resenha 2 – Gang Gang Dance

GGD no Creators Project

Isso não é bem uma resenha, mas conversa fiada. Aproveito um acontecimento notável na cidade em que vivo pra levantar umas lebres.

Como disse antes, até agora este tem sido um bom ano. Vi muita exposição boa, muita música boa, gostei da Copa e gosto dos rumos do país, mas nada me pegou como a apresentação do Gang Gang Dance na festa Creators Project, da revista Vice, no último 14 de Agosto. Como em outros grandes shows de rock que vi (como Fugazi, Melt Banana, Nudes, Einstüerzende Neubauten), me senti testemunha de que algo novo, jovem, no auge, barulhento e desobediente.

Não foi por eles terem mais importância do que os outros músicos que citei no texto anterior ou por apresentarem inovações mais inovadoras. Não se trata disso. Aliás, danem-se as inovações, as linhas evolutivas o bom gosto, o que interessa aqui é a potência a capacidade de fascinar e incomodar sem tirar o pé do acelerador. Eles me ganharam por algo muito mais imediato e profundo, me pegaram por razões sentimentais. Valores que eu carrego desde menino.

Por isso tudo, achei difícil escrever um texto sobre o show. Tudo o que eu diria pareceria pouco. Não se tratava só da apresentação, mas de compartilhar algo com gente que teve a mesma experiência que eu e que identificou naquilo uma série de valores importantes revigorados. Eu estava com amigos que compartilham disso também.

Gente que — a partir de coisas tão variadas como Tarkovski ou Crass, William Carlos Williams e Paul McCarthy, Willys de Castro e Van Doesburg — acha que a arte, em geral, e  o rock, em particular,  devem ser algo autônomo, que não responde a critérios de bom gosto, a valores da “cultura” e que não se importa pra quem é velho. A música do Gang Gang Dance na dose errada (por isso boa)  trouxe todos esses sentimentos à tona. Não é pra principiantes e nem pra quem espera do rock algo elegante e pacificado. Não consegui um texto coerente, com começo, meio e final, mas reuni algumas impressões entusiasmadas e mal costuradas que a apresentação trouxe.

Gosto muito do grupo, muito mesmo. Os escutei pela primeira vez em uma coletânea do pessoal do Excepter e nunca mais deixei de acompanhá-los. A cada disco eles melhoram, e a considerar pelas músicas inéditas que tocaram, acho que o próximo disco será ainda mais legal. O show foi ainda melhor do que eu esperava. Sempre gostei de rock, mas quando era mais novo pensava o  gênero como o Julio Bressane pensa o cinema brasileiro: ou se é radical, ou não é nada. No rock isso não é apenas uma questão formal. Muitas vezes a radicalidade está em trabalhar o formato mais básico possível, em fazer algo de mau gosto, em tocar o puteiro.

O Gang Gang Dance fez tudo isso. Começaram enquanto o DJ ainda botava e mixava as músicas. Ele não abandonava o palco. Tratava-se de um evento. Daqueles com lista na porta, quase-famosos e gente importante. Como é de se esperar, muita gente pinta por lá para curtir um ver e ser visto, para a festinha ou, como preferem, balada (palavra horrorosa quando não é usada para a música lenta, diga-se de passagem). O pessoal queria continuar dançando os mastermixes. O GGD também queria festa, mas algo mais profundo, menos mundano. Surgiram no palco armando um batuque lascado em cima das batidas que saiam dos toca-discos.

A música mecânica e o baticum continuou. Foi se transformando em algo muito primitivo, muito primário, agressivamente primário, como o Bo Didley. Eis que disso eles começaram a tocar House Jam. Aí pronto, o jogo virou. Não se tratava mais de música chique, bem feita pro pessoal dançar gostoso. Mas uma música muito rítmica, ruidosa e feita de contrapontos entre uma melodia orientalizada e um som processado que parecia alheio a tudo o que era feito.

Tenho a impressão que esses novos grupos de NY retiram muito de sua música da violência do Throbbing Gristle. Aquilo se confirmou no show, no entanto, não era algo violento, mas uma espécie de transe coletivo, de algo mais informal que um show. Não por acaso, a banda trouxe a tiracolo um sujeito com cara de filipino que cumpria a mesma função que o Bez do Happy Mondays. Dançava no palco e dava um certo pulso pro show. Só que ele dançava e balançava uma bandeira preta que nos lembrava do anarquismo, mas era feita com um saco de lixo.

Parecia anedota, mas não era só isso. É que a banda indica  uma inversão do fluxo de informações que percorre uma picada criada pelos Sun City Girls. Explico melhor, no final do século passado, a banda de Charles Gocher, Alan e Richard Bishop passou a tratar a música pop de matriz americana como uma música étnica, com a suposta universalidade da mercadoria, mas que de fato, como toda universalidade, se revelava um matiz local. Assim, começaram a olhar antropologicamente pra própria música e produzir como se o que eles fizessem fosse subalterno às composições do terceiro mundo. Já falamos sobre isso no Guaciara. Vale a pena correr atrás dos Sun City Girls.

O Gang Gang Dance atua da mesma maneira. As melodias são muito orientais e as harmonias tem algo de uma combinação suja de elementos que parecem decepados de outros raciocínios da música que não o rock. Mas eles fazem rock. Só não é o rock bem comportado dos indies e nem tão formalizado em gêneros. Parece feito em transe, mas não o transe psicodélico, mas uma espécie de imersão na confusão. Como se a arte não apontasse mais para uma direção, mas nos fizesse perder por aí. O barulho aumentou, o balanço também. O público deu uma raleada, mas quem queria festa estava lá, não no agito para as fotos. Durou menos do que eu gostaria, mas o suficiente para eu sair de lá otimista.

6 comentários sobre “resenha 2 – Gang Gang Dance

  1. “Aliás, danem-se as inovações, as linhas evolutivas o bom gosto, o que interessa aqui é a potência a capacidade de fascinar e incomodar sem tirar o pé do acelerador. Eles me ganharam por algo muito mais imediato e profundo, me pegaram por razões sentimentais. Valores que eu carrego desde menino.”

    fera, eu sonho com o dia em que você vai escrever um ensaio sobre isso.

    já me vejo pagando do próprio bolso uns cem mil exemplares impressos em papel jornal e panfletando em sinal de trânsito, porta de escola, na lanchonete do hospital de Planaltina, no CCBB, na fila dos ônibus da rodoviária do Plano, na esplanada dos Ministérios, na praça do relógio em Taguatinga, na feira do Pedregal, na bilheteria do clube do choro, na feira da torre de tv…

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