A vala comum de Uribe

A vala

No Brasil, cada vez mais, os conservadores e liberais vendem o case colombiano como uma revolução na gestão democrática. Para eles, que defendem o princípio dos direitos humanos fervorosamente quando o assunto é o Irã, a Colômbia é um modelo a se seguir. Mas pouco eles falam que o modelo do Plano bancado pelos EUA no país sul-americano é caro, pouco eficiente e, necessariamente, violento.

O Jay já falou disso tudo em seu post aqui. E todos demos algum pitaco nesse sentido. Mas uma notícia que o Marco Aurélio Weissheimer postou em seu RS Urgente mostra o quanto é aterradora a situação na Colômbia. Enquanto o carnaval midiático se concentrava no piti de Uribe em cima de Chavez, era descoberta uma vala comum com mais de 2 mil cadáveres em La Macarena, departamento de Meta, na Colômbia.

Segundo relatos do presidente do Comitê Permanente de Defesa dos Direitos Humanos da Colômbia, Jairo Ramírez, desde 2005, o Exército enterrou ali milhares de pessoas, sepultadas sem nome. Supostamente, seriam guerrilheiros mortos em combate, mas é tudo muito nebuloso.

É a maior vala comum da história contemporânea do continente latino-americano. Supera qualquer ditadura dos anos 70. A descoberta não foi divulgada na imprensa colombiana e só agora começa a vazar.

A presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Cilia Flores, já havia acusado, no dia 5 de agosto,  o Governo do presidente colombiano, Álvaro Uribe, de atacar seu país como “estratégia para tentar esconder o genocídio de La Macarena”. O discurso não era monopólio do governo do país adversário: a senadora colombiana Piedad Cordoba, outros parlamentares e ONGs dos direitos humanos já haviam acusado o governo Uribe de construir valas comuns para esconder o genocídio no interior do país.

Até a descoberta ser fartamente documentada, o governo da Colômbia negava a existência da vala comum e acusava pessoas como Piedad Córdoba de terrorismo. Ela e a população local de La Macarena (antes só conhecida pela coreografia mais dançada no mundo) mobilizaram uma delegação internacional composta por 10 dirigentes sindicais, 6 membros do Parlamento europeu, 3 membros do Parlamento britânico, 3 delegados da Espanha e 2 dos Estados Unidos que testemunharam e documentaram a vala comum em Macarena.

Como escreve o jornalista Patrick J. O’Donoghue, Uribe ficou bastante irritado com o diálogo da comissão estrangeira com os membros das famílias dos desaparecidos , em audiência pública organizada pelos senadores. Durante esse evento cerca de oitocentas pessoas de toda a região foram a Macarena contar que sofreram abusos das forças armadas colombianas.

A senadora Córdoba, há muito tempo, cobra informações de Uribe sobre o acontecido em La Macarena e sobre as demais infrações aos direitos humanos cometidas pela temida agência do serviço secreto colombiano, o DAS. São acusações de  espionagem ilegal em figuras públicas, assassinatos e investigação de contas bancárias de adversários de Uribe.

Uribe chama Piedad Córdoba de “inimiga da polícia de Segurança Democrática” e os euro-deputados que participaram da comissão de “porta-vozes para o terrorismo.” Para você ver o grau de dickcheneysse do sujeito.

Além disso, afirma que denunciar os abusos do exército colombiano é uma tática das Farc. O comentário, para a Comissão de Direitos Humanos da ONU, coloca a vida das vítimas que expuseram os abusos e o morticínio em Macarena em gravíssimo perigo.

Matéria no Huffignton Post mostra que existem denúncias de que os militares ocupavam casas e, em pelo menos uma denúncia, confundiam civis com membros da guerrilha. O caso de maior repercussão é o de Maria del Socorro Zapata, desaparecida desde 2007. Acusada pelos militares de fazer parte das Farc, seu corpo foi encontrado na vala comum em Macarena. Para seu marido, Dumar Zapata, que ficou impossibilitado por dias de entrar na sua casa e a encontrou toda destruída e cheia de manchas de sangue, a acusação é um absurdo.

De qualquer forma, mesmo que fosse do exército, a presença do corpo dessa mulher em uma vala comum indica um comportamento inaceitável do governo colombiano. A vala prova execuções sumárias, sem julgamento e sem nenhuma perícia. O argumento uribista é que são mortes de confronto. Mesmo assim, a vala comum destampa um fantasma que a direita brasileira não quer nem ouvir falar: as bizarrices cometidas pelo seu governo modelo em nome de uma guerra ao terror.

O terror continua presente na Colômbia (o lamentável ataque em Bogotá nos mostra isso). E isso não tem nada a ver com o governo reatar ou não com Chavez. Só prova que o Plano Colômbia é uma guerra cara e derrotada que enche os cofres colombianos de dinheiro para paliativos contra os reais problemas do país e deixa parte da população à mercê do tráfico, de guerrilhas, de paramilitares e de um exército violento e instruído para matar.

22 comentários sobre “A vala comum de Uribe

  1. o plano colômbia está se revelando exatamente isso: quanto mais se fuçar, mais atrocidades virão à tona. e antes que comentaristas hidrofóbicos se dêem ao trabalho de vir espumar por aqui, já vou dizendo: que a violência deve ser combatida, assim como o narcotráfico, não resta dúvidas. todo mundo aqui quer paz e normalidade na américa latina. mas queremos governos que ajam no limite dos direitos humanos também. e nisso o governo uribe está sendo cada vez mais desmascarado. chamar de democrática essa política de segurança pública chega a ser piada.
    e mais uma informação interessante: em artigo na carta capital, maierovich afirmou que o plano colômbia tem promovido a maior desreforma agrária da história da america latina, com a expulsão de camponeses de suas terras e sua apropriação, com recursos yankees, por ex-paramilitares.

  2. Gostaria de aproveitar para chamar a atenção para a situação dramática de outro país latino americano, o México, também envolvido numa “guerra contra o narcotráfico” (motivo de uma série de notas recentes no meu blogue). São 35.000 mortos desde o início do mandato de Felipe Calderón e uma série assustadora de execuções e desaparecimentos que são colocados na conta da guerra entre facções do narcotráfico mas que parecem uma volta de um sistema clandestino de repressão violenta aos movimentos populares, sistema que vigorou no México no mesmo período dos anos de chumbo no Brasil.

  3. É um horror essa história!
    Almocei com uma colombiana que mora aqui no BR outro dia e ela estava comentando como, na Colômbia, todo o governo e o processo eleitoral gira em torno das FARCs. Sendo contra ou a favor, elas são sempre o assunto principal e a melhor desculpa para que nada mais seja feito no país – em termos de políticas sociais. Mais que isso, ela relatou que, de modo incrível, sempre que acontece algum escândalo envolvendo o governo colombiano, logo na sequência acontece algum evento envolvendo as FARCs que suplanta, na mídia, o tal escândalo. E eu fico pensando na forte dependência mútua dessas duas instituições, porque parece lógico que ambas estejam trabalhando – e juntas – para manter esse status quo… não entendo nada dessa pendenga, mas é assim que cheira pra mim!

  4. Pois é, na última reunião do tão falado Foro de São Paulo (agora presidido pelo Valter Pomar), a intituição propôs que a Farc se entregue unilateralmente. A idéia é exatamente essa. A existência do grupo se tornou uma trava para o avanço de qualquer medida progressista na Colômbia. O atentado de ontem em Bogotá é um exemplo disso. Num dia o governo colombiano reestabelece relações com a Venezuela. No outro explode uma bomba em Bogotá.
    Essa interdependência entre guerrilha, tráfico e grana dos EUA acaba com qualquer possibilidade de se contruir alguma coisa lá na Colômbia.

  5. Muito bons os textos sobre o México. Já vou colocar o Às Moscas na nossa lista de links já!

    O texto de Maierovitch: http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/carta-capital/2010/08/02/ignorar-a-historia-uma-saida-rasteira

    http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/selecao-diaria-de-noticias/midias-nacionais/brasil/carta-capital/2010/08/02/perigo-imaginario

    E as primeiras investigações do atentado de ontem apontam para os paramilitares da extrema direita. A última coisa que eles querem é o fim da FARC. http://www.pagina12.com.ar/diario/elmundo/4-151231-2010-08-13.html

  6. Putz.
    Depois que o Santos “did the Kirchner”, acho que o Uribe corre o risco de terminar preso ou morando nos EEUU.

  7. Verdade. É exatamente isso que se espera de um secretário de segurança do Alkmin.

  8. ele já descolou umas “aulas” nos eua, não lembro onde. aula nos eua é o refúgio clássico de presidente latino americano que receia parar no xilindró.

  9. A Folha é lamentável mesmo. Hoje tem um artigo de um desses politólogos coxinhas falando da impossibilidade da Unasul resolver o problema e dizendo que o Uribe tem feito as medidas mais eficientes. Vai ver que ele acha essa cova uma boa saída

  10. Essa notícia é realmente chocante!!!!O governo que a direita brasileira adora venerar é essa podridão!!

  11. Pra quem já tratou o Menem e o Salionas como modelo, essa adoração pelo Uribe é carta marcada. O fato é esse como esses caras não têm opinião, eles ficam esperando a avalização de algum banqueiro ou organismo privado internacional. É só um sintoma de gente que não tem a menor idéia sobre o que tá falando.

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