Marina e o Brasil, por Juca Ferreira

O Guaciara já teve sua fase de transmissora de vídeos do YouTube, de obituário e, atualmente, vive uma fase epistolar. Acho que é a necessidade de se comunicar diretamente com o eleitor. Hoje, eu publico aqui um texto do ministro da Cultura, Juca Ferreira, um dos fundadores do PV, que reforça a proximidade do projeto ambiental do PT e do PV. O texto foi publicado na Folha de S. Paulo. Vale muito a pena ler e repassar para os amigos.

Marina e o Brasil

 

 

Os 20 milhões de votos conquistados pela senadora Marina deram à sua candidatura uma aura de vitória, apesar de ela ter ficado fora do segundo turno.

Marina se apresentou como uma terceira via numa disputa eleitoral polarizada entre duas candidaturas, e, se não conseguiu evitar o plebiscito, como queria, os votos na candidata verde empurraram a decisão para o segundo turno.

A soma desses votos foi maior do que a diferença entre os dois candidatos que continuarão na disputa.

Para além da aritmética e da existência de outras motivações mais circunstanciais para o voto em Marina, o resultado trouxe para o primeiro plano a questão ambiental.

As mudanças necessárias em nosso projeto de desenvolvimento não serão fáceis. A velocidade da incorporação de padrões ambientais ainda é muito mais lenta do que a velocidade da destruição. A sociedade brasileira, historicamente, todos sabem, é ambiental e socialmente predatória.

Desde quando éramos colônia portuguesa até os dias atuais, nós nos comportamos de maneira perdulária, sem medir as consequências das nossas ações. Por outro lado, somos a maior potência ambiental do planeta e com a maior biodiversidade.

A questão ambiental é global, interessa ao mundo e fará parte da afirmação do Brasil na comunidade internacional. O conceito de desenvolvimento sustentável surgiu após a primeira reunião organizada pela ONU sobre a crise ambiental, em Estocolmo, em 1972.

O encontro terminou em um impasse entre o desenvolvimento e a preservação do meio ambiente, ao propor crescimento zero.

Só anos depois, em 1987, a ONU apresentou alternativas para o impasse. O relatório “Nosso futuro comum”, que ficou conhecido como Relatório Brundtland, propõe o conceito de desenvolvimento sustentável como estratégia e produto da ação consciente de nossa relação com a natureza, eliminando e minorando os impactos sobre ela por meio do uso responsável dos recursos naturais.

O social e o ambiental se confundem no cenário dramático das sociedades contemporâneas, especialmente nas nossas, do hemisfério Sul. Um país socialmente enfermo jamais será ambientalmente saudável. O tema da sustentabilidade não pode evoluir sem se associar a outros temas igualmente importantes da vida social e política.

É evidente a dificuldade que temos de influenciar a visão de mundo, a sensibilidade e o comportamento da maioria dos brasileiros para que incorporem padrões de sustentabilidade.

O país vive um momento mágico, em que a maioria da população está sendo incluída. Não cabe, por nenhum motivo, desprezar a legitimidade dos sonhos e desejos dos milhões de brasileiros que querem ter uma vida melhor.

A grande força que o presidente Lula e o seu governo conquistaram, em larga medida, resulta dessa incorporação de milhões de pessoas ao processo de desenvolvimento econômico e social do país.

Antes do governo Lula, o desenvolvimento era visto apenas como circulação de mercadorias, aumento da capacidade produtiva e estabilização da moeda.

O Brasil enfrentará grandes desafios para garantir a continuidade do processo político e a consolidação das conquistas sociais do governo Lula. Marina poderá vir a cumprir um papel importante, se fizer do seu capital político uma contribuição para esse processo.

Uma concertação em torno de questões programáticas com a candidatura Dilma, que representa a continuidade do projeto político de desenvolvimento com inclusão de todos os brasileiros, será extremamente positiva e coerente com toda a história de vida e trajetória política de Marina Silva. Ignorar essa possibilidade será desperdiçar este momento especial.

Juca Ferreira é sociólogo, fundador do Partido Verde, atualmente licenciado, é ministro da Cultura

Um comentário sobre “Marina e o Brasil, por Juca Ferreira

  1. Acho que há diversos pontos da “agenda ambiental” que devem ser discutidos e levados em consideração nas políticas públicas. O Governo Lula não foi bem na maioria deles, mas foi bem na minoração da desigualdade, o que para muitos é ponto importante, senão o principal, para o tal “desenvolvimento sustentável”.
    Um dos problemas dos debates da “agenda ambiental” hoje, em minha opinião, é sua vinculação direta e irrestrita a uma agenda ambiental global – eminentemente de mudanças climáticas -, onde as dicotomias norte/sul, desenvolvidos/em desenvolvimento, pobres/ricos, ficam muito amenizadam pela idéia de que “estamos todos no mesmo barco”. Sim, o barco está naufragando, mas alguns estão presos no porão e outros sentados nos botes salva-vidas. E isso faz toda a diferença!
    Esse “pequeno” detalhe fez com que eu pudesse, sem muita dor na consciência, dar um voto útil no primeiro turno.
    Por outro lado é preciso ter atenção sobre o discurso do desenvolvimento e do progresso, sempre sobre o mesmo trilho. O desenvolvimento não deve ser monofacetado. Há de se questionar a necessidade de todos os bens de consumo que estão sendo ofertados e universalizados no BR hoje e aqueles outros bens, com valores de uso mais importantes – como a educação e a saúde -, cujo crescimento de oferta não está se dando na mesma velocidade que televisões, carros e outros desejos, de certa forma “impostos”.
    Meu sonho ingênuo no começo do debate eleitoral era de que a Marina tivesse conseguido operar essa transformação – coisa que certamente ela desejaria – no PV. Não rolou, não rolará, penso!
    A situação agora, do ponto de vista do passado “ambientalista” dos candidatos, não é boa. Para dar exemplos, Serra se vincula demais aos usineiros de cana e aos empresários, Dilma atropelou o MMA em Belo Monte e os licenciamentos foram vistos como empecilho aos projetos sociais.
    Ainda bem que nem todo o futuro pode ser explicado pelo passado, espero que a Dilma ganhe e que eu mude minha visão sobre a sua relação com a “questão ambiental”, ou melhor, que ela faça por merecer essa mudança.

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