ou alguma coisa dessas.

A mídia noticia tais barbaridades, mas também se recusa e faz campanha contra qualquer  legislação clara para evitar que abusos sejam cometidos em nome de uma falsa liberdade de expressão.

E é aí que mora a briga, o cerceamento a essas práticas não se tornou lei de fato. Nas brechas dessa fragilidade legal (ou de falta de leis),  os conservadores aproveitam para destilar ódio e preconceito contra qualquer um que não esteja em seus padrões. É por essa falta de regulamentação que um panaca como o Bolsonaro não pode ser caçado por falta de decoro parlamentar.

O resultado desse caldeirão violento é a onda de homofobia e preconceito que o país vive de maneira muito forte. Sim, o crescimento do racismo e do preconceito contra regiões do país é filho de uma campanha eleitoral sórdida apoiada por setores que até pouco tempo não tinham quase nenhuma voz no país. Repito: militares, skinheads, grupos extremistas como a TFP e religiosos fanáticos.

O vácuo programático em que o PSDB mergulhou e sua renitência em explicitar seus compromissos com o setor privado acabaram na adoção de um discurso violento e intolerante por um partido que antes era conhecido por ser “em cima do muro”.

O discurso veio de encontro a um estilo de campanha feito pelo PSDB que, desde 1998, flerta com a estratégia de apavorar o eleitorado. Na reeleição de FHC e em 2002 o tom era do “inevitável colapso da economia” de um eventual governo petista. O tal risco Lula nada mais era do que uma campanha publicitária contra uma institucionalidade já estabelecida no campo fiscal no Brasil.

O crescimento econômico e o sucesso dos programas sociais do governo Lula, calaram esse discurso. A partir daí restou a eles – em 2006 – falar sobre o mensalão e os escândalos de corrupção do governo Lula. Também não pegou. A falta de discurso empurrou o PSDB a dar mãos a grupos que baseiam sua sobrevivência na intolerância. No caso da homofobia e do aborto, eles contaram com o apoio de uma parte da CNBB com sede de sangue por ter seus preceitos “afrontados” por um estado que deveria ser laico.

O azedume do discurso eleitoral continua a frutificar em atos violentos e gritaria intolerante e os efeitos dessa bomba relógio plantada por apoiadores da campanha Serra ainda estão longe de passar.

Quem duvida do crescimento das ocorrências pós-segundo turno ou não acredita no peso do clima eleitoral na violência vale dar uma olhada nos dados da SaferNet que registra um crescimento de 88% nas denúncias de homofobia na Internet. Os casos recentes de agressão na Avenida Paulista e em Porto Alegre são apenas o lado mais visível de uma situação que tomou uma proporções assustadoras recentemente.

10 comentários sobre “O azedume eleitoral e a violência homofóbica

  1. O José Serra finalmente desceu do muro.Do lado que ele sempre veladamente esteve.Que o diabo o carregue !

  2. Concordo totalmente. O NPTO falou disso ainda durante a campanha, com algo como: quem vai controlar essa gente depois?

    E olha que eles perderam…se tivessem levado a eleição nem sei como estaríamos.

    Quero acrescentar que no caso do racismo e da homofobia você identificou bem os grupos: “militares, skinheads, grupos extremistas como a TFP e religiosos fanáticos.”

    Mas no caso do machismo, que tende a se acirrar com a eleição de Dilma e sua escolha de colocar mais mulheres no ministério, o grupo pró preconceito é insuflado por homens que se dizem de esquerda, liberais ou progressistas, como você queira denominar. Basta ver a dificuldade que está tendo luiz nassif e muitos de seus seguidores em admitir o erro que foi publicar como post um comentário insinuando que Dilma é “feminazi”.

  3. Tenho visto umas manifestações de racismo e homofobia bem estranhas. Acho que a bosta da campanha fez isso florescer. Triste, mas, pelo menos temos o que combater. Parabéns aê.
    (mandei uma foto que tem a ver com o post pro e-mail do blog).

  4. Verdade, um Brasil racista, homofóbico e cheio de complexos de figalguia saiu do armário durante o processo eleitoral. No texto da Ana Maria os argumentos são fortes e justos (emocionantes e emocionados) mas tem uma coisa ali que tambem pode reverter num tiro no pé, é que quando a luta (pertinente e urgente, mais que urgente) contra a mentalidade racista passa pela correção linguistica, é preciso ter cuidado, é preciso ser atento e forte! digo isso aqui porque vi outro dia li um escritor (fino e inteligente) dizer que mario de andrade era racista (ou que seus textos eram racistas) e fiquei fula da vida. então essa pessoa não sabe o que é ironia? lê literatura ao pé da letra? ou não percebeu que mario faz paródia dos nossos complexos mais profundos? que isso é uma tatica critica de apresentar as coisas mais recalcadas em nós. bom, eu discordo dessa pessoa que acha mario racista. e se a mesma fala que serve para desmascarar Monteiro Lobato for usada para incriminar Mario de Andrade as coisas são muito mais complicadas do que pareciam ser. abraços.

  5. O preconceito é uma das bases fundadoras da nossa sociedade. Neste sentido, é preciso rui-la para a construção de novos paradigmas e re-fundar a nossa visão de brasil.

    Aliás, obrigado pela citação de meu texto em seu blog. Muito me honrou.

  6. Olá!

    Tenho uma proposta para seu blog que acredito ser relevante para você.

    Caso haja interesse, entre em contato!

    Atenciosamente,
    Cristiano

  7. Demais a análise, de fato a campanha eleitoral mais irresponsável que já assistimos. E tem ainda a questão dos ateus, em vários momentos na campanha essa “acusação” foi feita contra Dilma. No início do segundo turno o material de campanha petista e a ida até Aparecida trataram de “defender” a candidata do ataque religioso.

  8. falando em irresponsabilidades esse aumento dos congressitas em 62% apenas serve pra confirmar a spiore simpressoes que a população tem sobre o legislativo. Se eles ganhassem so isto tudo bem,seria até aceitável mas tem uma soma de verbas indiretas que jogam esse montante lá pra cima. Enquanto isso Brasilia fica parecendo uma selva porque nao podem dar 8% de reajuste pros garis. Nossa classe politica ainda está muito longe de deixar de ser uma bosta.

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