Galway Kinnell, poeta americano, 1927-presente, por Demétrio Toledo

A vida está corrida. Não consigo terminar nenhum texto da lista de posts que tenho na cuca. Por sorte, temos colaboradores de luxo, como Demétrio Toledo .

Para comemorar a sua estada no Brasil, publico algo que ele escreveu sobre a sua experiência em Cambridge (MA) e sobre o poeta Galway Kinell.

 

Galway Kinnell

 

 

Em Cambridge, Massachusetts, quem não tem tv paga, como Mury e eu, tem que se contentar com futebol americano só no domingo (quatro jogos, dois simultâneos), reprises do “Office” e do “Curb Your Enthusiam” e o “Jerry Springer Show”, programa que anima nossas manhãs com traiçoes, canalhices e um nível deliciosamente baixo e avacalhado ovacionados pela platéia com gritos de “Jerry, Jerry, Jerry” (o nome do apresentador) cada vez que o nível desce pra baixo da camada do pré-sal.

Quem quiser e tiver paciência pode também assistir e/ou produzir/estrelar um dos muitos programas dos dois canais da CCTV (Cambridge Community Televison), CCTV9 e CCTV10, canais sustentados por doações da comunidade nos quais qualquer um – isso mesmo, qualquer um que quiser  – pode apresentar seu programa e ainda ganhar de brinde o seguinte aviso antes da parada começar: “Este programa contém “free speech”, que, segundo pesquisas, é um componente fundamental da democracia”! E dá-lhe falar o que vem à cabeça, muitas vezes visivelmente (a cabeça) “under the influence” (melhor e mais cínica expressão de todas que aprendi aqui), o que dá saudades do programa que Itaquê, Renatinho, Carol e eu de assistente eventual transmitíamos da rádio pirad(t)a da História/FFLCH, a famosa “A hora das rasgadeiras” (nunca entendi o nome do programa, especializado em funk proibidão).

Como a oferta de hippies velhos e doidões é limitada até mesmo em Cambridge, Massachusetts, de vez em quando não tem o que passar na programação. Restam então duas alternativas: transmitir as imagens da câmera de segurança que filma a porta de entrada da CCTV – com direito a ver todos os malucos que vão entrando pela porta – ou exibir um documentário mais velho do que andar pra frente sobre Galway Kinnell, gênio da poesia contemporânea americana.

Foi assim que conheci o cara, assistindo, noite após noite, o fera declamando seus poemas cheios sobre os temas mais inesperados – e inesperadamente delicados  e vivos – da poesia contemporânea: paternidade e sexo, língua e fruta, fruta e língua, numa das poesias mais poderosas que andam por aí.

A influência mais óbvia na poesia de Galway Kinnell é Walt Whitman – o hedonismo naturalista é um tema recorrente de sua poesia: quem consegue ficar indiferente ao erotismo tão profundo que chega a dar tesão de “Blackberry Eating”,  frutoso e lingual,  e “Last God”, suculento e molhado? – e com uma musicalidade que remete aos poemas de Edgar Alan Poe, ritmados, densos e flertando com o extasiástico. Sua poesia tem também uma masculinidade livre, intensa e emancipatória em relação aos papéis tradicionalmente atribuídos a nós homens – tema tão a propósito no momento em que tentamos, mulheres e homens progressistas, eleger Dilma Rousseff – com uma mistura de potência inata e carinho paterno tocantes.

Galway também traduziu: Hardy, Villon, Bonnefoy e Rilke.

Aqui vão as coisas que mais me impressionaram. As duas primeiras falam de Ferguson, seu filho.  As outras duas são pra ler com quem a gente mais gosta e tem tesão. A última eu não sei pra que serve, só sei que é linda demais.

Queria que todos pudessem ouví-lo declamando, mas parece que  esse privilégio só existe praqueles que têm que assistir CCTV até altas horas da madruga… Sorte e azar de vocês. Fiquem com as duas gravações que eu encontrei.

After Making Love We Hear Footsteps


The Olive Wood Fire

When Fergus woke crying at night.
I would carry him from his crib
to the rocking chair and sit holding him
before the fire of thousand-year-old olive wood.
Sometimes, for reasons I never knew
and he has forgotten, even after his bottle the big tears
would keep on rolling down his big cheeks
– the left cheek always more brilliant than the right –
and we would sit, some nights for hours, rocking
in the light eking itself out of the ancient wood,
and hold each other against the darkness,
his close behind and far away in the future,
mine I imagined all around.
One such time, fallen half-asleep myself,
I thought I heard a scream
– a flier crying out in horror
as he dropped fire on he didn’t know what or whom,
or else a child thus set aflame –
and sat up alert. The olive wood fire
had burned low. In my arms lay Fergus,
fast asleep, left cheek glowing, God.

Last Gods

Blackberry Eating

I love to go out in late September
among the fat, overripe, icy, black blackberries
to eat blackberries for breakfast,
the stalks very prickly, a penalty
they earn for knowing the black art
of blackberry-making; and as I stand among them
lifting the stalks to my mouth, the ripest berries
fall almost unbidden to my tongue,
as words sometimes do, certain peculiar words
like strengths or squinched,
many-lettered, one-syllabled lumps,
which I squeeze, squinch open, and splurge well
in the silent, startled, icy, black language
of blackberry — eating in late September.

The bear


The Fundamental Project of Technology

Under glass: glass dishes which changed

in color; pieces of transformed beer bottles;

a household iron; bundles of wire become solid

lumps of iron; a pair of pliers; a ring of skull-

bone fused to the inside of a helmet; a pair of eyeglasses

taken off the eyes of an eyewitness, without glass,

which vanished, when a white flash sparkled.

An old man, possible a soldier back then,

now reduced down to one who soon will die,

sucks at the cigaret dangling from his lip, peers

at the uniform, scorched, of some tiniest schoolboy,

sighs out bluish mists of his own ashes over

a pressed tin lunch box well crushed back then when

the word future first learned, in a white flash, to jerk tears.

On the bridge outside, in navy black, a group

of schoolchildren line up, hold it, grin at a flash-pop,

swoop in a flock across grass, see a stranger, cry,

hello! hello! hello! and soon, goodbye! goodbye! goodbye!

having pecked up the greetings that fell half unspoken

and the going-sayings that those who went the morning

it happened a white flash sparkled did not get to say.

If all a city’s faces where to shrink back all at once

from their skulls, would a new sound come into existence,

audible above moans eaves extract from wind that smoothes

the grass on graves; or raspings heart’s-blood greases still;

or wails infants trill born already skillful at the grandpa’s rattle;

or intra-screams bitter-knowledge’s speechlessness

memorized, at that white flash, inside closed-forever mouths?

To de-animalize human mentality, to purge it of obsolete

evolutionary characteristics, in particular of death,

which foreknowledge terrorizes the contents of skulls with,

is the fundamental project of technology; however,

pseudologica fantastica’s mechanisms require:

if you would establish deathlessness you must eliminate

those who die; a task attempted, when a white flash sparkled.

Unlike the trees of home, which continually evaporate

along the skyline, the trees here have been enticed down

toward world-eternity. No one knows which gods they enshrine.

Does it matter? Awareness of ignorance is as devout

as knowledge of knowledge. Or more so. Even though not knowing,

sometimes we weep, from surplus of gratitude, even though knowing,

twice already on earth sparkled a flash, a white flash.

The children go away.  By nature they do. And by memory—

in scorched uniforms, holding tiny crushed lunch tins.

All the pleasure-groans of each night call them to return, satori

their ghostliness back into the ashes, in the momentary shrines,

the thankfulness of arms, from which they will go

again and again, until the day flashes and no one lives

to look back and say, a flash, a white flash sparkled.


5 comentários sobre “Galway Kinnell, poeta americano, 1927-presente, por Demétrio Toledo

  1. Dá-lhe, Dema! Amei a poesia transuda do fera. Ficou ainda mais legal namorar pelado e ler/ouvir uns poemas com a descoberta do fera. Ra!

  2. Demétrio, gostaria de saber se tem coisas do Galway traduzidos para o português. abs

  3. Oi Rogério,
    Que eu saiba, no Brasil não tem, mas talvez haja uma tradução portuguesa.
    Abs,
    D.

  4. Possivelmente há , Demétrio. Havia uma coleção de livros editados em Portugal de poetas de lingua inglesa do século XX. Um amigo , o Rafael Vogt tinha vários deles( Dylan Thomas, ee cummings etc.)Estes livros eram vendidos na extinta livraria Belas Artes lá na paulista quase com a Consolação. Infelizmente não comprei nenhum título daquela série que aliás era muito bem editada. Imagino que certamente esta editora tenha publicado o Galway. Vou ver se contato o Rafael que está nestudando nos EUA no momento e descobrir o nome da editora.

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