Atentado abortado, por Lino Bocchini

Olha, vivo campanhas eleitorais desde que me entendo por gente. Já vi muita apelação: Newton Cardoso contra Itamar, Collor e Lula e as incontáveis campanhas anti-PT (inclusive na minha cidade contra o meu pai). Mas nunca reação tão vil como a da campanha contra a candidata Dilma Roussef. Demorei pra perceber, mas correm panfletos apócrifos, spams e manchetes noticiosas desde fevereiro.

Além disso, a imprensa se esforçou para simular ataques à liberdade de expressão mais de uma vez. Mas o argumento não agüentou um sopro. Nas últimas semanas, os dois jornais mais importantes de São Paulo atuaram com muito viço no cerceamento da liberdade de expressão. A psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida do Estado de S. Paulo por destoar de sua posição eleitoral e a Folha de S. Paulo recorreu à justiça para censurar o site Falha de S. Paulo. A página é uma das melhores surpresas da eleição e da lavra de um amigo do Guaciara: O Lino Bocchini. Depois da censura, passou a se chamar Desculpe a Nossa Falha.

O Lino é uma figura respeitada da imprensa paulista. Repórter e editor já passou por várias redações da cidade e hoje é redator-chefe da Trip. Ontem, ele esteve em uma linha de produção da baixaria e a mobilização evitou um atentado. Vale a pena ler o relato dele:

 

Militantes de plantão na porta da Pana

 

Cheguei na gráfica Pana por volta das 2h da manhã de hoje, com meu cachorro, o Moreno. Soube da confusão pelo twitter, e como o endereço fica a menos de 10 quadras de minha casa, aproveitei pra dar uma voltinha fora de hora com o bicho e, de quebra, ainda acompanhar de camarote uma das maiores polêmicas da eleição dos últimos dias. Resumindo: após denúncia anônima, o PT descobriu que a Pana havia acabado de imprimir mais de um milhão de folhetos com as baixarias habituais a respeito do aborto que têm sido jogadas na internet e na vida real contra Dilma. Mais de uma tonelada de difamação em forma de papel jornal, português ruim e layout de quinta categoria estava prontinha pra ser distribuída. Com a informação na mão, o partido conseguiu na Justiça Eleitoral uma liminar no final da tarde de ontem. Um mandado de busca e apreensão foi expedido.

 

Rui Falcão na porta de gráfica às 3h da manhã

 

Quando estacionei meu carro na porta da Pana, três policiais federais à paisana batiam papo do outro lado da calçada, enquanto cerca de 30 militantes se reuniam em pequenos grupos. A porta da gráfica estava fechada, sem sinal de ter alguém dentro. Mais cedo, teve até militante mais exaltado que queria invadir o local, o que não aconteceu. A polícia tinha que esperar amanhecer pra tentar achar o dono e cumprir o mandado, explicavam os dilmistas. Algumas das pessoas presentes na José Bento, uma ruinha pequena do Cambuci, davam a exata medida da importância do atentado que se conseguiu abortar em cima da hora. O deputado estadual reeleito Rui Falcão, coordenador de comunicação da campanha de Dilma Roussef, ficou por lá até o amanhecer. Saiu exausto, a 13 horas do debate da Rede TV. Também estiveram na porta da gráfica outros parlamentares do PT: o deputado federal reeleito Paulo Teixeira e os estaduais Antônio Mentor e Adriano Diogo. Diogo, aliás, foi um dos primeiros a chegar ontem e hoje ao meio dia, quando voltei à cena do crime, já estava por lá de novo, com uma cara ainda mais cansada do que Rui saiu de la pela manhã. Mas disposto a ficar até que o último folheto fosse apreendido.

 

Porta da gráfica um pouco antes do final da operação, por volta de 12h de hoje

 

A mobilização se justifica. Não se sabe exatamente quantos panfletos ilegais foram impressos. As informações falam entre um e dois milhões. A encomenda original seria de 20 milhões. Esses mesmos folhetos, que fazemos questão de não reproduzir, foram distribuídos Brasil afora no último dia 12 de outubro. Enfim, mais um ato do teatro do absurdo que se tornou essa relação promíscua entre religião e política nessa eleição. Muita gente já disse que regredimos décadas no debate eleitoral. O certo talvez seja séculos. A tão falada separação entre Igreja e Estado era pregada pelo filósofo inglês Thomas Hobbes no século XVI, mas foi revogada por um dos lados dessa campanha.

Admito que me incomoda ver Dilma Roussef sendo obrigada a beijar a mão de um bando de líderes católicos e evangélicos, em sua maioria mais preocupados em manter dogmas inúteis que só servem ao atraso e à infelicidade das pessoas do que, de fato, em melhorar a vida dos mais pobres – isso sim um princípio verdadeiramente cristão. Mas o que me incomoda mesmo é a hipocrisia e o extremo conservadorismo do candidato José Serra. Não consigo engolir um candidato que posa de bastião da família e da moralidade e lê a Bíblia no horário eleitoral mas fala para o seu vice que “ter amantes tudo bem, mas tem que ser discreto” e cuja mulher, segundo a Folha de S. Paulo, abortou um filho seu (e não vejo mal nenhum nisso, e sim na contradição); um candidato que beija terço para os fotógrafos diariamente e se diz top-cristão mas tritura adversários e dissemina o ódio pelo país, a ponto de não ser apoiado por boa parte de seu próprio partido –Arthur Virgílio, Albano Franco e Aécio Neves que o digam.

Voto Dilma? Claro. Prefiro mil vezes estar do lado da turma que ficou tomando uma cervejinha, dando risada e debatendo política na madrugada de ontem na porta da gráfica para evitar um golpe igrejeiro na continuidade do governo Lula do que estar do lado de quem mandou imprimir aquela sandice.

 

Moreno desconfiado sobre a autoria dos panfletos

 

Em tempo 1: os deputados não estavam tomando cervejinha. Eu e outros, sim.

Em tempo 2: os panfletos foram finalmente apreendidos só no começo da tarde de hoje

Em tempo 3: fora eu, só um outro jornalista da Carta Capital esteve por lá a madrugada toda.

Em tempo 4: os panfletos são assinados por 3 bispos católicos. Mas eles juram por Deus que não têm nada com isso. Enfim, esse caminhão de panfletos (na verdade foram preciso dois caminhões pra levar tudo) continua sem pai nem mãe.
ATUALIZAÇÃO IMPORTANTE: Hoje a Folha noticia que a gráfica é de uma filiada ao PSDB, irmã de um dos coordenadores de campanha de Serra. Meu cachorro Moreno, que estava desconfiado sobre a autoria dos panfletos, teve suas suspeitas confirmadas. Cabe a pergunta: Quem é Sérgio Kobaiyashi.

13 comentários sobre “Atentado abortado, por Lino Bocchini

  1. elbrujo diz:

    17/10/2010 at 17:11
    Sr. Tiago Mesquita,

    já faz um tempo que estou procurando o número dois (02) do Inimigo do Rei…

    você tem????

    poderíamos permutar, eu tenho o livro:

    O INIMIGO DO REI (imprimindo utopias anarquistas), de carlos baqueiro e eliene nunes), achiamé editor, 2009

    xxxxxx

    27/03/2010 at 8:48
    Arthur, existe algum registro historiográfico sobre o CCS? Se não, seria importante alguém fazer. eu tenho muita coisa lá em casa. Do CCS, do jornal o Inimigo do Rei. Tenho tudo isso na casa dos meus pais.

  2. O Ramone, um truta meu, esteve lá na madrugada e saiu de lá mais militante ainda: nada que uma cervejinha com um bando de gente interessada em um país mais igualitário e justo pra reafirmar nossos compromissos de barrar essa galera que vive do ódio e da desinformação.

  3. Aí Tiago belo artigo!
    Ganho meu dia cada vez que visito este blog.

    Ps O moreno é lindo!!!!!!!!!!

  4. Sr. Tiago Mesquita o meu e-mail para contato é:

    tavaresinspetor@yahoo.com.br

    passe os seus dados postais que coloco no correio o livro sobre “o inimigo do rei”, isso se for do seu interesse…

    grato, tavares

  5. Já critiquei muito a folha durante a campanha, mas, embora ainda faça um sem número de besteiras na primeira página, tem feito ótimas matérias apertando os dois candidatos. Isso é jornalismo …

  6. No final de setembro fui visitar o Mosteiro de São Bento, em São Paulo, e lá estavam já esses panfletos, na entrada da igreja, pra quem quisesse pegar. Pensei que fosse só uma manifestação da CNBB contra o aborto e peguei pra ler em casa. Se tivesse visto antes o conteúdo, teria jogado o pacote inteiro no lixo…

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