Federação não, país!, com povo e tudo!, por Demétrio Toledo

Nojinho!

“Se há um traço distintivo do tucano paulista é seu ódio ao povo e ao país.”

1) Foi o que declarou o jornalista Paulo Sotero, tucano da velha guarda, em evento no MIT logo após o primeiro turno das eleições – “é triste dizer, mas infelizmente meus amigos tucanos têm verdadeiro nojo do povo brasileiro”, disse ele, tapando o nariz, indicando o sentimento da elite brasileira, e em especial da paulista, em relação aos nossos iguais;

2) é o que falou o neotucano Francisco de Oliveira em entrevista à Folha de São Paulo, num rompante de lucidez em meio a um monte de bobajadas;

3) é o que se depreende de uma fala da arqui-tucana Eunice Durham, professora do Departamento de Antropologia da USP, ex-secretaria nacional de política educacional do governo FHC, em evento do Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas da USP ano passado: “eu sei que o que eu vou falar é extremamente reacionário (cuma?, num credito, repete), é extremamente reacionário (nó!, falou mesmo!), mas a USP não pode jamais deixar de ser uma universidade pra elite. Esse é um dos instrumentos para São Paulo assumir a liderança da Federação”.

Duas coisas me chocaram: primeiro, o despudorado uso do qualificativo reacionário, que até onde se sabe é na verdade um desqualificativo. Sempre pensei no PSDB como uma direita conservadora enrustida, envergonhada de seu reacionarismo – à mercê de eventuais e quando muito apenas parcialmente compreendidas leituras de clássicos brasileiros como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda –, perdida entre um programa de modernização conservadora e conservação moderna, geneticamente entreguista (suas origens intelectuais são o udenismo) e fundamentado no rentismo que é a nossa marca desde a colônia (quer dizer, rentismo daqueles que têm o privilégio – previlégio, dizem os ilustradíssimos tucanos: “nossa, que pessoas estudadas, que chique, falam até francês, que previlégio poder privar com vocês em nossos convescotes higienopolitanos, e agora me vêm com esse peão analfabeto, se vier aqui vai subir pelo elevador de serviço que é o lugar dele, até essa nobilíssima instituição brasileira do tempo da vovó (vovó era iaiá, senhora de escravos) eles atacam, gente sem Deus no coração, valha-me minha Nossa Senhora…” – de não trabalhar) -, envergonhada de se declarar francamente reacionária; tirando, claro, Geraldo Alckmin, de um reacionarismo pelo menos autêntico, “de berço”, diria ele, e declarado pra quem quiser ouvir (não que alguém queira, claro).

Em segundo lugar e igualmente chocante, notei um cacoete mental/intelectual/moral dos tucanos paulistas que até então vinha me passando batido (mea culpa, mas é tanta besteira que os caras falam que às vezes fica difícil acompanhar), em especial dos que vão se empoleirar lá na USP: a incapacidade, a recusa de se referirem ao Brasil como “o país”, usando em vez “a federação” para se referirem ao… país que atende pelo nome de Brasil. Federação, ou seja, uma união passageira, frouxa e revisável, jamais a ideia de um país que partilha um destino comum. E lá foi a professora, federação pra cá, federação pra lá, a federação isto, a federação aquilo, e nada, porra nenhuma de o país, o Brasil, e isso tudo coroado pelo inesquecível “eu sei que o que eu vou falar é extremamente reacionário…”.

Ora, quem conhece a elite paulista sabe o ódio, o desprezo, o nojo, como disse o insuspeitíssimo Paulo Sotero para uma platéia de brasilianistas (por sinal, todos concordaram com a descrição de Sotero de seus amigos tucanos), que ela tem pelo restante do país. A guerra civil de 1932 de São Paulo contra o resto do país ainda emociona essa turma; o sentimento antinordestino é considerado sinal de pureza racial e moral; o racismo não é caso de polícia (mas o aborto é…); e o desprezo pelos menos afortunados, pelo povo brasileiro, é apresentado como sofisticação intelectual e seriedade no trato da coisa pública – só porque eles negam à imensa maioria do povo brasileiro o mínimo, o de comer, para que se possível o Brasil continue um dos países mais desiguais e injustos socialmente em todo o mundo.

Mas o desprezo não é apenas pelo povo brasileiro, é também pelo Brasil, vindo daí os primorosos e sofisticadíssimos argumentos que José Serra e sua turma usam para defender a privatização da Petrobrás e a entrega do pré-sal para as multinacionais do setor de petróleo e gás: “o Brasil não tem capacidade de explorar o pré-sal, o brasileiro é incapaz, só quem consegue fazer isso são os gringos, por que vamos gastar tempo e dinheiro para tentar explorar o pré-sal por conta própria, por vaidade, por nacionalismo?, vamos entregar tudo pros gringos e eles nos passam uma fração da renda, nem precisaremos trabalhar, além do mais, somos incompetentes etc. e tal”. Isso descreve perfeitamente os tucanos, que quebraram o país não uma, nem duas, nem três, mas três vezes e meia e que sempre que pegam uma estatal deixam ela em frangalhos financeiros e operativos só para que um esperto apareça com a brilhante ideia de privatizá-la. Mas não descreve os brasileiros em geral e o Brasil.

FHC já disse que “um presidente tem que tomar medidas impopulares!”, e dá-lhe bater no peito, dá-lhe sorrir com ar triunfante (“nossa, o Fernandinho é tão inteligente, tão capaz, vai ser presidente um dia…”, dizem que disse uma tia sua uma tarde muitos anos atrás). Mas se impopular=contra o povo, e se o povo elege os governantes para fazer o bem, de onde ele tirou essa ideia de que o governante deve necessariamente agir contra os interesses do povo?

O problema, leitor, é que o PSDB é programaticamente antinacional e antipopular. E ainda acha graça nisso. Não vejo graça nenhuma. Você vê?

P.S. Concordo com a Professora Eunice: o que ela falou é EXTREMAMENTE REACIONÁRIO.

10 comentários sobre “Federação não, país!, com povo e tudo!, por Demétrio Toledo

  1. Perfeito. Acho inclusive que isso aproximaq muitos eleitores burgueses do partido. Outro dia, uma amiga da minha mulher disse que o Lula era vulgar e que ele a envergonhava. Provavelmente, a origem da vergonha é a mesma que reclama de nao ter acesso a produtos de uma suposta elite internacional do consumo e usar expressões de seriados americanos acéfalos.
    Outra coisa que aparece nessa concepçao é utilizar a palavra civilizado como mais próximo de um país de centro, não como um comportamento educado.
    É muito doido como o ódio pelo país e pelo povo é manifesto em cada vírgula.

  2. Lindo texto! Demétrio, você foi uma maravilhosa descoberta que fiz nessa campanha maluca.

    E meninos do guaciara, divido com vocês o apelido q meu filho de 12 anos deu para o serra: serrapicolédeabobrinha …eu adorei, mas sou mãe e coruja kkkkk o que acham?

  3. Cara, essa confusão entre civilização e “ajo como se vivesse em um sitcom estadunidense” é uma das coisas mais Vergonha Alheia dentre as pessoas mais próximas com quem convivo…

  4. Oi aiaiai(?),
    Obrigado!
    Seu filho tem razão, o Serra só fala abobrinha. Manda um abraço pra ele.
    Abs,
    D.

  5. Boa a sacada sobre políticas impopulares, é por isso que esse pessoal usa populista como xingamento ao se referir às políticas governamentais que melhoram a vida das pessoas, que evidentemente passam a votar no partido ou governante que implementou estas medidas.

    Pra eles isso é um mau governo, o bom governante é aquele que estrangula o potencial da população e recebe votos mesmo assim, qualquer semelhança com o feudo do PSDB em São Paulo…

  6. Demétrio, parabéns pelo ótimo texto! Sempre me constrangeu e me irritou o olhar “antropológico” sobre o Brasil vindo de SP. Você me ajuda a identificar de onde ele vem. A propósito, há um belo texto meio irmão do seu, do Rodrigo Nunes, lá no Idelber.

    abs,

    Rodrigo Tavares

  7. Porra Dema, é isso aí, mas devo dizer que esse ideário não é um troço só paulista (pode ser um viés de alguém que está muito perto de SP)…

  8. O pior é que você tem razão, Gilson, não é só paulista não, é generalizado no Sul e no Sudeste. Pena.

  9. Olha, eu nao tenho nada contra nem a favor da opinião política de voces, só queria avisar que quando se vai cumprimentar uma dama “beijando-a na mao” , esta forma feita pelo Serra é a correta, nao é questao de nojo, ele fez o que a tradição deste cumprimento manda ser feito! O correto é sim o cavalheiro beijar a propria mão nao babar a mão da moça!

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