Tunga em 2001

No mês passado, o repórter Bruno Moreschi publicou uma ótima matéria sobre o Tunga na revista Piauí. Eu comprei a revista, mas deixei a leitura pra depois. O semestre me ocupou muito com aula, com trabalhos, Bienal e eleição. Eis que um dia, no Cebrap, o Marcos Nobre, sempre atento, me avisou. Claro que olhei na hora.

Um grande amigo, Rodrigo Moura, havia me pedido um texto que escrevi quando não tinha nem 23 anos ainda. Na época, era crítico da Folha e aprendia em público, com erros e acertos. Fui escalado pelo Nelson de Sá, então editor da Ilustrada, para cobrir a inauguração do Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo, onde sabia que aconteceria uma performance.

Eu já havia escrito sobre o Tunga na revista Novos Estudos CEBRAP. E tinha muito interesse nessas esculturas magnéticas que ele havia apresentado na galeria Milan e na Luísa Strina. Queria ver os desdobramentos.

Estava em alguma abertura na galeria Marília Razuk e me mandei pra lá. Ao chegar, notei que Tunga havia feito daquele banco um inferno dantesco. Com muita gente pintada de batom, correndo de um lado pro outro, bezuntando os sinos e bengalas de ruge.

O texto ainda transmite muita insegurança de um menino que sabia muito pouco (que, aliás, não aprendeu muito), e escrevia de maneira descuidada, para dizer o mínimo. Não sei se foi a generosidade de Bruno Morescchi. Mas ao ler, tive a impressão de que o meu julgamento que sobre o que eu tinha feito antes era muito duro. Então, em agradecimento, resolvi republicá-lo.

Fica em homenagem ao meu amigo Rodrigo Moura, que aliás, fez a curadoria da ótima Primeira e última , em cartaz na galeria Luísa Strina.

Tunga: Lúcido Nigredo. Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, 2001

*texto publicado originalmente na Folha de S. Paulo no dia 02 de maio de 2001.

Mesmo levando em conta o prestígio internacional e a importância de Tunga para a arte contemporânea brasileira, não deixa de ser curiosa a escolha da obra dele para inaugurar o novo espaço do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. O artista leva certa ambiguidade da forma, tratada ostensivamente na sua escultura, para a sua intervenção. Como se o que havia latente no objeto, tornasse-se manifesto.

Pensando na auto-imagem arquitetônica do CCBB, como um passado idealizado do centro velho, sua intervenção traz ao prédio reformado todas as trevas que esse tipo de “ação urbana” procura expurgar. O modo como o artista faz a passagem da atuação escultórica para a performance é reveladora.

Tunga se aproveita do despertar de uma certa interioridade misteriosa dos materiais, constante em sua obra. Vidro, ferro, imã e outros saem do repouso mineral instituindo um campo energético que desmente uma inércia dócil da natureza. As propriedades estranhas são reveladas como características que, até então, estavam escamoteadas na matéria.

“Lúcido Nigredo”, instalação exposta no segundo andar do CCBB, trata a transparência e a estabilidade das formas numa temporalidade em que as coisas se mostram em um estado intermediário. Pontuada pelos filmes projetados nas duas extremidades da sala, o artista lida com o hiato entre um ponto de partida e um de chegada. Em um lado, desce um elevador, e, em outro, é filmada a subida numa escada.

A profusão de cobertores acidenta todo o chão da sala, tornando-o escorregadio. Chapas e recipientes de vidro sobrepostos confundem os contornos e põem a transparência sob suspeita.

No momento em que o espectador adentra esse espaço, o sistema de reações parece se consumar. Tanto as lâminas de vidro como as esferas e o tecido reagem à sua presença, e o que poderia ser entendido como potencial de uma sociabilidade interessante revela-se como impossibilidade.

Podemos dizer que a resignificação da matéria, que em Beuys -que parece ser a maior referência de Tunga nesta exposição- pretendia a reconciliação harmônica entre homem e natureza, no escultor pernambucano revela a face indomável da matéria.

Na performance “Tereza”, apresentada na inauguração da exposição, tudo o que a fachada do prédio recém-reformado pretende refratar aparece presente no seu interior. Toda a solidez confiante exterior aparece como uma interioridade precária, efêmera e insegura. Sobre um solo irregular, escorregadio, em que tudo aparece ou como resíduo ou em estágio de decomposição.

Apesar da alta literalidade e de um trato que absorve com o espectador, essa mistura de sons, cheiros e consistências desconexas parece por fim análoga à revolta da natureza de “Lúcido Nigredo”. Talvez com menor sutileza do que lá, o artista consegue atribuir um sentido cultural forte à sua intervenção. Pois o que parece se gestar no interior do prédio é a dimensão infernal da exclusão social. O “revival” de uma ordem idealizada da cidade aparece irmanada à desagregação.

Essa interioridade perversa não pretende retirar a importância de instituições como o CCBB, mas certamente joga um balde de água fria em algumas promessas que permeiam esses projetos, pedindo que deixemos as esperanças do lado de fora.

9 comentários sobre “Tunga em 2001

  1. thiago, o texto é muito esclarecedor do trabalho do tunga. gostei pra caramba. fica de pé até hoje, mesmo escrito quase dez anos atrás. coisa boa.

  2. Adorei ler Tiago! Eu estava lá, cobrindo a inauguração pelo ig. Lembro muito desse dia, da performance e do tunga e do Arnaldo Antunes tomando umas, cobertos de tinta, num botequim ali do lado bjs

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