Renata Lucas em 2008

Veneza (2009)

Com as tarefas se acumulando, anda difícil escrever qualquer coisa. Até mesmo as idéias que já tenho prontas não conseguem ganhar materialidade em palavras.

Peço licença para publicar aqui, um texto que fiz em 2008, quando ainda eu ainda não tinha blog e nem entendia direito como pilotar um (aliás, ainda não sei). O texto comentava, entusiasmado, os últimos trabalhos que a artista Renata Lucas havia feito. Hoje, eu escreveria um texto bem diferente. acho que a minha pena melhorou um pouquinho e eu não me sentiria tão obrigado a descrwever a trajetória da artista. Além disso, ela fez muita coisa depois disso.

A artista é uma das mais interessantes de sua geração. Dona de uma inteligência veloz, consegue processar questões históricas e teóricas da arte contemporânea com uma facilidade que poucas vezes eu vi. Talvez seja por isso associarem o trabalho dela a estas discussões internacionais. O que me interessa é outra coisa.

É o que o trabalho dela tem de imaginativo. Acho que ela entende os circuitos das grandes cidades e interfere neles quase de maneira figurativa. Como se coisas corriqueiras adquirissem vida própria e tornassem-se absurdas. Hoje escuto a toda hora chamarem desenhistas e pintores ligados ao grafite e ao street wear de artistas urbanos. Acho a definição, além de imprecisa (afinal, os outros seriam rurais), ruim.

Essas estampas pop poderiam estar em qualquer lugar e muitas vezes se parecem com imagens retiradas de apropriações kitsch das marcas internacionais de roupas de skate. Mais do que isso, quando essa imagens se relacionam com a cidade, aparecem de forma anedótica, um comentário de lugares comuns.

O trabalho da Renata é diferente, trata-se de uma experiência na cidade. Uma escultura que baliza caminhos, espaços interiores e coisas que ficam no relento.  É uma obra de quem anda na rua.

Eis o texto

Janela, 2008

O trabalho de Renata Lucas é tão discreto que muitas vezes nem notamos que se trata de uma ação artística. Ela não é de fazer objetos aos montes. O que a tornou conhecida são intervenções que se misturam às ruas, edifícios e salas das metrópoles. Elas são feitas das mesmas coisas que vemos na rua, como elementos do dia-a-dia. Na rua, essas instalações se parecem como um corpo estranho. Que colocada onde está infectou o caminho e trouxe a tona algo que parecia escamoteado na normalidade do dia-a-dia.

Hoje, muito se fala sobre a arte na cidade e como a arte redescobre a cidade. Na maior parte das vezes, isso é conversa fiada. Trata-se de uma pintura de decoradores pop que seguem normas muito estritas e estilizam os personagens de maneira estilizada. Não se descobre nada disso, apenas se formaliza do jeito mais convencional possível. Chamam de arte urbana como se as outras não fossem igualmente próprias da vida na cidade. (O que falta é arte rural).

Mas no caso de Renata Lucas essa relação é verdadeira. Seu modo meio de sobrepor espaços pouco familiares nos faz descobrir propriedades da vida na cidade, que desconhecíamos. Na intervenção que ela fez em São Paulo, em 2008, este potencial aparece de forma discreta, mas evidente.

Na época, fazia algum tempo que a Renata Lucas não expunha na cidade. Desde o ano da última Bienal de São Paulo, 2006, não lembro ter visto nenhum trabalho novo da artista. Recebia as notícias. Sabia que ela estava a toda, trabalhando muito, por todo o mundo.

Colocava esculturas grandes nas galerias e realizava instalações em vários espaços diferentes. Pude também ver o belo livro que o instituto Red Cat lançou sobre sua obra em Los Angeles, em 2007.

Renata sempre se dedicou a reconfiguração de espaços arquitetônicos e urbanísticos diferentes. Suas instalações e esculturas mudavam os prédios, salas, corredores, jardins, ruas ou a relação dos passantes com eles. São feitos a partir de gestos discretos, mas muito radicais, que buscam intervir na experiência dos transeuntes. Talvez por isso, seu trabalho dispensa enfeites e adornos. É austero. Não quer nada que pareça diferente do que tem por lá. As peças devem se mostrar como coisas da cidade.

Cruzamento (2003)

Ela ainda continua a utilizar materiais e elementos ordinários, pouco artísticos. Usa pedaços de tábua, compensado, material de construção, carpetes, móveis, plantinhas e etc. O único vídeo dela que eu conheço é a extraordinária vídeoinstalação Barulho de fundo; exibida em 2005 no Instituto Tomie Ohtake e, um ano depois, na Bienal Internacional de São Paulo.

Em abril de 2008, vi uma intervenção discreta, mas digna de nota, em um espaço para a arte que acabava de inaugurar. A Galeria Fortes Villaça abrira um novo espaço em um daqueles velhos galpões industriais da Barra Funda, um desses amplos armazéns ainda caracterizam a paisagem do bairro paulistano.

Aliás, esse é um local que ainda se parece muito com o que São Paulo foi até pouco tempo: uma cidade industrial. Ele tem armazéns, um pequeno comércio, residências populares, oficinas, prédios de boa e de má arquitetura construídos nos anos 50, 60 e até 70. Além disso, espaços como escolas, clubes e grandes avenidas. Agora, a composição humana do bairro é muito heterogênea e muito simpática. Devido à extensão, a Barra Funda é ao mesmo tempo um bairro boêmio, popular, muito ativo politicamente e começa a receber os primeiros empreendimentos de luxo e edifícios públicos (superfaturados ou não).

Entre a fachada azul e alta desse galpão e o amplo interior de galeria, Renata modificou uma parede, que aparece por detrás das colunas da galeria. Essa segunda fachada se situa entre os vãos de entrada. Um lugar que já deve ter sido coberto por portões de ferro enrolados durante o dia e desenrolados durante a noite. A peça planejada pela artista não era um muro fechado de tijolos maciços, mas a inserção de uma janela grande, típica dos edifícios daquele bairro, prédios que não se constroem mais, em um painel feito com cobogós, elementos vazados de concreto.

Atrás da janela, ela dependurou cortinas brancas finas. Elas ficavam entreabertas e permitiam que o pedestre que passasse por lá olhasse para a galeria da rua. O mais bonito é que a nova estrutura da parede permitia uma iluminação suave para a entrada da galeria. Suavizava tanto a luz branca e difusa de dentro da galeria quanto o sol que vinha de fora. Depois da parede, os feixes solares entravam na sala de exposição de mansinho. Antes de cobrir a entrada de sol, passavam através do gradeado de concreto e do tecido diáfano da cortina. A luz solar entrava cansada, como se estivesse no fim da tarde. Na calma daqueles apartamentos da Barra Funda às seis horas, ela sugeria o ritmo dos dias de um passado não tão distante.

Época em que, naquele horário, depois do expediente, os aposentados se regozijavam com o fim do burburinho da rua e podiam curtir suas casas já sem tanto calor e nem tanto barulho. Esse aspecto de um recolhimento doméstico é reforçado pelos vasos de planta que Renata Lucas apóia no parapeito. Só faltou um gato passar por detrás do vidro.

Aquela parede não pertence a nenhum dos espaços: nem o que se coloca em frente dela, nem o que está por trás. Aparece como uma lembrança de outro tempo, de outro lugar, que teima em ficar como uma camada de uma cidade que se constrói em cima de outras cidades. Não é por acaso que Renata Lucas fala do seu trabalho como uma geologia urbana. Claro que uma geologia ficcional, mas que encontra camadas da cidade em um lugar aparentemente homogêneo.

Nessa camada que a artista coloca, há algo da paz e do recolhimento das cenas do pintor holandês Johannes Vermeer (1632 – 1675). A peça de Renata tem uma luz difusa e natural, que se coloca entre a brutalidade viva da rua e a neutralidade da luz clara, branca e artificial da galeria. Pela primeira vez, esta obra funcionou como um elemento pacificador.

A artista manipula Falha

Desde a sua escultura Barravento (2001), a artista constrói duplos do mesmo espaço. Essa escultura grande, feita com folhas de madeirite replicava a sala de exposição do espaço experimental 10,20 x 3,60. A artista colocava aquela peça gigante lá e parecia descamar a sala.

Pouco depois, em 2002, Renata fez dois trabalhos que guardavam características similares às da sua obra mais recente: Comum de dois, feito no prédio da Maria Antônia, em São Paulo e Mau Gênio, exposta no Museu da Pampulha, em Belo Horizonte.

Mau gênio
Resident, intervenção na galeria Gasworks, em Londres, antes e depois (2007). Clique na imagem para aumentá-la.

Em ambos, a artista parte de edifícios criados para uma função determinada e depois adaptados como sede de espaços culturais. A Mariantonia nos anos sessenta era a sede da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, hoje é um centro de cultura e pensamento da Universidade de São Paulo. O Museu da Pampulha foi criado para ser um cassino, com a proibição do jogo passou a abrigar um acervo de obras de arte e hoje é um museu. Renata aproveita dessas estruturas adaptadas, com emendas e alterações, e insere outra estrutura arquitetônica neles. Em um faz uma sala entre duas salas e um corredor. Insere essa sala dentro das outras salas. No museu da Pampulha coloca um andaime, com caixilhos, no segundo andar do museu, atrapalhando a vista.

Em todos os casos tratam-se de estruturas arquitetônicas estranhas, que entram nos prédios e acentuam o que eles têm de provisório, de um uso impróprio das salas. De coisas que vão se tornando outras coisas. As intervenções nos fazem pensar nos usos que damos aos lugares e como essas determinações dos espaços são arbitrárias. Antes de continuar, é importante ressaltar que o efeito de cada intervenção é diferente. Uma parece criar um clima de claustrofobia, o outro, parece ampliar a paisagem e o potencial da construção de Oscar Niemeyer na Pampulha.

Esse modo de lidar com a paisagem, com a cidade e a arquitetura não é uma novidade em arte. Na década de 1960 e 1970, artistas fizeram disso o seu modo de esculpir. Nomes importantes como Richard Serra, Gordon Matta-Clark, Michael Asher, Richard Long, Michael Heizer, Robert Smithson e Walter de Maria não esculpiam objetos e nem realizavam projetos de arquitetura. Atuavam sobre os lugares. Esses projetos ambientais foram chamados de projetos para site-specific ou, de acordo com a definição da crítica de arte Rosalind Krauss, a escultura no campo ampliado.

Maugênio (2002)

Agora, diferente de todos esses artistas, Renata não atua em lugares com a significação plena. Diferente desses pioneiros do site-specific, seu trabalho não é uma atuação que muda o sentido do lugar, diferente disso, ela parece falar de uma arquitetura sem sentido. Inclusive, de uma cidade que se movimenta quase sozinha, sem contar muito com a vontade de quem mora lá e nem se preocupar muito com o conforto e a alegria desses cidadãos.

Muitas vezes ela trabalha em lugares que já foram uma coisa que se tornou outra e depois adquiriu uma terceira função. No Brasil, especialmente na cidade de São Paulo, vemos casas se transformarem em restaurantes por quilo, cinemas que se transformam em igrejas evangélicas, bairros e favelas que se transformam em avenidas e prédios de escritórios e, como na instalação Atlas (2006), desenvolvida por Renata na Galeria Millan, em São Paulo, onde a oficina mecânica que ficava de frente para a galeria se espraia até ela, bem como a casa que se avizinhava à galeria toma conta da sua lateral.

Muitas vezes, suas obras inventam situações onde as coisas da cidade parecem ter ganhado vida própria e se puseram a agir de forma autônoma, a fazer coisas sem explicação. Mexe-se de um lado e levanta outro lá na frente, como na escultura Falha (2003), em que Renata cobriu o chão com madeira ajuntada por meio de dobradiças. Uma se mexia e deslocava as outras, como se o chão estivesse a se deslocar.

Venice Suitcase (2009)

Em 2003, a artista fez a intervenção Cruzamento, no Rio de Janeiro, nesse trabalho, usava tábuas de compensado que davam um desnível à avenida e pareciam ter subido alguns milímetros do chão. Assim como em Febre (2004), instalado em uma rua de São Paulo, onde uma lixeira de rua engolia um automóvel – e cuspia o toca-fitas. A imaginação de Renata também fez com que víssemos, através de câmeras de vigilância, os andares superiores do edifício onde fica a Fundação Tomie Ohtake serem tomados por animais selvagens. Como se aqueles escritórios vazios tivesse se tornado o habitat natural de uma fauna silvestre.

Nos trabalhos Atlas (2006) e Gentileza (2005) – onde Renata tenta fazer com que a galeria carioca Gentil carioca, se fundisse com os espaços da rua do Saara, onde ela se se situa –, a artista mostra lugares que começam inclusive a se derreter, mudar as fronteiras e se fundir uns nos outros. Os espaços deixam de ser determinados por nós, passam a seguir orientações sobre as quais ninguém mais tem controle, ninguém mais determina, em uma espécie de racionalidade absurda.

Nos trabalhos de Renata essa situação absurda tem algo de fantástico, como uma força incontrolável, parece ser a mesma força incontrolável que cria, além da vontade de qualquer um, boa parte das agruras da nossa vida.

3 comentários sobre “Renata Lucas em 2008

  1. Que ótimo ler esse texto sobre o trabalho da Renata. Maravilhoso Tiago! bjos

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