Se não me falha a memória…, por Eliane Marta Teixeira Lopes

Uma das maiores alegrias para nós do blog do Guaci é aprender com os comentários e mobilizar os amigos. O Rodrigo e a Emmanuelle são duas dessas pessoas com quem a gente aprende muito. Por isso que hoje eu fiquei muito feliz quando a Manu me enviou o ótimo texto da Eliane Marta Teixeira Lopes que aponta uma história das eleições e uma das muitas  razões fundamentais para se votar na Dilma – o compromisso com a educação superior e a pesquisa. Eliane é professora emérita da UFMG e doutora em Educação, mãe do Rodrigo e sogra da Manu. A chance de publicar  um material como esse já me deixa muito feliz em ter um blog. Aproveitem:


Se não me falha a memória…

Compreender o que é possível e
Compreender que é possível

 

 

Meu titulo de eleitor – não precisávamos de outro documento, tinha nosso retrato – é  datado:  28 de dezembro de 1964. Em minha casa a política (local e nacional, o PSD e a UDN…) era assunto discutido entre todos: meus pais acompanhavam pelo rádio as terríveis vociferações de Carlos Lacerda; choramos a morte de Getúlio ao lado dos gritos de júbilo do vizinho; ainda criança, participei de comícios do Juscelino e do Lott, o que me preparou para vários outros comícios.

Aprendi que em um país com um passado com tanto autoritarismo, tanto clientelismo, tanto nepotismo – em vários tons – tanto racismo, tanta discriminação (contra mulheres separadas, negros, índios e homossexuais) conquista-se lentamente plenos direitos.

Restabelecido o voto para Presidente da República, a primeira eleição com o voto direto (1989) teve, acho, vinte candidatos, e já havia dois turnos. Para evitar aquele resultado teríamos de ter mais maturidade e trabalhar mais com acordos… mas nem é justo pedir isso de nós naquele momento. Depois do impeachment, assumiu seu vice-presidente, lembram quem era? O processo de implantação da democracia seguiu seu curso lentamente e houve melhoras.

Em 1994, havia menos candidatos e mais esperança – o mandato durou oito anos previstos e a esperança teve de esperar dias melhores…

Não vou falar de outros setores da vida pública e sei que houve melhoras em alguns; vou falar do que vi e vivi.

Foram anos em que a Universidade Pública passou por maus momentos… Ameaças constantes de mudanças nos planos de previdência levaram à aposentadoria precoce muitos doutores em plena atividade e começando a dar o retorno de seus estudos e pesquisas para o país; oito anos com salários arrochados, obrigando professores a buscar outras atividades com recursos complementares; oito anos sem expansão de vagas nas universidades públicas; oito anos com a universidade trabalhando com um grande efetivo de professores contratados temporariamente; oito anos sem criação de novas universidades; oito anos sem uma efetiva política de fomento à pesquisa e à pós graduação; oito anos de deslavado estímulo à proliferação de cursos e faculdades e universidades privadas de qualquer ou sem qualquer qualidade.

Em 2002, conseguiu-se eleger Lula.

Aos poucos, começamos a compreender o que era possível e que era possível: ganharmos melhor, condição indispensável para ter sossego e produzir bons trabalhos; ter políticas de aprimoramento do corpo docente em cursos de pós graduação; ter alunos de diversas origens em nossas salas de aula e aceitarmos o desafio que é trabalhar com brasileiros e brasileiras criaturas de nossa própria história e nos responsabilizarmos por eles e por elas. Começamos a dar mais significação à palavra história e ter mais respeito por ela – sempre sabendo que não é feita apenas dos nossos sonhos. Dos sonhos de todos.

Extraio do Manifesto de alguns Reitores de universidades públicas um pequeno balanço:

Este período do Governo Lula ficará registrado na história como aquele em que mais se investiu em educação pública: foram criadas e consolidadas 14 novas universidades federais; institui-se a Universidade Aberta do Brasil; foram construídos mais de 100 campos universitários pelo interior do País; e ocorreu a criação e a ampliação, sem precedentes históricos, de Escolas Técnicas e Institutos Federais. Através do PROUNI, possibilitou-se o acesso ao ensino superior a mais de 700.000 jovens. Com a implantação do REUNI, estamos recuperando nossas Universidades Federais, de norte a sul e de leste a oeste. No geral, estamos dobrando de tamanho nossas Instituições e criando milhares de novos cursos, com investimentos crescentes em infraestrutura e contratação, por concurso público, de profissionais qualificados.”

Por isso tudo, acompanho com muita apreensão esse próximo segundo turno. Pela primeira vez, percebo que pode não haver nem mesmo aquela pequena, mas respeitável melhora.

Temo um retrocesso, muito bem embasada em nossa história: o passado nem tão distante e um futuro que testemunhamos ser possível construir, mas que é possível destruir.

O dia da eleição é um maravilhoso dia de festa, mas nosso voto não pode ser festivo; temos responsabilidade histórica por todos aqueles e aquelas que confiam em cada um de nós para que suas vidas sejam todo dia, um pouco, melhor.

Muito juízo!

Eliane Marta Teixeira Lopes
Doutora em Educação
Professora Emérita da Universidade Federal de Minas Gerais
Belo Horizonte, 8 de outubro de 2010.

13 comentários sobre “Se não me falha a memória…, por Eliane Marta Teixeira Lopes

  1. E Paulo Renato, o algoz das universidades federais, continuou a barbarizar no Estado de São Paulo com o Serra! Adivinhem quem será o ministro da educação se Serra ganhar?

  2. Lauro, estou muito feliz com a publicação e com a existência do excelente Blog do Guaciara.
    Obrigada por seu comentário, pela sua amizade e por compartilhar o mundo.
    Aprendo muito com você e com Tiago, sempre.
    Estamos juntos.
    Beijos, Manu

  3. Sem sombra de dúvida um dos maiores orgulhos que vivo hoje: depois de camelar por quase 10 anos em faculdades particulares, é emocionante encontrar meus colegas pelos corredores da UnB e constatarmos: viramos professor de uma universidade federal!
    E mais do que isso: participar de um projeto não só de expansão geográfica das universidades, mas de renovação e ampliação do papel e do alcance das mesmas.

  4. E, não bastasse tudo isso para nós da Universidade, me toca a questão do povo brasileiro; Lula, quando assumiu, em seu pronunciamento de posse afirmou que quando terminasse seu governo, todos haveriam de fazer três refeições diárias.
    E eu, desde então, durmo um pouco mais tranquila – sabendo que os meus irmãos, pelo menos, se alimentam. O que, diga-se de passagem, era ridicularizado pelos partidários do outro partido.

  5. Eliana, querida! Quanta lucidez. Estamos todos muito apreensivos e perante uma grave encruzilhada: ou continuamos a construir o futuro, sem idealismos mas com vontade ou voltaremos a idade das trevas. Isso nas Universidades é muito claro. E angustiante.
    Apreendemos sim “o que é possível e que é possível”. Será muito triste ter que reaprender simplesmente a sobreviver.

  6. Parabéns! Eliane. Seguimos em frente, desesperar jamais. Abçs elisa

  7. gostaria muito saber se a miriam chrystus que aparece é a mesma que morava em curitiba há 50 anos atráz filha de dona Leoni ficarei muito feliz em saber que depois de tantos anos vou encontrar a minha amiga de infancia

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