Está tudo decidido, então vamos deblaterar – por Rafael Campos Rocha

Untitled de Pere Llobera, 2010

Sou um profissional liberal fracassado. Como tal, contento-me em dar aulas e falar de futebol. E me queixar dos profissionais liberais mais talentosos que eu que brilham onde eu deveria brilhar, se a Mãe Natureza tivesse me dotado de engenho e arte. Enfim, voltando ao futebol de verdade – não o praticado para 1 zilhão de expectadores dos milhares de canais ultra hi-fi-definicion onde vc pode contar os pentelhos do Cristiano Ronaldo (os que escaparam da tosa semanal ) que escapam (por sua vez) pelas estrias de sua high-absorvection-ceroula – mas aquele futebol empedernido do volante do Vitória (que nunca ganha) contra o paredão de fama do Fenômeno (que nunca joga). Mas a vida é assim e a tendência é piorar, como diz um grande amigo pintor “lá de cima” que caminha para o sucesso de sua obra e riqueza material assim que se convencer que a ética é a pecha dos injustos nos justos e dos castradores nos castrados. Falando em pintura, é interessante como a pintura brasileira também tem trilhado o caminho da justeza, mesmo em nossos periódicos impressos (tudo bem, é o jornal do qual sou cartunista. Aquele, que acerta o resultado da eleição sozinho). Várias amostras de “arte” têm me surpreendido pela sua seriedade, ainda mais quando usando o meio da pintura. Imagina se algum deles tivesse o talento de um Pere Llobera e o jornal a seriedade desses pintores para cobrir as eleições? Hein?hein?

Bom, a idéia era fazer um paralelo entre o futebol cumpridor da última copa e a “nova pintura brasileira” ou mesmo sua velha arte. Não faz mal, continuamos com o futebol.

Em primeiro lugar é mesmo uma pena que o MEU Elias, do meu Corinthians, tenha nascido na época do excepcional Hernanes, do amaldiçoado São Paulo Futebol Clube. Elias é um jogador incrível, que lembra, pelas atribuições, o Petit que demoliu a seleção brasileira na copa em que Zidane foi responsável (como das outras vezes) pela parte da humilhação. Lembram? Eu lembro bem. Pois bem, no meu entender, Elias é o responsável direto pelo tom em que o Corinthians joga desde 2008, quando saiu das garras da série YWZ para a glamorosa série B, onde o supracitado Cristiano Ronaldo teria que procurar as rótulas no vestiário, na primeira sambadinha cintura-dura que desse. Em pintura, o tom é aquela nota de cor em que toda a superfície se desenvolve, do preto até o branco. O negócio tonal em pintura é sério: Rembrandt era um típico pintor tonal, por exemplo.

Martin Kippenberger: Tate Modern, vista geral da exposição, 2009

No futebol é a mesma coisa. O Corinthians joga de um jeito, desde 2008: recua até o círculo do meio-de-campo (não mais!) e tenta em uma trombada casual espoletar a bola pras laterais. Dali pros volantes (Elias, o saudoso Cristian e Jucilei) avançam o mais rápido possível pelo meio, obrigando os volantes adversários a dar o bote e perder a cobertura dos laterais. Foi assim na melhor época. Até a rede globo achar que todas as estrelas da novela estavam torcendo pelo tuitero-mor do futebol brasileiro e o gaúcho dos pampas simplesmente se desinteressar pela equipe em prol das duas âncoras carecas nos quais ele levou uns belos trocados (a história de Souza no Corinthians ainda vai voltar à vida do Mano, não se preocupem verdes secadores de plantão). De qualquer forma, da grata surpresa de Júlio César ao grande Jorge Henrique, passando pelo inatacável Roberto Carlos, o Corinthians me agrada. Aliás, o lateral merece uma declaração à parte. Nunca, desde sua ascensão ao palmeiras de Luxemburgo – e antes – o canhoto pôde ser visto com tanta sobriedade, tanta seriedade como no alvinegro. Rodrigo Andrade errou (e ele conhece do riscado), assim como vários são paulinos como Ivan Marsiglia. Dessa vez falo dos São Paulinos porque, infelicidade minha, acabam sedo dos mais informados em futebol dentre nós, os desinformados. Uma coisa é crescer torcendo pro, digamos (e com todo respeito pela atual campanha) Avaí. E outra é – até a idade adulta – disputar uma dezena de títulos internacionais. Tudo bem, existe a internete e você tira em 2 minutos a escalação da Argentina de 86, mas estar no campo, e acompanhar seu time até as finais de 5 brasileiros consecutivos (o campeonato dos campeonatos, a meu ver (o brasileirão merece isso: um parênteses dentro de outro com direito a dois pontos. É um campeonato em que grandes times não achincalham pequenos escretes, como na Copa do Brasil) te traz aquilo que Goethe chamava de maturidade afetivo-intelectual. Imagino que seja algo como emocionar-se pensando e pensando emocionar-se. Enfim, Roberto é a cara do timão. E joga com a sobriedade, a justeza da nova pintura paulista. Deve ser a próxima capa do caderno de cultura, por justiça!

Para terminar, não sei se meu time será campeão. Temos a sólida equipe do Santos com seu Cristiano Ronaldo da vez dando petelecos no lugar de pênaltis e ainda assim ganhando o jogo, e o Internacional, pra mim uma das mais sólidas equipes do Brasil dos últimos anos. Que tem o seu Elias, por sinal. O incansável Guiñazu e seu avanço inexorável, tanto pelo meio quanto pelas laterais.

Martin Kippenberger: The Brothers Montgolfier, 1987

p.s- hei! E se um jovem pintor brasileiro, ao invés de tentar citar Morandi, a direção das pinceladas e o engajamento, ao mesmo tempo, no Tema e na Forma, ligasse o foda-se e corresse pelas laterais do campo? Um Kippenberger enlouquecido, que angariaria a antipatia dos inteligentes e a simpatia dos técnicos de futebol de todo mundo?

Seria uma boa, não seria? O problema é que você nunca estaria na capa dos cadernos de cultura do lado de cá dos trópicos.

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