Davi Bernardo no Centro Cultural São Paulo, sexta-feira, dia 08 de outubro, às 19h.

Em Pouso Alegre a vida pedia  murro diários em ponta de faca. Isso foi bom. Calejou e fez com que sempre esperassemos mais. Tá pra existir cidade com gente mais legal, que se esforça pra tornar as coisas mais interessantes a duras penas. Muito do que aprendi, aprendi com esses cabras que lá vivem e querem mudar a cidade a partir de parâmetros rigorosos. Sem pedir dinheiro pro governo, sem querer enriquecer com isso, sem buscar cargos públicos, sem fazer média provinciana sob os auspícios de “representar os artistas locais”. É trabalhar para que aconteçam coisas capazes de  modificar a vida de alguém.

Isso faz muito tempo, pelo menos, desde a época do grupo Imbuia. Já lá, um monte de gente legal já se reunia pra tocar, compor, festejar e comunicar as experiências da vida na cidade para quem quisesse ouvir. Contar tudo isso em uma forma diferente, que desse conta dos anseios do pessoal da cidade.

De lá, muita água passou debaixo da ponte. É o Rogério Barbosa insistindo em produzir um repertório visual local em uma linguagem mais ousada, o pessoal do anarco-punk-hardcore tocando o puteiro e os meninos do hip hop sempre levando as questões do gênero adiante.

Existiu uma época em que eu participei desse agito ativamente. Adolescente,  junto com muitos comparsas, misturava arte de vanguarda, política radical e a tentativa de não ficar prostrado em um mundinho sem graça das festas de escola particular. Era outra vida, outro pique. Se a pequena burguesia insistia em insossos petit comitês, a tigrada queria partir para o ataque.

Eu era o mais burguês da turma. Mas se precisasse pegaria o fuzil e ocuparia a primeira fila. Era bucha de canhão, pau pra toda obra e todos os outros chavões possíveis. Fazíamos shows, fanzines, alugávamos ônibus pra circular em outras cidades, panfletagem, cadeia, soltura, o diabo a quatro.

Sempre houve o pessoal que criava. Bandas como Os Neusa, Puro Lixo, Xincons Bronx, S.R.D., Super Hero, Space Invaders e outras que deram um ou nenhum show. O Adriano tinha a loja e se interessava por hq, ilustração e vídeo. O Rogério pintava e discutia coisas da cultura que eram mais distantes de nós, e aprendíamos paca. E todo mundo militava de maneiras mais sóbrias ou mais amalucadas.

Depois que sai da cidade, meu vínculo com essa agitação foi se fragilizando. Não sabia mais o que era feito e nem quem organizava as coisas. Os meus amigos que moravam lá, continuavam a tocar e tentavam inventar acontecimentos. Depois que a banda do meu irmão, Space Invaders, acabou, perdi completamente o contato. Por um tempo, pensei que não rolasse mais nada. O que me parecia péssimo. Era muita ideia boa para ficar parada.

Felizmente, estava enganado. O Arthur voltou a morar lá e notou que muita coisa acontecia: O Zé Rolê trabalhava a toda em suas músicas, o Davi saíra do armário e resolveu mostrar as suas músicas (aliás, fez uma apresentação de improvisação com o João Paulo Nascimento memorável), os irmãos Bernardo faziam o Pumu. Tudo acontecia depressa.

Lembro o entusiasmo por ter conseguido realizar no conservatório da cidade a apresentação de um dos maiores improvisadores do mundo: Phil Minton. Abandonei a arrogância e saquei que o pessoal fazia algo muito mais legal que eu e os da minha época E foi demais mesmo. A cidade ficou mais viva, mais democrática, sem abandonar o aspecto anticlassista que essas iniciativas sempre tiveram.

Não moro mais lá, mas vejo que aquele ponto de vista de se fazer apenas o que o público espera parece ter menos força hoje. As bandas cover de boteco ainda são hegemônicas, mas cada vez menos. O que torna a cidade mais democrática. Ainda existe um provincianismo a ser vencido. A militância em nome dos “artistas locais”, a ausência de critérios para julgar o que é joio e o que é trigo. Mas muito já avançou.

Um lugar onde as pessoas podem ter opiniões diversas sobre a vida local, criam alternativas, pensamentos distintos. Inclusive as coisas deram uma institucionalizada. A moçada do Clube do Tchu está organizando eventos muito legais. Já foram shows do Davi Bernardo, do Pumu, Psilosamples, Mundo Tigre, Marcos Gerez e Cléber Dantas (Já é Responsa Pirituba? ). Fora a organização de um acervo de música e cinema, a promoção de sessões de filme e de escuta de música. É Maravilhoso. Até o Imbuia voltou!

O disco do Davi simboliza todo esse otimismo. É música popular feita sem esnobismo, mas com harmonias malucas, melodias ambiciosas e com uma cabeça de rock que passa longe daquele indierockismo bunda mole que tomou de assalto a nova mpb. Mais pra Beefheart e Van Dyke Parks do que pra Radiohead e outras bobagens. Aliás, só um parêntese, estou crente que o esnobismo tão comum nas redes sociais e a música metida a chique da maioria desses novos conjuntos de rock possuem ligação direta.

O rock do Davi é mais desobediente, sem bom-gostismo, nem caretice. Mas, olha, as músicas são bonitas pra danar. Não tenho muito mais o que falar, escutem, divirtam-se . Nos encontramos amanhã (para quem lê na quinta), escutamos a música e depois continuamos o papo no Centro Cultural São Paulo a partir das 19 horas.

Mais vídeos depois

PS: Sexta-feira ainda tem hífen?

PS2: Genialidade é pra poucos

14 comentários sobre “Davi Bernardo no Centro Cultural São Paulo, sexta-feira, dia 08 de outubro, às 19h.

  1. Poxa que legal!
    Conto com a rapeize lá no CCSP amanhã

    Coloquei alguns vídeos no youtube, do show de lançamento aqui em piei

    abração

  2. obrigado thiago… pelas lembranças e por ser lembrado… meu coração gordo e cansado ficou lisonjeado

    ps.: a rima foi intencional

  3. Tudo lindo! Muito sucesso no show! Muito sucesso, Led!

    Mas tenho que registrar que eu AMO a perseguição do Tiago ao Radiohead. E link pro U2 é TUDO a ver! Kkkkk

    Abraços!

  4. Eu já abracei a perseguição do Tiago ao Radiohead faz anos e divulgo a similaridade com o U2 com ardor, kkk

    Acho que é isso mesmo. A galera lá tá toda prosa. Vai rolar o Eternals por lá e t6o armando com o Pedro de dar um agilizo no processo de cineclube. E esse lance que o Tiago falou é demais: o caráter anticlassista. Eu juro que minha percepção de classe que eu tinha lá do ABC foi pro vinagre convivendo com a tigrada toda de piei. Lá não tinha espaço pra nheco nheco de arrogância, distinção. Lá era todo mundo junto e misturado.

    Arriba los que luchan e curtem!

  5. Grandes lembranças, Tiago. Pois é, eu ia pra São Paulo, estudava e via muitas exposições. Conversávamos sobre minha experiência por lá vocês demonstravam sempre um grande e verdadeiro interesse. Em contrapartida é importante lembrar também o quanto eu e muitos outros que apareciam lá na sua casa, aprendíamos e ampliavámos
    nossos conhecimentos sobre o que de mais arrojado e criativo era produzido em música. Pois foi só lá que tive a oportunidade e o prazer de conhecer coisas como Cassiber, Fred Frith, Sun City Girls, Tortoise, Art Bears, John Zorn e muitos outros…Grande abraço

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