Os grandes feitos e seus feitores, por Rafael Campos Rocha

Tatiana Trouvé - 350 Points Towards Infinity, 2010

Não concordo com Antero Greco, que culpou uma possível timidez, devido à repressão da mídia e do estabilishement pela fraca atuação de Neymar contra o Corinthians no último clássico na Vila Belmiro. Também é um comentário que ignora o time adversário, um sério postulante ao título e que ganhou, no ano passado, os mesmos campeonatos que o Santos esse ano, só que contra adversários mais fortes e competitivos nas finais. Acho que, mais uma vez, Tostão está certo: Neymar é bom, mas está se tornando exibicionista, realizando jogadas descartáveis, de efeito televisivo ou de marketing. Quando joga sério, gingando em velocidade na frente do adversário para tentar o arremate (o atacante dificilmente termina um drible), ou dando passos diagonais simples para colegas que entram na área em velocidade, de frente para o gol, o santista é muito melhor. Provou isso no último sábado contra o Cruzeiro. Tenho pra mim que a situação em torno de Neymar – que não tem nada a ver com sua própria atitude em campo – foi criada pelas mesmas pessoas que empobreceram os debates políticos na TV: os marqueteiros e seus lugares comuns com ares de sabedoria, seu reacionarismo ideológico com ares de pragmatismo, e sua realpolitik com ares de…realpolitik!

Como eu disse, isso não tem nada a ver com o futebol do jogador em campo, apelidado de moleque e irreverente, mas que, nos melhores dias, não é. É um futebol fino, apesar de rarefeito. E inteligente, apesar de não ser genial. Um Careca (do Guarani, São Paulo e Napoli) com mais swing (apesar de menos estratégico que o de seu antecessor).

Em muitos pontos lembra mesmo o futebol de Robinho, com alguns das suas mesmas deficiências, mas com mais qualidades, entre elas o arremate surpreendente.

Voltando ao Marketing e seu império inexistente, mas que sobrevive como tabu, algo na Bienal de São Paulo parece sofrer do mesmo mal, ainda que em menor escala do que no futebol, graças ao seu metier, que ainda (ainda) sustenta pruridos mais libertários do que liberais, apesar de todos os esforços contrários de seus intermediários vinculados ao Capital. Mesmo assim, e com todas as iniciativas do filisteísmo camp de desmoralizá-la, a bienal sobrevive por meio de seus artistas, como a excelente Tatiana Trouvé, com sua brilhante inversão do tromp l’oeil tanto arquitetônico quanto escultórico. Seu exemplo mais famoso é a chuva de prumos fora do prumo, mas creio que as cadeiras submersas na piscina de cimento, assim como a elevação do piso adornada por vergalhões estruturais são também de sua autoria. Tudo nessa artista carrega a marca de uma qualidade paradoxal. Seus desenhos de instalações são auto-suficientes, ou seja, são obras eles mesmos, dispensando a realização da obra tridimensional, dos feitos. Afinal, não é pela falta de feitos espetaculares que se ressente a arte contemporânea.

Inversões como o projeto que é obra mostra mais uma vez sua afeição pela subversão dos binários estrutura/ornamento ou mesmo utilitário/contemplação. Suas esculturas afirmam-se pela horizontalidade, assim como suas instalações afirmam-se pela imagem fechada dentro de um esquadro de visualidade imediata. Evidentemente, seu trabalho não é dos mais comentados na Bienal, devido aos escândalos auto-impostos pela mesma e de seus artistas mais sedentos de grandes realizações. Ou feitos, como comentei logo acima (exceção para a chacina virtual de Gil Vicente, mais uma dor no peito do que um dó de peito, acredito eu, o que não redime, para mim, a obra em si mesma ).

Falando nisso, não consigo entender por que ficaria tão mal em uma instalação a frase “libertem os urubu”, brilhante em seu contexto, ou a bela inscrição “invasor” em uma obra colocada justamente do lado de fora do evento, por um artista que busca o sentido de sua obra na rua e em todo o seu ruído. Também não entendo a surpresa com um rapaz que – como tantos revolucionários do passado – coloca seus peões para estampar seu próprio nome na História como autores de grandes feitos, ainda que realizados pela mão e sofrimento de outrem.

3 comentários sobre “Os grandes feitos e seus feitores, por Rafael Campos Rocha

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