Quando a onça dorme

Uma notícia publicada por Daniel Castro em seu blog expôs a fratura do que vem sendo a gestão do governo paulista nos últimos anos. A matéria, negada pelo governo, indicava que a TV Cultura iria demitir 1,4 mil dos seus 1,8 mil funcionários,  desfazer de patrimônio e terceirizar a produção dos programas.

A notícia caiu muito mal no comitê de Serra e rapidinho, a chefe da campanha on line do tucano classificou a informação como “#jornalismomentira”. A coisa estava nebulosa até que a direção da Fundação Padre Anchieta emitiu um comunicado tão sinistro quanto a denúncia de Daniel Castro:

“Em face às recentes notícias publicadas sobre a TV Cultura, informamos que:

A TV Cultura é patrimônio querido dos paulistas e brasileiros, com um acervo de ótimos programas e vários artistas e jornalistas de sucesso que começaram aqui, mas que precisa se renovar. Perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente.

Esta é a proposta de renovação que a Administração levará ao Conselho da Fundação Padre Anchieta: a revitalização dos programas admirados, a modernização dos processos administrativos, bem como dos equipamentos, e contando com os talentos que a emissora possui e com a contratação de novos apresentadores e jornalistas.”

Só me atenho ao que está em negrito no comunicado. Quando a emissora perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente? É uma pergunta boa para se formular em qualquer debate eleitoral de candidatos para o governo de São Paulo ou para a presidência do Brasil.

Afinal, a coalizão que  apóia as candidaturas de José Serra e Geraldo Alckmin em São Paulo é quem controlou o governo do estado e a Fundação Padre Anchieta nos últimos 24 anos. Representantes dos governos Montoro, Quércia, Fleury, Covas, Alckmin e Serra estão todos no mesmo lado nessas eleições (no estado e na disputa nacional). Onde foi que a Cultura abandonou a excelência e se tornou um canal desinteressante até pra um sujeito que pleiteou e lutou para ser seu presidente?

Mesmo que a demissão em massa e a venda do patrimônio não se confirmem, a Fundação Padre Anchieta e o governo do Estado têm um sério problema a justificar. O maior deles é o problema com os funcionários da emissora.

No final de junho, o colunista de UOL Televisão, Flávio Ricco, disse que a nova presidência da emissora tinha pedido para cada funcionário apresentar seu crachá, assinar um papel e mostrar que existe. O objetivo da operação seria separar os funcionários que querem e precisam trabalhar dos que estão ali apenas para receber os seus salários no final do mês. Traduzindo para o português: a Cultura há muito tempo se tornou um cabide mais pesado que o guarda-roupa.

Como o ônus de se livrar da  Cultura (privatizando ou simplesmente fechando) é muito pesado, a emissora já está enxugando a programação e pretende exibir documentários e produções independentes sem tanto impacto. Para um canal que já foi campeão em prêmios internacionais no Brasil, a notícia aponta um sucateamento total da estrtura.

A persistência dos funcionários da emissora tem mais a ver com o período eleitoral do que com a falta de vontade de se livrar deles: a lei não permite que os funcionários com carteira assinada sejam mandados embora e o impacto eleitoral da notícia certamente não seria dos melhores.

A TV Cultura já havia sido acusada de ingerência política nas entrevistas de Gilmar Mendes e José Serra no Roda Viva e também na demissão de Gabriel Priolli em uma matéria sobre pedágios (o assunto que tira o sono do ex-governador paulista). Agora, até os comentários críticos do ombudsman da emissora são tirados do ar. A falta de critérios de cast e de independência jornalística já é um dos temas que dá combustível contra o tucanato.

O episódio reforça o centralismo ineficiente do grupo serrista (que já incomoda os aliados do PSDB na campanha) emostra a extrema aptidão dos governos tucanos de sucatearem instituições e venderem o processo como uma modernização inexorável. É quase um caso clássico: esperam a máquina estar podremente zoada, cortam-se os gastos linearmente e não fazem nenhum planejamento posterior sobre reestruturação. Em pouco tempo, o resultado é um instituição insignificante e sem utilidade. Nessa, eu concordo com o Luis Nassif:

Mas há anos São Paulo foi tomado pela síndrome dos cortes lineares de despesa. Não se enxergam organismos públicos como produtores de serviços de qualidade, como geradores de ideias, como instrumentos de desenvolvimento, mas apenas como centro de despesa.

Há que se ter responsabilidade fiscal. Mas o fiscalismo que tomou conta do Estado é emburrecedor. Todas as questões são resolvidas na base da tesoura, cortando simplesmente, sem pensar em alternativas. Ora, se um trabalho criativo, competente, aumentar a produção da TV Cultura e as receitas, mantem-se a responsabilidade fiscal e permite ampliar a oferta de produtos culturais.

Mas, não. É só o lado mais fácil, de cortar, vender, desmanchar.”

Além da Fundação Padre Anchieta, Fundap e a USP são dois exemplos claros do abandono dos sucessivos governos paulistas com o Estado.  O resultado é ponte que cai, estação de metrô que afunda e um estado com um potencial sem igual na América Latina que vai virando pó. Tudo isso com a conivência de uma imprensa que se recusa a noticiar criticamente as decisões de qualquer governo nas mãos do PSDB. A maquiagem permanente é mãe da piada grotesca abaixo:

A falta de comprometimento (da imprensa e dos governos paulistas) pode ter sérias implicações no país.

16 comentários sobre “Quando a onça dorme

  1. Pelo jeito, teremos aqui uma escalada da Direita em pleno crescimento economico… bizarro…

  2. Esses romanos são loucos!

    Tô passando pra Deus e o mundo o texto, cada vez que eu fico um tempo fora de São Paulo volto mais assustado com o autismo político local. É a coisa mais bizarra do planeta.

  3. …30 minutos para o bedate na Band. Dilma vai ir mal, isso é fato. A “mídia” vai tentar falar que ela vai bem!

    Uma frase do FHC na Gabi, domingo de noite: “…Eu não sei o que a Dilma pensa, porque ela não fala. Então não posso comparar uma que não diz nada com outro que diz.”

  4. César, tudo bem, agora coloque as opções eleitorais na geladeira por um segundo. A solução pra TV Cultura é ruim. O cuidado com o bairro de Perdizes, onde moro, é insatisfatório. A subprefeitura da Lapa na época das atuou de maneira indiferente. Por fim, as medidas de logística do estado se baseiam em uma idéia atrasada: o rodoanel. Fora o custo, trata-se de uma obra insuficiente.

    Sabemos do seu horror ao pt, mas vamos pensar em políticas públicas mesmo. Não quero te convencer a votar em ninguém, mas a pensar que nem tudo é nós contra eles e que o PT representa as forças do mal. Só é um grupo político que de repente você não concorda, mas sem hidrofobia.

    Nós três, autorres do blog, conhecemos gente muito próxima do Fernando Henrique (poxa, o Jay trabalha no CEBRAP). |Portanto, as críticas que fazemos a ele, pode saber, não são movidas pelo ódio.
    é isso. vou dormir. amanhã o dia começa muito cedo

  5. Tiago,

    Como você falou, colocando as opções eleitorais de lado.

    Acho também a solução da TV ruim, pra mim, a grosso modo, tinha que vender mesmo e pronto. Também achei um absurdo a tal da TV Brasil. Cara, sou a favor até de privatizar as Federais e a USP. O Estado sabidamente não é um bom adm.

    Eu moro na Vila Buarque (Meio Sta. Cecília, meio Higienópolis) e também acho o cuidado com o bairro insatisfatório. E olha que estou a poucos metros de gente importante como o FHC e mais, gente muito rica, onde tem segurança na porta. A principal diferença, não deixam os menos favorecidos dormirem na rua, acho que na base da porrada.

    Acho o rodoanel necessário, em 1990. Mas ele deve ser feito sim, mas como você disse, é insuficiente. Cara, como vamos fazer COPA e Olimpíada, ainda mais no RJ, que é um caos urbano, uma cidade, que por números, está em guerra?

    Tenha certeza, o que eu quero é o mesmo que você, (“forando” a eleição da Dilma)uma lugar melhor de se viver, mais oportunidades, etc… Mais, quero que seu pai, um petista gente finissíma, ganhe a eleição e se torne deputado, apesar de não votar nele.

    Sei também que o PT não é representa as forças do mal. Como já falei, já votei no PT, em 2002 votei no Lula e pasmem, até tinha adesivo no carro! (ganhei do irmão do Palocci). Esse foi um start para começar a enxergar as coisas com outros olhos. Poxa, pra citar um exemplo, você acham certo não termos um direita descente aqui no Brasil? Que raio de democracia é a nossa? E na AL?

    O que eu não curto é o esquema do PT e acho errado defender isso, mas também tenho que admitir que tem muita coisa que funcionou. Como já trocamos idéias antes, a Dilma não é o Lula e isso ficou provado na TV. Não, ela não foi tão mal e nem o Serra foi tão bem.

    Qto ao FHC, é um cara que não curtia, até mesmo por falta de mais informação. Hoje vejo que ele foi foda. Nas palavras da minha Tia Mirian, o trabalho dele será reconhecido daqui alguns anos. Passei a concordar com ela.

    Mas sabe o que eu fico realmente chateado, pra não dizer puto? É as pessoas falarem em alto e bom som que não gostam de política (meu irmão faz isso). Não tem que debater, defender, se filiar nem nada, mas tem que saber o que se passa, como funcionam as coisas, afinal, isso decide a nossa vida. Resumindo: interesse.

    Bom, sei que vamos dialogar (não duelar), várias vezes ainda aqui no boteco, ops, Blog do Guaciara.

    abs

  6. César, a idéia é essa mesmo, um botequim. Voltando a outra questão que você insiste que seria uma certa obsesão do Lula em relação ao governante anterior. Bem, convenhamos, um fala do outro o tempo todo.

    No caso do Lula, a opção não é pessoal, é estratégica. Por mais colaborações que o FHC tenha deixado, ele deixou o país com uma taxa de desemprego (isso exclusive o subem prego, a pergunta era se você procura trabalho) de 13%, uma dívida estratosférica e a indústria em frangalhos.

    Isso é muita coisa e a população percebe. É o suficiente para que ele tenha a rejeição que tem hoje. O segundo mandato foi muito mal avaliado. E a reeleição não foi fácil (mesmo com um arco de alianças muito bem feito — O Fernando Henrique era craque nisso).

    Sendo assim, não acredito que a contribuição do Malan/FHC vá muito além do que nós sabemos. O estado precisa crescer e atuar mais junto a iniciativa privada gerando emprego e inovação. Esse papo de que o estado é mal gestor não é verdade. Na França (uma das pontas em ciência e tecnologia) quem fomentou a inovação foi o estado e as grandes empresas se apropriaram. De acordo com amigos que estudam o assunto, é muito comum a alta elite do serviço público ir trabalhar nas multinacionais francesas. Hoje, segundo meu amigo Fred, os órgãos de controle do sistema financeiro é organizado pelos franceses.

    Isso posto, a privatização não é uma panacéia. As vezes ela é útil, as vezes não. Deve ser pensada dentro das possibilidades do poder público melhorar a vida do cidadão. Estado mínimo é ideologia, não é política pública. O estado no Brasil é muito menor que nos EUA e na França, para ficar em duas pontas do capitalismo. Nesse sentido, a proposta da Dilma de apostar em estratégias de gestão junto à elite dos técnicos do serviço público é muito boa.

  7. Tiago,

    Concordo que onde o FHC mais pecou, foi onde mais s e sente e, principalmente os mais pobres, os assalariados etc…

    Também acho o Estado mínimo ideologia, mas acredito que tem que ser uma busca constante.

    As coisas na França, que no meu entendimento e mais alguns conhecidos (inclusive que moram lá), é o país mais socialista dos capitalistas, funcionam a base de subsídios e etc… Claro, eles tem inumeras qualidades. Costumo brincar que na França ocorre o mesmo problema que ocorre no Rio de Janeiro, cheio de franceses e cariocas…

    Tenho um grande brother, que é Petista de carteirinha e me disse algumas coisas da Dilma. A ruim é que ele tem certeza que ela ganha. As boas são as medidas impopulares que irão acontecer no seu governo (reformas, etc) e que o governo dela só dura 4 anos!

  8. Também acho que dura 4 anos e é preparado pro Lula voltar em 2014. As medidas impopulares provavelmente têm a ver com a reforma do estado. Ela não tá cercada pelo “neoliberalismo petista (Pallocci e Pimentel) à-toa. Se as reformas impopulares forem essas, eu espero um grande governo dela.

  9. Eu também um dia fui uma brasa
    E acendi muita lenha no fogão
    E hoje o que é que eu sou?
    Quem sabe de mim é meu violão
    Mas lembro que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro,
    Tocava saudosa maloca

    Eu gosto dos meninos destes tal de iê-iê-iê, porque com eles,
    Canta a voz do povo
    E eu que já fui uma brasa,
    Se assoprarem posso acender de novo

    É negrão… eu ia passando, o broto olhou pra mim e disse: é uma cinza, mora?
    Sim, mas se assoprarem debaixo desta cinza tem muita lenha pra queimar…

    ainda queima, Adoniran….

  10. César, eu conheço um pouco da França. Embora exista uma política distributivista forte, a indústria é tocada pelo capital privado e, sobretudo, pelas enormes multinacionais deles (Balandier, Michelin, Carrefour, a lista é longa). As empresas são lucrativas e o setor financeiro deve ser mais ortganizado que o da Inglaterra. É provável, isso é chute, que sem o protagonismo do estado essas empresas não tinham ido longe. Mas, hoje andam com as próprias pernas e são danadas de lucrativas.

    Sobre a política da Dilma, tudo indica, e é o que eu pude escutar em BSB, que a prioridade é a tal reforma de estado e mudança no padrão de gestão do país. O modelo são as empresas públicas de sucesso. Ela também é preocupada com infra-estrutura e com a formação de capiutal humnano que dê conta desse crescimento. O Chile desenvolveu uma ótima política neste sentido.

  11. Outra coisa, acredito que a super qualificação do funcioonalismo em cargos de direção tem sido da maior importância para a aplicação de políticas. Diferente do que se alardeia, o governo é tocado por funcionários de carreira. Tudo indica (mas isso depende das eleições legislativas) que as carreiras de estado terão um papel ainda mais importante com a Dilma.

  12. Nossa Rodrigo, 100 anos do Adoniran. Preciso abrir um post pro pessoal colocar homenagens assim. Gênio, um dos maiores da música brasileira. Sou muito fã.

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