Ah! Se meu meio-campo falasse… (Rafael Campos Rocha)

Wesley Sneijeder é um gênio do futebol. Como sabemos que o futebol – como a arte e a filosofia – é uma atividade corporal, o primeiro item de sua genialidade é a sua excepcional capacidade física. Sneijeder é ambidestro, podendo fazer lançamentos precisos com os dois pés. Se ele pudesse, como podem inúmeros craques, tudo bem. Mas Sneijder realiza lançamentos precisos com os dois pés, quase sempre assistências para gols, em quase todos os jogos que você puder assistir dele. Só isso já o torna o mais efetivo meio-campista que eu vi desde Zidane.

Além disso, o holandês é excelente driblador e chutador. O que significa que quando dribla, Wesley está buscando espaço para o arremate, e não somente praticando “futebol-moleque”, essa praga midiática que ocupa nossos instantes preciosos nos estádios e em frente às nossas televisões. Outra característica do holandês que me entusiasma é o número de vezes que Sneijeder consegue roubar a bola dos adversários quando dá o bote. Sempre me desespero com jogadores ofensivos marcando, porque a única coisa que conseguem, geralmente, é derrubar o adversário ainda no campo de defesa. Quando não tomam o amarelo, irritados por tentarem tirar a bola, sem sucesso, de um jogador inferior tecnicamente. Além do que, em geral os craques do ataque não obedecem – e não estão acostumados a obedecer – esquemas táticos rígidos. O esquema tático de ataque rígido acaba por destruir a principal e mais eficiente característica do ataque, que é a surpresa. E sabemos, a essa altura do campeonato, que se um sistema de defesa não comete erros, dificilmente um atacante, por mais talentoso que seja, pode penetrá-lo. Afinal, para destruir uma jogada basta um bico pra frente. É um trabalho delicado o de ataque, que pode dar errado com qualquer suspiro. O defensor também não pode errar, mas não precisa criar.

Criação e precisão são duas coisas muito difíceis de serem colocadas juntas. Daí a raridade de homens como Ronaldo e Eto`o no futebol mundial.  Enfim, criar sem um esquema rígido que o sustente é o que faz o futebol superior à pintura, por exemplo. Isso no caso do meio de campo pra frente, já que, como dissemos, os sistemas de coberturas dos zagueiros ou mesmo de marcação da zaga devem mais ou menos rígidos, justamente para diminuir a margem de atuação dos atacantes e meiocampistas ofensivos.

 

Wesley Benjamin Sneijder (1984)

Voltando ao nosso herói, perder a bola pra Sneijeder é um perigo, porque sua primeira providência não é verificar o penteado no telão ou estufar o peito para ouvir o aleluia da platéia. Sua primeira providência é despachar Eto`o ou Robben para correr em direção ao gol adversário. É verdade que o meia nunca mais foi o goleador e driblador agressivo do Ajax, e não somente por ter passado pelo túmulo de craques Real Madrid. Afinal, é cada vez mais difícil repetir feitos de um ano no seguinte, no futebol mega-informado da atualidade. Os jogadores de ataque são destrinchados até a alma pelos adversários. Além, é claro, do Real ter a estranha característica de fazer desaparecer jogadores estupendos como Kaká. Não é tão estranho, na verdade. O Real foi campeão com Sneijeder, se não me engano.

O que acontece é a maldição do “Dream Team”, das super estrelas midiáticas que não conseguem exercer sua profissão em paz devido à caterva midiática (mais mídia!) que paira ao seu redor. Aconteceu com o Real de Zidane e Beckham e com o selecionado brasileiro de 2006. Mas aconteceu realmente algo estranho com Sneijeder na Copa do Mundo. E com toda seleção holandesa. Seu vistoso e agressivo futebol das vésperas foi substituído por um pragmatismo triste, porque baseado na catimba e na violência de um Van Bommel, de longe o mais detestável futebolista da atualidade. Mas isso tudo já foi explicado com maestria por Tostão, o Lorenzo Mammì da nossa imprensa esportiva.

Parte 2

Apesar do seu incrível talento, Sneijder não é o maior meio-campista da atualidade, no meu entendimento. Esse é Xavi Hernándes. Campeão cinco vezes pela liga, três pela Supercopa, duas pela Champions e um Título Mundial de Clubes. Isso só pelo Barcelona. Xavi também deve ser o mais importante jogador da história da Espanha, com um Mundial Sub-20, Prata nas Olimpíadas de 2000, uma Eurocopa e o último mundial da FIFA. Seu estilo preciso e austero lembra o de seu sucessor no Barcelona e atual técnico, Pepe Guardiola, um cracasso de bola que, juntamente com Romário, StoichkovLaudrup fizeram não somente esse cronista, mas todo mundo que gostava de bola e conseguia sintonizar a Bandeirantes a torcer pelo Barcelona do início dos anos 90.

 

Xavier Hernández Creus (1980)

Xavi combina a obediência cega à marcação a uma saída de bola rápida e precisa ( mesmo que não pareça rápida. Na verdade é rápida porque é precisa). Tem um drible fácil e elegante, sem os malabarismos e exibicionismos que tanto exasperam esse crítico diletante. Se é possível para Xavi, arrisca lançamentos em profundidade, sempre rasteiros, e nunca de longuíssima distância (uma preciosidade dos tempos de Gerson que hoje só é cometida por zagueiros quando seu time não tem meio-campistas).

Xavi é muito pequeno, mas protege a bola com perfeição, e dificilmente, aliás, raramente, a perde para um adversário. Esse seu lado zagueiro e estruturador, deixou-o um pouco fora dos holofotes na época áurea de Ronaldinho Gaúcho, que parecia ser um camisa dez capaz de levar a bola pela lateral do campo e aplicar elásticos e fazer gols de bicicleta. Um mal-entendido que foi superado pela escalação de Gaúcho como atacante recuado por Felipão e pela lucidez de Zagallo, que declarou a ausência de “pulmão” para que Ronaldinho pudesse ser realmente um meio-campista.

Mesmo assim, e apesar de uma série de contusões longas nos tornozelos e outros alvos de volantes adversários, Xavi deve, ao final de sua carreira, ser considerado o jogador mais importante de um dos mais importantes clubes do século. A não ser que Messi continue sua média – algo anos 60 – de fazer 1 gol por jogo. Aí realmente não há Estrutura Histórica que aguente.

4 comentários sobre “Ah! Se meu meio-campo falasse… (Rafael Campos Rocha)

  1. Na minha modestíssima opinião, todos filhos do Zico, obviamente que hiper-vitaminados.

  2. olha Pedro, tem a ver com zico sim, principalmente essa coisa do lançamento, apesar do zico ter mantido o tino de goleador e de ponta-de-lança. mas essa coisa de jogo cadenciado não era muito com o galinho não. sabe quem eu acho herdeiro do zico: o messi. camisa 10 goleador que começou na ponta-direita. só que o messi quase não bate falta. mas deve começar à partir desse ano. até a corcundinha parece e o estilo vamo-que-vamo.

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