Chega de espuma – Ciência e Tecnologia

Nos últimos dias finalmente todos nós do Guaciara conseguimos dar um tempinho e correr um pouco da febre de Internet da campanha eleitoral. Os dois turnos das eleições presidenciais (principalmente o segundo) trabalharam em uma chave de teste de convicções e de uma necessidade intrínseca do eleitorado buscar provas e argumentos convincentes pra desmontar qualquer tipo de especulação levantada na imprensa. Em geral, especulações distantes do que poderia vir a ser o governo do pós-Lula.

Não é estranho que os ataques americanos ao câmbio no mundo inteiro, questões de infraestrutura, segurança e educação só tenham aparecido depois das urnas abertas.

Como pouco se discutiu programa de governo, o tom era de fofoca, de buscar possíveis ilações e denúncias, mas isso todo mundo que passa por aqui com alguma frequência já sabe. O problema é que mal acabou o período eleitoral e o discurso permanece igual. Pouco se fala dos resultados práticos na vida das pessoas de cada decisão governamental e continua se apostando na espuma: uma hora é um bloco governamental novo, outra a ficha da presidenta, outra uma reunião do José Dirceu, o julgamento do caso Celso Daniel, os mal-estares do PT com o PMDB,  o que disse alguém para outro e coisas assim.

Por isso, o que eu mais gostei da entrevista do Lula aos blogueiros foi quando ele se dispôs a falar de governo, como no caso de seu posicionamento contra o AI-5 digital, sobre a abertura de documentos sigilosos – sobretudo dos documentos sobre a ditadura -, as relações internacionais, Copa do Mundo, reforma política,  STF e seu critério de nomeações e principalmente seu compromisso em apresentar tudo que foi feito nos últimos oito anos, mostrando como a institucionalização das medidas é uma das marcas desse governo.

Essa ação coordenada pelos blogueiros progressistas – e articulada pelo Renato Rovai – poderia ser replicada a uma entrevista com a nova presidenta e mesmo em entrevistas temáticas sobre educação, saúde, ciência e tecnologia, economia, desenvolvimento, ação afirmativa, agricultura familiar, jornada de trabalho,  relações internacionais, comércio exterior etc.

Há entre os blogueiros gente muito qualificada para discutir todos esses assuntos. Agora é hora desses blogs se organizarem e colocarem essas questões. Na verdade, a Internet é uma ótima possibilidade para divulgarmos pautas consistentes e levantarmos um debate sobre os destinos do Brasl de agora.

O respeitadíssimo Miguel Nicolelis, por exemplo, acaba de divulgar uma agenda muito relevante  para a ciência e tecnologia brasileira, o Manifesto da Ciência Tropical. O documento pode ser lido na íntegra neste link, mas vale a pena ler as suas 15 metas:

1) Massificação da educação científica infanto-juvenil por todo o território nacional;
2) Criação de centros nacionais de formação de professores de Ciência;
3) Criação da carreira de pesquisador científico em tempo integral nas universidades federais;
4) Criação de 16 Institutos Brasileiros de Tecnologia espalhados pelo país;
5) Criação de 16 Cidades da Ciência;
6) Criação de um arco contínuo de Unidades de Conservação e Pesquisa da Biosfera da Amazônia;
7) Criação de oito “Cidades Marítimas” ao longo da costa brasileira;
8 ) Retomada e Expansão do Programa Espacial Brasileiro;
9) Criação de um Programa Nacional de Iniciação Científica;
10) Investimento de 4-5% do PIB em ações de ciência e tecnologia na próxima década;
11) Reorganização das agências federais de fomento à pesquisa;
12) Criação de “joint ventures” para produção de insumos e materiais de consumo para prática científica dentro do Brasil;
13) Criação do Banco do Cérebro;
14) Ampliação e incentivo a Bolsas de Doutorado e Pós-Doutorado dentro e fora do Brasil;
15) Recrutamento de pesquisadores e professores estrangeiros dispostos a se radicar no Brasil.

Além disso, o site do governo brasileiro implantou um canal sobre a transição. Ainda é pouco centrado nas propostas de governo e acaba reproduzindo o que sai no noticiário, mas é na Internet que a gente deve levantar propostas e pensar o que queremos do governo Dilma e dos próximos.

15 comentários sobre “Chega de espuma – Ciência e Tecnologia

  1. Nunca tinha visto nada parecido com isto no Brasil.Acho que finalmente é o “Novo tempo” que o Vitor Martins falava.

  2. E, como não foi o caso, fosse chapa branca? Noves fora, foi oportunidade ótima do Barba falar de muita coisa interessante e pertinente que não achamos nos jornalões por aí.

  3. só não concordo com a ideia de uma formação científica desde o berço. acho que isso tem que entrar lá pela adolescência na instrução formal, deixar a molecada desenvolver os talentos que preferir até lá. mas sou a favor de construir uma cultura mais ampla de divulgação científica, com revistas como a da fapesp, programas de TV, livros dirigidos a pré-adolescentes e adolescentes. mas o que eu entendi da ideia de formação científica do nicolelis eu achei um exagero. todos os grandes cientistas foram e são pessoas com curiosidades as mais diversas, não só pela ciência.

  4. o michael fried disse uma coisa engraçada para mim e para o tiago quando fomos à bienal: falando do filósofo da linguagem hubert dryfuss, de quem é amigo e admirador mas de cujas teses sobre a relação entre cognição e prática discorda (o artigo sobre o filme do Zidane entra nessa questão, ao final), ele disse: “ele é um cara legal, mas, sabe: dá para dizer só pela cara dele, e pela maneira como ele vê o mundo, que ele nunca jogou bola”. moleque tem mais é que jogar bola.

  5. http://altamiroborges.blogspot.com/2010/11/alguns-bastidores-da-entrevista-com.html
    “Ao fim, quem imaginava que seria um encontro chapa-branca se surpreendeu. Quantas vezes na história deste país o presidente da República foi perguntado, por exemplo, sobre por que não se avançou na democratização das comunicações? Quantas vezes lhe perguntaram por que recuou no PNH3? Quantas vezes ele teve de se explicar sobre a saída de Paulo Lacerda da PF? Quantas vezes ele foi cobrado sobre o governo não ter se empenhando para a aprovação das 40h semanais? Quantas vezes Lula falou sobre o Acre e suas idiossincrasias políticas? Quantas vezes discutiu o capital estrangeiro na mídia? Quantas vezes falou sobre AI 5 digital? Quantas vezes tratou da educação para o povo negro? Quantas vezes abordou a cobertura da Globo no episódio da bolinha de papel?”

  6. Tb acho, mas bem que vcs podiam se juntar e tentar construir uma memória, dava um texto ótimo.

    Quanto ao Nicolelis, acho que independente da pauta que ele coloca, o mais importante é a pauta em si. Todos os setores deviam se organizar e tentar construir uma pauta sobre o seu assunto de interesse.

  7. total, e o lado ambicioso da pauta dele é o mais massa. um milhão de bolsas de iniciação científica! o departamento de filosofia da unicamp, nota 7 na capes, recebeu duas bolsas de doutorado em 2010. Duas.

  8. Tenho certeza de quem colocar metas, por mais ambiciosas que sejam, e traçar algumas diretrizes claras sai na frente da disputa que vem por aí depois da definição dos ministérios.

  9. Alguém aqui sabe o peso do Nicolelis e desse manifesto com quem for mandar nisso no governo Dilma? Ou seja, são duas perguntas, quem são os nomes junto da Dilma nesses campos e há proximidade com o Nicolelis?

    P.S.: Nicolelis estava na torcida do Palmeiras na derrota para o Goiás… Ele não tá bem no jogo. 😛

  10. O Nicolelis é palmeirense doente. Acontece nas melhores famílias…
    Ele é bem próximo do da direção da CTI no Brasil, em especial com o PSB (Roberto Amaral, Eduardo Campos, Sérgio Rezende) , que tem mandado no MCT desde o começo do governo Lula e é muito forte no Nordeste (ele criou o Instituto Internacional de Neurociências de Natal, imagino que não por acaso no RN). No campo da CTI, acontece uma coisa engraçada: grandes cientistas são respeitados pelo mérito científico, independentemente de filiações políticas. O campo é muito articulado e autônomo e valoriza os grandes cientistas. Ele é um dos, se não o, maior cientista brasileiro da atualidade.

  11. Valeu, queridos!

    Li que o Haddad liberou R$42 milhões do governo federal para o IINN em 2007. Então há mesmo uma ligação. Natal foi escolhida por ser mais longe do sul-sudeste e mais próximo da Europa, já que uma ideia é este forte intercâmbio e sair do eixo Rio-SP.

    Dema, o narrador global o anunciou no jogo exatamente dessa forma (o maior cient…).

    Abraços!

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