Resenha 1

Quem esteve em São Paulo nas últimas semanas pode entrar em contato com o que existe de melhor na música popular.  Ao menos duas coisas impressionantes aconteceram por aqui.

Duas entre muitas. Tem sido um ótimo ano. Vi muita arte boa (Só agora Fred Sandback, Rodrigo Andrade, Cassio Michalany, Sérgio Camargo, fora as recém-encerradas de Sara Ramo e Cíntia Marcelle e de Simon Evans). Também sustento as melhores esperanças em relação à próxima Bienal de São Paulo, aos rumos do país e mantenho a alegria de desfrutar momentos antológicos, ainda que cada vez mais raros, com grandes amigos.

Muitas vezes, nessas apresentações musicais. Elas têm ocorrido sempre e com atrações que eu nem sonharia ver na década de noventa. Só neste ano, passaram pela cidade Hans Koch, eke trio, Philip Glass e outros que eu nem me lembro. Isso só pra ficarmos nas atrações internacionais. Fora uma porção de coisa boa de vários cantos do país e daqui da cidade. Por exemplo, a Camerata Aberta tem apresentado um repertório de música contemporânea da melhor qualidade de quando em quando.

Mas a oportunidade de ver música nova diante dos seus olhos é uma das melhores coisas que um olho pode presenciar.

Pude assistir dois momentos desse tipo em dois finais de semana seguidos. No último dia 14, assisti o show do Gang Gang Dance em um evento promovido pela revista Vice na Galeria Baró/Emma Thomas e no domingo que passou assisti o Pharoah Sanders em ótima forma tocar com a rapaziada de Chicago e São Paulo que o músico e artista Rob Mazurek (tcc Maza) frequentemente reúne.

O entusiasmo é grande, demanda duas resenhas em separado. Publico a primeira agora e a outra, oxalá, ainda nesta semana.

Resenha 01: maravilha

Rob Mazurek, Chad Edward Taylor, Matthew Lux, Pharoah Sanders, Maurício Takara e Guilherme Granado (foto: Camila Miranda)

Pharoah Sanders decidiu não agradar os fãs de seu passado glorioso, mandou as favas a sua respeitabilidade e deu de ombros para os caminhos mais fáceis para sua consagração nos palcos brasileiros. Ele podia ter feito uma apresentação em que tocasse as músicas consagradas do seu repertório e de toda a história do Jazz Avant-Garde. Faria aqui uma daquelas tristes homenagens póstumas que se costuma fazer a artistas vivos, o enterrando em um passado distante.

Agora, ele podia ter enveredado por um caminho ainda mais triste, daqueles que tentam reverenciar a poética do homem, mas atualizá-la, trazendo toda uma juventude para o seu lado. Por mais simpatia e amor que eu tenha pela música do Caetano Veloso, às vezes vejo isso sair da sua voz e dos seus arranjos. Como se ele corrigisse o rumo.

Com o Pharoah seria pior. Ele se enganaria e aceitaria sua obsolescência. Seria um gigante com desejo de adequação. Haja complexo de inferioridade. Ele assinaria um atestado que comprova que sua música abandonou a vida e se tornou um artefato de uma antiguidade, que remonta ao seu nome grandioso.

O bom é que ele não fez nem uma coisa e nem a outra. Decidiu tocar e fazer música com outros músicos, vê-los como iguais. Confesso que não sou o maior fã dos últimos discos do faraó. Tampouco me entusiasmo com as participações dele nos discos do Bill Laswell (que tem trabalhos muito bons, como o primeiro Material e o Massacre). Mas poxa, é o Pharoah Sanders!

Deve ser a mais bela emissão de som que um saxofone conheceu na história. Sem exagero. Não acho ele o maior saxofonista de todos os tempos e nem conheço suficientemente o instrumento e seus gênios para fazer uma afirmação tão categórica, mas quando escuto Astral Travelling ou Journey to Satchidananda me convenço e penso: “acho que é por aí mesmo”.

A emissão continua a mesma, mas aqui ele tocou com um grupo, melhor fez parte de um. Aliás, um grupo afiado, com músicos que já tocaram juntos diversas vezes e em diferentes formações.  Aliás, dois dos grupos levam o nomes da cidade em que Mazurek tem atuação mais ostensiva. Do Chicago Underground, Rob trouxe Chad Taylor e Matt Lux (que circula no mesmo meio artístico). Daqui, do São Paulo Underground, Guilherme Granado e Maurício Takara.

De forma geral, fico feliz quando músicos surgem criando algo novo diante de nós. Gosto muito de improvisação livre, portanto, eu esperar essa produção espontânea é um perigo. Eu podia supor que Sanders entraria nessa confirmando uma linha evolutiva mecânica, que alguns insistem que existe – que viria do Jazz Avant-Garde, migraria para o Free Jazz e, em conluio com a nova música erudita, acabaria na forma radical da composição espontânea.

Bem, acho que esse não é o temperamento do Pharoah e nem o tipo de música que esse grupo se dispôs a tocar. Ainda bem.

Partiram para algo realmente imprevisível: uma banda de rock que Sanders participava como um membro entre outros. Pois é, eram músicas simples, baseadas em estruturas rítmicas fixas, loops eletrônicos que pouco se modificavam ao longo dos temas. Esses temas eram menos um motivo que se repetia durante toda a música e mais um propósito para começar a percorrer essa estrutura estranhamente engessada da música.

Mas só parecia uma estrutura rítmica engessada as bases eletrônicas tocadas por Guilherme, na verdade, quando as outras frases de bateria e percussão entravam, aquilo deixava de ser um ritmo e se tornava um ruído. Mais que isso, um solo onde modos tocados pelos diferentes músicos entravam e saiam como se caminhassem por um caminho estreito, ortogonal, que buscava ser bem traçado.

De forma apressada, encontrei um parentesco rítmico e estrutural com o período elétrico de Miles Davis, sobretudo o Get up with it. Essa espécie de solo plano onde a música se desenrola também aparece em formações mais roqueiras como o Can e o This Heat. Células rítmicas encadeadas e intermináveis, abertas para o surgimento de outros elementos que entram e saem da música andando por esse caminho sem curvas da maneira que acha mais apropriada.

Claro que harmônica e melodicamente a música segue outro raciocínio. As diferenças, aliás, eram ainda mais profundas. Em contraste com aquelas outras formações, o grupo do domingo trabalhava com o acúmulo. Os modos até se alternavam e estabeleciam contrapontos uns com os outros, mais que isso, no entanto, se justapunham, melhor, se sobrepunham de uma maneira que aquela linha reta do motivo original se tornava algo espesso como uma pincelada carregada de tinta.

Agnes Martin, White Flower (1960). Óleo sobre tela. Solomon R. Guggenheim Museum, New York.

Por isso, me lembrei do trabalho da pintora Agnes Martin. Nos seus melhores trabalhos, a artista tenta percorrer uma estrutura muito estrita. Trata-se da distribuição de cores de acordo com um esquema de distribuição horizontal ou um gradeado de linhas que se cruzam em ângulos de noventa graus. No entanto, tal precisão procurada não é alcançada, pois se trata de um trabalho em que a mão quer se fazer de máquina. Desta forma, a atuação da artista parece modificar a estrutura rígida toda vez que ela tenta repeti-la.

Acho que isso acontece na música do grupo de Pharoah e Mazurek do domingo. No entanto, mais do que uma mão, são doze. E todos se organizando e traçando linhas melódicas, produzindo ruídos em certa consonância com aquela estrutura. No entanto, o resultado final não era só uma linha reta, mas um feixe de linhas que percorria aquele caminho e o tornava mais espesso e sinuoso.

O mais bonito é que por conta de um esquema tão restrito pude ouvir os seis músicos tocarem de um modo que eu não conhecia. Assim como o esquema no final se apresentava como outra coisa, também Rob Mazurek era outro e Pharoah Sanders era outro. Ao se olharem no espelho, os artistas devem ter encontrado uma nova imagem.

ATUALIZAÇÃO: E abaixo confira a bela galeria de fotos do show pelo nosso chapa Chris Von Ameln

9 comentários sobre “Resenha 1

  1. Uma outra coisa que eu fiquei feliz é com a energia que a presença do Pharoah leva, assim como Roscoe Mitchell levava a música da Exploding Star a uma investigação profunda de si mesma, de uma maneira muito concentrada e medidativa.

    Ao contrário do estereótipo mísico, Pharoah se mostrou mais festeiro, adepto de linhas melódicas que sempre ofereciam uma porta de saída às melodias tocadas pelo grupo e assim inspiravam um recomeço pra criação.

    Não sei se aconteceu com todo mundo, mas muito mais do que uma celebração sisuda e espiritual, como o chavão se esforçava em reforçar, no meio daquela música toda e sentadinho numa dascadeiras do Sesc Pinheiros, eu me senti numa festa. Muito legal, bonito e emocionante.

  2. eu vi no sábado. Nào me senti numa festa propriamente, mas muito estimulado. E o curioso, tal qual o Tigas apontou, é a transformação na maneira como cada um tocou ali. O resultado final foi muito bonito. Ao fim, eu saltei da cadeira pra aplaudir em pé não por convenção, mas porque me senti um tanto parte daquilo, a partir do momento que um era um outro naquele jogo todo. Foi realmente especial.

  3. Fui aos 2 dias. Não foi horrível, mas achei que o show deixou a desejar.

    Groove (monótono) o tempo todo (e ainda disseram que era pré-gravado). Como conversei com meus outros amigos que foram (7, no total), parecia que a gente estava num show do Rob Mazurek (brilhante, como sempre) com o Pharoah fazendo participação especial! E o PA estava muito ruim.

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