O Serra de ontem, o Serra de hoje – notas sobre o revisionismo de sua própria vida, por Demétrio Toledo

o nhem nhem nhem dele
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O desapego de Serra por sua própria biografia, eu diria até mesmo o ódio por sua vida pregressa, não pode ser compreendido apenas como oportunismo político de uma das figuras mais baixas da história política do Brasil. Que alguém lance mão de argumentos baseados na intolerância religiosa, no machismo mais escabroso e no ódio regional e racial já é grotesco 25 anos depois da queda da ditadura.

Valer-se de uma retórica reacionária que, pasmem, está referida freudianamente – e um Freud de tira de quadrinhos, diga-se de passagem, por sinal o único que presta – à própria história do detrator, causa verdadeira perplexidade. É o caso de José Serra.

Por mentir sistematicamente, Serra coleciona até o momento uma quantidade assombrosa de trololós, sendo portanto impossível arrolá-los exaustivamente. Vou restringir o comentário, portanto, a dois dos trololós mais desavergonhados, mais abjetos, mais repulsivos e mais reveladores da personalidade de José Serra.

Em primeiro lugar, o caso do aborto realizado pelo casal Mônica e José Serra, que nas últimas semanas foi objeto do revisionismo de suas próprias histórias, tendo, por força das circunstâncias eleitorais, deixado de existir – como se a vida fosse simples assim, fechando os olhos e tudo se apaga, tudo se resolve. Depois de Mônica acusar Dilma – combinando, como não poderia deixar de ser nesse caso, obtusidade e reacionarismo reles – de ser “assassina de criancinhas”, pois Dilma, como mulher e como mulher pública, defende corretissimamente (desculpem pelo josédiaismo) a descriminalização do aborto como uma questão de saúde pública e não um problema policial ou religioso, eis que surge a revelação, mas , na insuspeitíssima Folha de São Paulo, de que Mônica havia realizado ela mesma um aborto em momentos mais apertados de sua vida.

Que alguém banalize a própria história desse modo e nesse nível, que um casal revolva e exponha sua vida de modo tão abjeto e contrário ao bem público e ao direito da mulher sobre seu próprio corpo é inaceitável e revoltante, sendo seguramente um dos momentos mais baixos da vida política brasileira. Um pouco mais, ou melhor, um pouco menos, e teríamos pena dos dois.

Espanta também (será?) que Mônica e José Serra usem do mesmo expediente que Collor usou contra Lula em 1989, quando aquele revelou uma passagem da vida de Lula em que ele e sua companheira haviam recorrido, por motivos e razões que dizem respeito apenas ao casal – e na verdade apenas à mulher, sujeita única e exclusiva do direito a seu próprio corpo – à interrupção da gravidez. O que se esperaria de pessoas decentes é que, a vivência de uma experiência que é qualquer coisa menos banal e que deixou marcas profundas em Mônica, como ela mesma contou a suas alunas na Unicamp, a passagem por um evento tão forte, sensível e tocante pudesse levá-los a ter uma opinião menos desumana e retrógrada sobre o aborto.

Os progressistas somos todos solidários ao sofrimento que o evento impôs ao casal, experiência aliás tão comum em nosso país, ainda que profunda e lamentavelmente marcada pelas desigualdades de classe que separam a prática do aborto em, de um lado, procedimento cirúrgico para umas poucas e, de outro, autoflagelação com risco de morte para a imensa maioria. Nossa solidariedade estende-se a todas essas mulheres, ricas e pobres, vivas e mortas, cada uma marcada profundamente pela dificílima (e dá-lhe José Dias!) experiência de interromper uma gravidez. Repudiamos por isso o retorno à barbárie prepagado por Mônica e José Serra nesse particular. E lamentamos que a oportunidade para uma aula de civismo e humanismo – de amor, que tanta falta faz e que por sinal nunca é demais – tenha sido desperdiçada de forma tão abjeta por Mônica e José Serra.

Em segundo lugar entre os mais desaforados trololós de José Serra está sua insistência, e de certos jornais, como a Folha de São Paulo, em retratar Dilma como terrorista. A causa da repulsa é diferente em cada caso, por isso deixo à leitora decidir qual é pior. O interesse da Folha de São Paulo pela história de Dilma na resistência à ditadura é macabro e asqueroso porque, como se sabe, a empresa dos Frias foi aparelho da famigerada Operação Bandeirantes, vulga OBan, tendo auxiliado a repressão a sequestrar, torturar e matar pessoas que resistiam à ditadura. É uma posição repulsiva porque indica atavismo, um apego genético à tortura e ao assassinato como expedientes políticos, atavismo do qual a família Frias e muitos, mas não todos, de seus funcionários não conseguem se livrar. Mas até aí, pode-se dizer que a Folha de São Paulo continua do mesmo lado em que estava na ditadura – é coerente, por assim dizer; fascinorosa, celerada, mas coerente (aliás, grande merda ser coerente com posições equivocadas, antes a mais desvairada incoerência do que o apego ao erro e ao crime).

A posição de Serra, no entanto, é mais desconcertante, uma vez que ele próprio, durante a ditadura, mobilizou-se contra ela – pelo que sinceramente parabenizo aquele rapaz idealista, aquela boa alma que se apagou completamente, mais que isso, que se virou do avesso na versão atual de José Serra. Que ele e seus aliados, usem a mesma retórica, os mesmos termos e palavras que a ditadura usou para perseguir o próprio Serra, beira o incompreensível. (Se bem que, me dirá a leitora atenta a nossa história política recente, os tucanos superaram sua “questão” com a ditatura há muito tempo: desde que se tornaram unha e carne com o PFL/DEM; Índio da Costa e o PFL/DEM, por razões óbvias – porque eram a ditadura! -, jamais tiveram qualquer questão com ela, a ditadura).

Os tucanos dirão que isso tudo não passa de “cálculos de finório”, oportunismo de uma figura que está para ser derrotada definitivamente e que, por isso, usa de todos os expedientes disponíveis, da exposição acafajestada da vida privada de sua esposa ao beija-mão de seus antigos algozes, para tentar vencer, custe o que custar. Concordo, e acho que a leitora também. Mas acho que o Brasil perde demais, demais mesmo, com uma figura tão abjeta como Serra. E não sou só eu: amigos e parentes tucanos ou deixaram de votar no Serra por causa de suas imundícies ou simplesmente passaram a fazer campanha pela Dilma.

O Brasil não só pode mais, o Brasil merece muito mais. Merece, entre outras coisas, uma oposição moderna, progressista e comprometida com a verdade – bem o contrário do circo de horrores que Serra vem nos oferecendo. Ainda bem que domingo acaba.

2 comentários sobre “O Serra de ontem, o Serra de hoje – notas sobre o revisionismo de sua própria vida, por Demétrio Toledo

  1. Eu hoje tenho minha dúvidas. Acho que o Serra de antigamente é que estava equivocado.Talvez por romantismo ou envolvimentos acabou na guerrilha. Ninguém são da cabeça muda numa vida comletamente.Ou baixou o espírito do Lacerda nele.

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