Empurrando (de novo?!) a agenda neoliberal

Nem só de escândalos vive a oposição. Vez ou outra, aquele outro negócio lá que também é importante em campanhas eleitorais, e na vida política em geral – a saber, projeto de governo, projeto de país etc. – é timidamente discutido pelos jornais abertamente, ou quase, identificados com a candidatura de oposição. O problema é o incômodo cheiro de naftalina que suas ideias exalam.

Há pouco mais de dez dias, o jornal O Estado de São Paulo publicou um editorial explicando a perda que significou para o país o nosso “não, obrigado” para a proposta de um mercado livre das Américas (ALCA). O editorial estimava o crescimento que as exportações do Brasil aos EUA poderiam ter tido com base no crescimento das exportações chinesas para o mesmo país nos últimos dez anos, aproximadamente. Ainda que seja verdade que o Brasil não diversificou sua pauta de exportação, o crescimento no período foi grande; só não foi igual ao da China porque, bem, a China é – a China. Só alguém que dormiu em 1949 e acordou em 2010 esperaria que o crescimento de qualquer outro país, em qualquer critério, equivalesse nessa última década ao da China.

De mais a mais, ninguém em sã consciência diria que o efeito do acordo poderia ter trazido resultados diferentes. É tradição esses acordos serem desenhados para favorecer as economias mais fortes segundo o conto-do-vigário das “vantagens comparativas”: você faz soja muito bem, nós a compramos; nós fazemos microcomputadores muito bem, vocês os compram. O resultado é óbvio: estagnação da economia em termos de diversificação, inovação e sofisticação. Quem acompanha essas coisas, mesmo de longe, sabe que esses são termos que voltaram a circular e muito na economia brasileira, depois de anos de ausência quase completa de políticas de desenvolvimento. Perguntem aos mexicanos o que eles acham do NAFTA (adianto, para os desavisados, que a resposta será provavelmente recheada de palavrões e perdigotos de ódio).

A Folha de São Paulo denunciou hoje o esvaziamento das agências reguladoras, criadas principalmente pelo governo FHC. É louvável que haja a intenção de defender o governo FHC durante a campanha: é isso o que todos, tirando os fãs de dossiês e escândalos, estávamos esperando ansiosamente. Mas é um tiro que sai pela culatra: o modelo das agências setoriais reguladoras foi duramente criticado por especialistas ligados ao governo Lula, e por boas razões. Esvaziar essas agências é mais do que simplesmente desmontar um governo, é remontar o Estado brasileiro, que tem recuperado sua capacidade de ação e formulação, fomentação e implementação de políticas para os diversos setores antes largados à boa vontade da iniciativa privada. Alguém imagina a Anatel com capacidade de forçar a expansão da banda larga no Brasil? Com quais instrumentos, se ela é apenas reguladora?

Por último, e sem o proselitismo dos outros dois exemplos, Alberto Carlos Almeida (que desde 2009 vem cantando a bola de que Serra perderia no primeiro turno) sugere, no suplemento de fim de semana do Valor Econômico, alguns temas que Serra poderia usar em sua campanha que resgatam conquistas do governo FHC. Almeida relembra o aumento no consumo durante o governo FHC, e dá exemplos cruciais: entre 1994 e 2000, o brasileiro passou a consumir mais frango, salsicha e refrigerante. É evidente que exemplos como esses são ilustrativos, e podem indicar realmente mudanças no poder aquisitivo da população (Almeida também cita o aumento no consumo de energia elétrica, um indicador mais consistente – mas um aumento que foi, como sabemos, levado a seu limite pela falta de investimento público). Mas o exemplo fica liliputiano, por assim dizer, se comparado às conquistas do governo Lula: crescimento do emprego, aumento do salário mínimo, expansão do crédito, acesso ao ensino  superior.

(Salsicha e refrigerante?! Que tal emprego, moradia, poder de compra, universidade? Me lembra aquele quadro do programa do Silvio Santos em que o sujeito, de dentro de uma cabine com isolamento acústico, precisava decidir se aceitava ou não as trocas que o apresentador lhe propunha: “o senhor quer trocar um curso superior para os seus filhos por um pacote de salsicha?” “Siiiiiiiiim”, responde o cara lá de dentro, sem saber o que lhe espera.)

Política neoliberal: importar (porque produzir não é uma boa) salsicha para todos

Os três exemplos são, obviamente, inspirados numa agenda neoliberal: livre comércio (em acordos necessariamente desiguais, porque envolvendo economias desiguais), o encolhimento da capacidade de ação do Estado (lembrem-se da pérola do Malan, “a melhor política industrial é não ter política industrial”) e uma concepção remediadora da pobreza (dentadura, frango e iogurte) e despreocupada com a promoção real da ascensão social. É a agenda que estão querendo empurrar; mesmo porque, caduca, ela já não anda mais com as próprias pernas. Ainda bem.

17 comentários sobre “Empurrando (de novo?!) a agenda neoliberal

  1. Pô, consumir mais frango, salsicha e refrigerante não representa substituição de produtos por redução do poder de compra?

    (Frango e salsicha são as fontes de proteína mais baratas que existem. E o consumo de refrigerante não pode ser redução da capacidade de se comprar frutas, por exemplo?)

  2. Cheguei aqui por tweet do @laurose. Deus do céu, o Estadão teve o desplante de comparar o que o Brasil perdeu por não ter entrado na Alca com o que a China ganhou? Acaso a China é membro do Nafta (aquilo que deveria ser o precursor da Alca)? Não teria sido mais honesto comparar com o que houve, por exemplo, com a economia mexicana?

  3. É curioso como essa pauta de escândalos tirou as propostas do Serra da reta. O começo da eleição foi todo marcado pelas opções brasileiras nas relações internacionais e o discurso oposicionista foi frontalmente marcado por uma postura anti-Mercosul, anti-Bolívia, Equador e Venezuela – justo em um momento em que até o Juan Manuel Santos exalta a colaboração de Rafael Correa no trato com as Farc.

    Acho que esse excesso de ideologia, à reboque do que a imprensa tenta vender, e uma falta de clareza sobre qual deve ser a pauta de exportações no Brasil (quais escolhas devem ser tomadas) faz com que a tucanada parta para desqualificações e coisas do gênero. As propostas são muito ruins.

  4. Lauro,

    Sim, é isso que é o pior, Serra propôs isso justamente em um momento no qual até mesmo a direitaça sul-americana – seja a que se manteve na Colômbia ou a que recuperou o poder no Chile – aceitou que a integração continental sul-americana – e até latino-americana – é uma realidade a ser aprofundada – ainda que se discuta o modelo, mas o debate não é mais, de forma alguma, “integrar ou não integrar”. Serra perdeu mesmo o bonde da história.

  5. Lula resumiu isso bem em um discurso em Betim: “Tem candidato que vai ao debate que eu pensava que era moderno, e o cidadão tem cara de ontem e pensa como o cara de anteontem.”

  6. Aos orfãos da Alca eu simplesmente sugeriria que conferissem os números da economia do México, totalmente atrelada aos EUA, que encolheu 8.2% depois da crise financeira.

  7. Oi JJ,

    Eu tinha lido o editorial do Estadão e tem uma puta relação com o último tema de geografia, sobre os efeitos da formação de blocos econômicos. Economias desiguais sofrem os efeitos da eliminação de fronteiras econômicas, o capital perde nacionalidade e passa a se locomover com maior fluidez, toda aquela conversa do neoliberalismo. É uma mentalidade tacanha mesmo, e o Serra é osso.

    Você tem visto os debates? o esvaziamento da discussão política e o horário político tá me deixando com náusea; eu não faço a menor idéia de quem votar, tô fu.

    Gostei do teu texto, aliás.

  8. Mudando um pouco o assunto. E o caos do metrô hj. Será que o paulista vai começar a enxergar o óbvio? que o governo do PSDB é uma porcaria, que está há quase duas décadas no poder e nada fez para modificar o transporte na capital? que falar dos outros é fácil, mas enxergar as próprias limitações é salutar e um pouco mais complicado? Espero que a campanha do Mercadante seja esperta e mostre aos paulistas e paulistanos que eles estão ficando para trás com esse governo chinfrim que os tucanos têm feito no estado.

    Manchete da Falha de amanhã: Suspeitos de parar o metrô na capital são filiados ao PT.

  9. Bernardo,
    li isso depois no blog do Paulo Henrique Amorim. O que falar disso? Lamentável, né?
    Até quando SP vai achar o PSDB a melhor solução pro estado? Até quando o PSDB vai achar que tudo que ocorre de errado é culpa do PT? Parece um sujeito que costumava escrever aqui no blog e que depois da decaída do Serra não deu mais as caras. Só leitor da Veja pra acreditar nisso mesmo.

  10. Joaquim, dá só uma revisada na gramática. Uma correção ali e outra ali, para não deixar na reta para aqueles que vão criticar tudo isso em vez de entender o contexto.

    Excelente, mais uma vez!

  11. isso eh engracado mesmo, ta num texto em destaque na uol:
    O que parecia ser apenas uma reação extemporânea e sem conexão com a realidade ficou agora mais fácil de ser entendida. A angustia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser explicada pelos números da pesquisa Datafolha que acaba de ser divulgada (e foi realizada nos dias 21 e 22.set.2010).

    Agora, Dilma Rousseff (PT) tem 49% (tinha 51% há uma semana). José Serra (PSDB) está com 28% (tinha 27%

  12. valeu, Thiago. Espero que não tenha escapado nada dessa vez. Abs.

  13. Agora, Dilma Rousseff (PT) tem 49% (tinha 51% há uma semana). José Serra (PSDB) está com 28% (tinha 27%

    Tá na cara que puxaram a margem de erro da Dilma para baixo e as margens do Serra e da Marina para cima. Depois de toda essa campanha do jornaleco, que confiança seu intituto de pesquisa pode ter?

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