O que existe de bom e de Melhor, por Rafael Campos Rocha

O time em que se joga junto

Humilhação. É assim que todos os jornais – excetuando os madrilenhos, que viram um pênalti no apagado Cristiano Ronaldo – analisaram o jogo Real e Barcelona. Até se esqueceram do 6 a 2 de 2008, em pleno Santiago Bernabéu. Mas é que a imprensa ama destruir os que acreditam em suas próprias ladainhas, em suas “estimativas” e “dados”. Mourinho, o ultra-campeão, com a tríplice coroa e com o orçamento milionário do time dos Bourbon, acreditou. Como sou Barcelona e o futebol é uma caixinha de tristezas, também acreditei. Mas, como toda Pandora, o futebol mantém suas delícias, e elas têm chegado a esse pobre pai-de-família por meio do time blaugrana.

Diferentemente do duelo travado entre Uruguai e Gana, que relatei aqui desse mesmo blog, essa era uma luta entre mocinhos e bandidos. Entre a hiper-exposição midiática, o preenchimento do Real pela Imagem e a imagem como pele distante do que é ver o time do Barcelona em campo. Porque o que falam do Barcelona não se compara ao que você vê. Os apanhados de cenas de futebol das televisões não se comparam ao ritmo seguro, estável, assombrosamente natural com que o Barcelona envolve seus adversários. È o meu vislumbre contemporâneo do sublime de Beethoven e Beuys. Aquela natureza que permite a arte.

Também porque o Real Madrid é o time das “estimativas”, dos “dados levantados pelos jornalistas do jornal tal” e, principal e mais irritante de tudo, é o “time das estrelas”. José Mourinho é o gênio da retranca e Cristiano Ronaldo é mais antipático dos grandes jogadores do futebol mundial, superando até mesmo Sjeneider.

Já Guardiola é um tradicional revolucionário, ou seja, um artista. Enfrenta a sua própria admiração pela tradição para superá-la, sem inventar absolutamente nada para os desinteressados, mas muito para os que têm aquele prazer estético pelo futebol. O Barcelona que vemos agora é o que começou o seu movimento histórico com o técnico Cruyff, e que tinha o próprio Guardiola como jogador símbolo: alguém que dava passes simples e perfeitos e que parecia não correr, mas estava em todos os lugares do campo. O próprio Cruyff, como jogador, era o cara do deslocamento tático em campo, mas não gosto de falar de alguém que eu não tenha visto vários jogos ao vivo ou in loco. Enfim, a geração que vemos hoje, o time atual de Guardiola, é o ápice de uma tradição inventada nos anos 80 de jogar o toque de bola e o arremate simples, quando o gol é visível. Também é o jogo do deslocamento de quem vai receber o passe, que é dado quase sempre reto e rasteiro, no espaço onde não há adversários. Como a operação é simples e depende de qualidade técnica, mas não de alguma espetacular capacidade de dar efeito na bola, vários jogadores do Barcelona são capazes de dar esses passes, e também de recebê-los. Dessa forma, Iniesta e Xavi podem municiar o tempo inteiro os atacantes, mas também os atacantes e mesmo os laterais podem dar e receber esses passes, criando a grande dificuldade de marcação que enfrentam os adversários do Barcelona. Porque, na verdade, O Barcelona joga um “dois toques”, do treinamento básico de futebol, feito na metade do campo, só que em um campo inteiro. Ou, pelo menos, na metade do campo do adversário.

Outra coisa que Guardiola fez foi deixar os meninos criados juntos no futebol, jogarem juntos contra gente que não os conhece como eles se conhecem. Dorival Júnior estava fazendo isso com o Santos até ser destituído pela cretinice legalista de um clube que também vive de sua máscara do passado. De uma torcida que grita “tri-mundial” no primeiro gol do campeonato paulista. Apoiada pela Imagem Capitalista, é claro.

Várias notas deixaram a vitória tão bonita. As provocações de Mourinho. O desprezível apoio de Maradona ao suposto algoz de seu sucessor. Os jornais madrilenhos arrotando as glórias do passado antes de serem repetidas.

 

Xavi depois do primeiro gol

Depois, um jogo do Barcelona como deve ser: ignorando o adversário. E esse era o Real Madrid de Cristiano Ronaldo, Xavi Alonso, Ozil e Di Maria.  É triste e engraçado ver grandes jogadores correndo atrás dos adversários, na posição desconfortável de aturdimento e pequenez que costumam a reduzir os outros times. Casillas sentado no chão, depois do quarto e quinto gol, foi hilário. A troca de passes de letra, calcanhar e chaleira – nessa ordem e respectivamente – entre Xavi e Iniesta foi um momento de restabelecimento da fé na grandeza da espécie humana. Messi só não foi Messi porque não fez gols. Somente duas assistências e a sua série arqui-conhecida de fileiras de adversários sentados no chão. Já Xavi e Iniesta foram, respectivamente, Xavi e Iniesta. O Barcelona foi o Barcelona. E o Palmeiras de 96. E o São Paulo de 91. E aquela sala bacana da Tate Modern com o “Veado Iluminado por um Raio” de Beuys. E a canção dos trabalhadores de Cardew. E aquela historia engraçada do amigo contada mais uma vez. E o café da manhã com a mulher escolhida. E o filho, com suas mãozinhas golpeando o ar.

6 comentários sobre “O que existe de bom e de Melhor, por Rafael Campos Rocha

  1. Que bom ler um texto desses logo após ficar sabendo que a Copa do Mundo vai ao Qatar. Reascende um pouco da esperança no futebol…

  2. ” Como a operação é simples e depende de qualidade técnica, mas não de alguma espetacular capacidade de dar efeito na bola, vários jogadores do Barcelona são capazes de dar esses passes, e também de recebê-los”

    Do caralho o texto todo, mas especialmente esta passagem, futebol é uma das coisas mais humanas que se tem notícia, bora deixar o Olimpo pra lá.

  3. Texto maravilhoso! Assisti ao primeiro tempo no Planeta Bola enquanto esperava a pelada começar e quase fiquei bravo de não ver o segundo tempo. “o que falam do Barcelona não se compara com aquilo que se vê”, super verdadeiro, mas vá no site da ESPN, “www.espn.go.com” e dê uma espiada no texto do Graham Hunter, “The best ever?”, que também foi uma alegria de ler e reler. Tem times que são realmente um colírio prá quem gosta de futebol bem jogado!

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