proteja-se de você mesmo?

A Jenny Holzer não é a artista do meu coração, mas aqui ela falou e disse

Desde a escravidão, um dos traços característicos do pensamento autoritário brasileiro é a desconfiança.

Quer liberar seus iguais? Primeiro, deve reconhecê-los como desiguais e proteger o sujeito dele mesmo. Em termos mais contemporâneos, proteger o cidadão de se mesmo. Pouco importa sua vontade, seus interesses, e, sobretudo, o seu entusiasmo. Os estudos sobre a Revolta da vacina e Canudos mostram o vigor desse discurso paternalista nas políticas de saúde, de urbanização e integração nacional.

Quem também nunca escutou que o problema do país era o povo e que liberdade aqui só na fórmula do Figueiredo do “prendo e arrebento”? Não faz nem dez anos eu convivia com um vizinho que reclamava da confusão entre liberdade e libertinagem. Sempre quis dizer a ele que a libertinagem sempre me pareceu mais palpável do que a liberdade anódina dele.

Para o pensamento autoritário a vontade do cidadão é detalhe – ele precisa ser defendido de si mesmo. Na cabeça dos facínoras o homem é o lobo do homem, mas não do outro homem, apenas de si mesmo. O argumento tem matriz iluminista e atribui ao povo uma esquizofrenia em que lobo e cordeiro coabitam o mesmo corpo. O povo é boçal, ignóbil, e mesmo em silêncio deve ser silenciado para ser livre. Pior, o povo é o maior perigo para a sua própria liberdade (eita termo impreciso). O povo só pioraria a sua própria vida.

E por que se argumenta isso? Em nome de valores, ora. Em nome dos mais nobres valores. A liberdade, a redenção serão obtidas a partir de princípios absolutos e incontestáveis. Para esses caras, como o Lauro acabou de falar, o caminho rumo ao progresso está traçado. Devemos trilhá-lo com obediência, em silêncio, aceitando a sabedoria dos mais velhos e a força dos mais fortes. Mesmo que eles estejam nos destruindo, mesmo que eles estejam destruindo a eles mesmos.

O mais curioso é que muitas vezes a classe média mais autoritária se coloca como defensora da democracia e das liberdades constitucionais – até que a conquista legítima do poder favoreça outras pessoas na disputa limpa.

Uma das conseqüências do governo Lula foi a saída dos conservadores do armário. Alguns jornalistas trataram isso como uma novidade, como se essa juventude reacionária trouxesse novos modos de pensar, novas concepções etc. Até agora, não vi nada de concreto ser apresentado para o Brasil. Parece em tudo com o anticomunismo de tempos atrás, só que agora um anticomunismo sem bloco soviético e, pior, com a burocracia mais tacanha do partidão apoiando-o.

Mas é de boa fé. Eles defendem o povo do Brasil das suas próprias escolhas. Como não ofereceram escolhas convincentes de política nacional, oferecem a defesa dos nada palpáveis valores absolutos. Como preferem: a defesa de “valores universais”. Bem, me parece uma contradição em termos a idéia de valor ser colocada junto à idéia de universal. O valor costuma ser particular. E universal, convenhamos, só o universo mesmo.

Mais divertido é quando se checa o pacote dos tais valores universais: não tem nada mais particular. Um deles, apontado com freqüência, é a tal economia de mercado. Cabe perguntar: qual economia de mercado? Se existe uma forma de alocar as mercadorias que se modificou tanto no tempo quanto no espaço no último século e meio é a tal economia de mercado.

O mundo não é um manual de microeconomia. Além disso, isso não é um valor, mas um modo de as pessoas organizarem suas trocas e distribuir zonas de influência.

Outro item que tem entrado com frequência na lista de valores que não são valores é a democracia. A democracia não é nem um valor e nem me parece ter sentido fixo também de um lugar pra outro. Aliás, é por isso que os sistemas eleitorais e políticos se modificam tanto.

Porque não se trata de um sistema político com algum conteúdo redentor, mas de uma forma de distribuição do poder. Sua qualidade e o seu defeito é ser vazia de valor. É uma forma de se decidir o poder. Não dá pra tratá-la como valor absoluto. Aliás, nada me parece mais arriscado ao sistema do que definir a democracia em termos normativos. Ela perde a sua principal virtude, que é a capacidade de mudar a orientação do Estado.

Mas apontam a democracia como valor porque não querem que o poder chegue aos outros. Quando eu leio o Demétrio Magnolli dar veredito de constitucionalidade, tenho certeza que é disso que se trata: tirar as conquistas de alguns grupos organizados no tapetão. Ou seja, não ceder poder a quem o conquistou dentro das regras de distribuição aceitas.

Aí, democracia só é democracia se o cara levar todas. É igual o sujeito que achava que uma cor não pode ter tons. Mas ele vende essa cor. Por exemplo, o cara é um comerciante de vestidos vermelhos. Diz que vermelho na cidade é só o dele, pois o vermelho só pode ser aquele que tem determinado matiz, o resto não é.

O louco é que em geral os autoritários dizem que o sistema é democrático se eles levam todas as disputas. Aí ficam parecidos com os poderosos das peças políticas do Shakespeare, com cada déspota chamando o vizinho de tirano em nome dos valores nobres da república ou da democracia.

Pra ver como a história é antiga, em 1599, o dramaturgo inglês publicou o épico Júlio César em que narra as conspirações da disputa do poder. A primeira cena acontece durante as comemorações do retorno do tribuno e ditador a Roma. Cidadãos comemoram a vitória de César e a vêem não como uma conquista da liberdade, mas como a conquista do poder. Revoltados e privados da fatia de poder que costumavam ter, dois tribunos, Marulo e Flávio vão tirar satisfações com o populacho. Como esses imbecis podem comemorar o fim do sistema que lhes dá liberdade, o fim da República? Tudo é escrito com uma ironia tão fina que tanto o regozijo popular como a defesa dos valores imutáveis da república romana parecem postiços. Afinal, no livro, ninguém luta por valores transcendentais, mas por poder. Esse poder pode até a criar aspirações para os grupos ou para os cidadãos, mas não se trata de liberá-los, mas de conquistar.

Revoltado, diante de quem se sente mais poderoso, Marulo vocifera a todos:

Por que regozijar? Qual foi a grande conquista que ele fez? Que tributários o acompanham a Roma, para as rodas enfeitar-lhe do carro com seus liames do cativeiro? Não passais de troncos e de pedras; sois piores do que as coisas insensíveis. Corações duros, todos! Romanos cruéis, já não voslembra o nome de Pompeu? Quantas vezes não trepastes pelos muros e ameias e nas torres ficastes e janelas e até mesmo no alto das chaminés, com vossos filhos nos braços e, pacientes, esperastes o dia todo, só para poderdes ver o grande Pompeu, quando passasse pelas ruas de Roma? E quando o carro dele víeis, embora só de longe, vivas não dá veis, com ardor tamanho que no seu leito o Tibre estremecia ao estrondo que os ecos espalhavam por suas margens côncavas? E ora vestis vossas melhores roupas e inventais um feriado? Espalhais flores à passagem de quem marcha em triunfo no sangue de Pompeu? Fora daqui! Recolhei-vos a casa, ajoelhai-vos e aos deuses suplicai que a peste afastem que tanta ingratidão torna iminente.

Não sei o que parece a vocês, a mim, a toada da ideologia do ressentimento. Que enche de significado, significantes que podem ser reconhecidos em situações que não lhes agradam.

24 comentários sobre “proteja-se de você mesmo?

  1. Um belo texto, Tiago!
    Particularmente eu gosto da discussão da liberdade!
    Ainda que não suficiente para abarcar toda a complexidade, ao menos a língua inglesa cunhou os termos liberty e freedom, o primeiro mais filosófico e o segundo mais objetivo.
    Particularmente me arrepia todas as vezes que assisto “Ilha das Flores” do Jorge Furtado, e são muitas, o momento final, quando diz assim:
    “O que coloca os seres humanos da Ilha das Flores depois dos porcos na prioridade de escolha de alimentos é o fato de não terem dinheiro nem dono.
    O ser humano se diferencia dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por ser livre.
    Livre é o estado daquele que tem liberdade.
    Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.
    E a minha pergunta é sempre a mesma: será?

  2. Me lembrei de uma frase que se falava no programa Provocações da tv Cultura: “Enforque-se com a corda da liberdade”

  3. Muito obrigado pelos comentários. Estava um pouco inseguro em relação ao texto, mas o papo sempre mostra que valeu a pena. Agora, esse tipo de idealismo que sempre fala em nome de “valores”, me parece uma catástrofe intelectual, é coisa de gente muito despreparada. Hoje eles voltam a invocar idéias muito malucas como “os princípios da civilização judaíco cristã”. Só queria saber que porra é essa. Me parece um panegírico a-histórico destinado a justificar qualquer violência dos saudosos dos últimos dias do império romano.
    Aliás, essa discussão sobre o uso de uma expressão tão envelhecida, como civilização, me lembra a conversa que eu tive com um sábio e velho amigo inglês. Ele disse que estranhava muito quando as pessoas de países não britânicos como um qualificativo positivo. Ele falava, pôxa, pra história inglesa civilizar era poder, subjugar. Vai entender. No sadomasoquismo existe quem goste de ser dominador ou dominatrix e servo

  4. Tem muiiita coisa aí, heim? Me lembrou um texto do Dworkin (is wealth a value?).

    Um cético moral (eu) te diria que qualquer coisa pode ser um valor, desde que o sujeito que o defenda tenha interesse em racionalizar um desejo, convencer ao outro sobre seu ponto de vista ou dar uma ordem. Mas, falar sobre isso é importante (tanto que, até hoje, não perdi as esperanças de encontrar uma metaética descritiva que me agrade).

    Dito isso, queria defender um pouco a economia de mercado, para não perder o hábito. Mercado, creio eu, é um monte de gente interatuando, comprando e vendendo coisas. Não dá pra qualificar isso como “valor”, mas a gente tem que reconhecer que restringir isso é restringir a liberdade das pessoas tomarem decisões sobre suas vidas. Eu acho que se podem adotar proibições, restrições e regulações, de condutas em busca de objetivos determinados, mas com a consciência de que existe um preço a pagar e que, muitas vezes, estamos fazendo escolhas pelas pessoas como vc condena no início do texto.

    Acho importante observar isso, porque existe um vício recorrente no discurso da esquerda: com base em “valores”, se defende uma proibição ou restrição ao mercado sem se pensar nas conseqüências que isso vai gerar para a pessoa atingida. Quando se proíbe o comércio de órgãos para implante, se esquece que o que se fez, foi simplesmente, retirar de alguém a faculdade de realizar uma troca (além de, evidentemente, diminuir a quantidade de órgãos disponíveis no “mercado”). Também sempre me pareceu engraçado quando países desenvolvidos querem bloquear a entrada de mercadorias de países pobres, esclarecendo que se trata de uma medida contra condições de trabalhos sub-humanas que são impostas aos miseráveis (como se estes miseráveis estivessem melhor com a alternativa oferecida: ficar sem trabalho algum).

    Outro dia li um livro do Amartya Sen em que ele, além de questionar o realismo do suposto do homem egoísta maximizador de utilidade, defendia, por outro lado, que mesmo uma posição meta-ética não utilitarista se beneficiaria enormemente do cálculo consequencialista econômico. Isso me pareceu uma idéia muito interessante: não faz sentido decidir proteger um direito ou valor sem levar em conta as conseqüências dessa proteção, ainda que se considere que um direito é um fim em si mesmo, nada impede que seja um meio para outra coisa (que deve ser levada em consideração).

    abração.

  5. Carlinhos penso muito diferente. Acho que sempre existem restrições. Mercado nunca é espontâneo, é poder meu chapa. Por isso, a economia de mercado, em si mesma, não é nada. As formas de se alocar os produtos em uma economia são sempre formas de disputa também. Pode ser que exista alguns acordos, mas acordos garantidos por alguma regulamentação. Não existe troca espontânea, no fim, alguém determina, não em bases naturais, que tanto de tal mercadoria X vale outro tanto de outra mercadoria Y. Isso é conquistado na persuasão ou na força.

    O que eu acho impossível é falar de economia de mercado sem mais. Qual delas? Qual mercado? O Marx tinha um termo que ainda muito rico para criticar os pensadores que tratavam relações altamente estruturadas como relações espontâneas: a robinsonada (de robinson crusoé, que inventa uma mini inglaterra vitoriana egocêntrica naquela ilhota). Não por acaso, um dos limites do pensamento marxiano mais clássico (parece que o terceiro livro do capital iria tratar exatamente dessa questão, e do modo como está sugere esta discussão mesmo) é pensar que o capitalismo seria mais rígido do que ele é. Ele é elástico e assume várias formas.

    Quis no texto falar de quão pouco rigido são as formas de alocar riquezas e de distribuir o poder. Por isso, parece-me difícil falar disso como valor.

    No mais, obrigado pelo comentário e parece ser muito interessante este texto do Amartya Sen.
    abração
    PS: tá na argentina?

  6. Bicho, agora discordo totalmente.

    Mercado pode ter um monte falha e defeito, mas falta de espontaneidade não é uma dessas.

    Ninguém tem poder absoluto sobre o mercado. Mesmo que o sujeito seja o monopolista de um bem essencial, ele vai enfrentar uma demanda que possui limites. Alguém só vai decidir pela compra de alguma coisa, se o proveito gerado pelo bem adquirido for maior que o proveito gerado pelos bens a que ele renuncia. E o capitalista só vai produzir se os custos foram menores do que o que ele vai receber (ou do que ele iria receber em outra atividade alternativa). Fixar um preço realizar uma transação é um jeito das pessoas se comunicarem, é como conversar. Isso é um processo espontâneo e voluntário sim (o que, aliás, é um conceito bastante amplo e que pode comportar inúmeras formas, como vc defendeu).

    A única possibilidade de controlar tudo é abandonar o mercado. Uma economia planificada por uma OCP pode ter alguém com poder suficiente para determinar, exatamente, quanto um bem X vai valer em termos de Y (mesmo assim não vai ter como impor as quantidades a serem comercializadas, a não ser que se resolva confiscar a produção e matar a população de fome). Aliás, as tentativas mais interessantes de pensar como poderia funcionar uma economia socialista (coisa acho que Marx nunca fez) envolvem processos de imitação do mercado. Ou seja: o capitalismo não sobrevive, mas os mercados sim.

    Eu acho que o problema dos valores é justamente sua indeterminação (cada um preenche o conteúdo das belas palavras como lhe interessa). Feita a ressalva, esclareço que, para mim, mercado não é algo que possa ser defendido em si mesmo, não me parece ser um valor, mas, é um meio de realização da liberdade (um valor com relevância intrínseca), assim como a política/democracia é um meio de realização de outros valores (liberdade, igualdade, tolerância). É claro que não deve prevalecer sempre, que a liberdade consagrada nos mercados não é um valor absoluto, que pode entrar em contradição com o próprio valor (liberdade) que realiza (p.ex. mercado de escravos) e que pode ser, em vários contextos, superada por outras soluções, mas a gente deve estar ciente de que renuncia a um sistema que possui méritos quando opta por uma proibição, restrição ou imposição de uma conduta.

    Enfim, o dilema entre mercado e estado só existe porque ambas as soluções possuem qualidades e falhas. Se uma coisa fosse ducaralho e a outra fosse irrelevante não haveria questão.

    Continuo aqui, na Argentina, fazendo campanha pela permanência do Maradona na seleção.

  7. Digo mais, a falta de espontaneidade não é um defeito, mas uma característica. Aliás, como é característica de quase todas as instituições. Não consigo pensar em um mercado como você descreve, sem história, sem poderes constituídos para definir como as trocas são feitas e sem troca e medições de poder. O mercado é uma instituição, em cada lugar assume um sentido distinto.

    Por isso, acho sem sentido dizer que se realiza liberdade no mercado. Se realizam trocas. A liberdade na verdade, para mim, me parece algo menos idealista e mais cruel, é uma função do poder de um grupo ou de um indivíduo.

    Quando voc~e fala que ninguém controla o mercado só me explica que ele sofre transformação diante das tensões históricas que ele enfrenta, mas, convenhamos, não se trata de uma “indeterminação” só de medidas. Acho muito pouco convincente qualquer idéia redentora de liberdade.

    No mais não acho que os processos de definição de preço e de alocação no mercado sejam espontâneos. Até acho que são voluntários, mas envolvem a movimentação de estruturas históricas que precedem qualquer ação. Ninguém inventa a roda.

  8. Carlinhos, acho esse lberalismo muito idealista. Desculpe-me, mas o dilema não é etre estado e mercado, mais que isso, acho que o equilibrio (tênue) entre essas forças se dá na constituição de formas de poder sempre provisórias. O mercado não é a realização de uma vontade ou de uma vontade média, é a consolidação de um poder. Hoje, com as megaempresas e o papel acromegálico do marketing isso me parece cada vez mais evidente.

    Historicamente essa ação acaba por ter determinantes muito claras. Por isso, não penso como “o mercado” e “o estado”, são arranjos distintos. Acho que esses termos não podem ser essencializados. O mercado é um modo de organizar a alocação de mercadorias, mas que assume muitas formas.

    E essas determinantes são feitas na luta interminável pelo poder. Essa luta não significa supressão da ação voluntária, só em tensão. E quem pode mais ganha. Cabe quem não quer viver com violência estabelecer parametros mais distributivos do poder. Mas não acho que o Leviathan suspenda o estado de natureza, ele só monopoliza a força e diminui o número de agentes.

  9. Bem, acho que fui muito confuso, mas vamos lá. Antes de qualquer coisa, não sei nada de economia, li meia dúzia de manuais, os clássicos e livros de divulgação, mas como gosto muito de historia, história econômica, falo pelo pouco que conheço. Mas o que quero dizer é que não acho produtivo discutir em termos de Estado ou Mercado. Nas economias em que a alocação de bens acontece através do mercado, esse parece sempre ter alguma relação com o Estado.

    Hoje quase todo o mundo distribui suas mercadorias dessa forma, a questão seria saber como se dá essa relação, qualificá-la e descrevê-la com maior precisão. Então é ESTADO E MERCADO. Como entes de exercício de aspectos da vida social que SEMPRE estão coordenados de um modo ou outro. A economia de mercado idealizada pelo mais liberal dos liberais atribui papéis e poderes pro estado em nome de poderes pra iniciativa empresarial. São formas dos poderes inferirem sobre interesses mais diversos.

    Com democracia, também me parece pouco preciso falar dela em termos de valor. Bem, não tenho certeza quem eu apoiaria diante de uma democracia censitária. Em termos mais normativos poderíamos questionar quão democrático um regime censitário é — bem como quão meritocrático uma prova de méritos é, mas isso é outra questão.

    No mais, as vezes sinto que estou bobeando de responder comentários de gente que vem repetir o texto de colunistas aqui. Mas aí, vem um comentário desse como do Carlinhos, e os da Luciana, Rubens, Rafa e me de animo muito e aprendo muito

    Valeu Carlos. Por fim, estou com você nessa campanha

  10. Tiago,
    A dicotomia: o estado representa o conjunto inter-relações de poder, de comando, de ordem, e o mercado representa um conjunto de inter-relações de contratos, consenso, acordos voluntários. Acho que nossa discordância pode estar aí, nos conceitos.

    Obviamente uma coisa precisa da outra, como vc diz. O estado não consegue mandar em tudo e as pessoas não conseguem resolver espontaneamente todos os conflitos ou se auto-regular sempre (acordos podem prejudicar a terceiros, por exemplo, ou a falta de confiança no seu cumprimento pode impedir a ocorrência de acordos produtivos).

    Agora, quando como vc disse que uma economia de mercado não era um valor, eu concordei com vc, mas insisti na sua importância porque, se for irrelevante mesmo, a solução seguinte seria substituir, quando possível, as relações consensuais por relações de comando (o que eu discordo). As duas coisas estão presentes em todas as sociedades (até na URSS ou em um campo de concentração). A questão, então, é saber quê relações estão regidas por qual sistema.

  11. Carlinhos, eu não consigo entender mesmo essas relações de consenso e de acordos voluntários sem poder e sem força. Para mim, a descrição do mercado não pode estar associada a um sentido tão ideologizado. O Estado pra mim é o monopólio da força legitima (ou legitimada, se preferirem). O mercado é o espaço não dos contratos, mas um espaço estabelecido das trocas. O consenso que estabelece as trocas não é racional, mas baseado na tensão e no poder. Até no seu nascedouro, este mercado dependeu deste poder. Pôxa, a idéia de uma sociedade mercantil na idade média da europa desromanizada depende do estabelecimento de fronteiras e do estabelecimento de acordos (mais baseados no poderio militar que na racionalidade) de taxação.

    Assim, não sei se é a oposição entre um estado com sanha de arrecadação e um mercado solto, tentando um equílibrio entre a vontade do consumidor e a oferta do produtor. Isso você já sabe. O que eu não entendo é a equação que pensa a relação entre as duas instituições como mais ou menos presentes na economia. Para mim SEMPRE o estado se faz presente na economia, não só na regulação do poder econômico, as vezes como associado a esse poder. O que temos que pensar não é se o estado é mais ou menos presente, ele é presente, mas como ele está presente.

  12. Tiago, vou te dar um exemplo claro.

    – Você está na sua casa e tem vontade de ver um jogo de futebol. Você liga pra Net e pergunta quanto é o pacote do brasileirão. Eles te dão um preço que você não topa pagar. É caro. Prefere pegar aquele dinheiro e comprar uns discos ou ir a um restaurante ou sair com a moçada. Obviamente você só está decidindo sobre o que fazer com dinheiro somente porque o estado brasileiro o emitiu, garante que ele vai ser aceito como meio de pagamento e que existe direito de propriedade. O estado está presente, sem dúvida, mas a sua faculdade de decidir pela compra de algo, também.

    – Tem um sujeito, na Argentina que se chama Ramiro. Ele teria a mesma dúvida que você. Só que os clubes de futebol e o Estado Argentino entraram em um acordo pelo qual ele, o Estado, paga aos Clubes um dinheiro para disponibilizar o futebol de graça para Ramiro. De graça? Mais ou menos: ou Ramiro vai ter que pagar isso por meio de impostos ou os filhos do Ramiro vão pagar se o estado emitir dívida. Não existe dúvida, não existe escolha.

    É óbvio: o estado está presente nas duas situações. No entanto, não é difícil ver que o Estado retirou uma faculdade na pessoa no segundo caso. E, também, não é difícil ver que: 1) você somente assinaria o Brasileirão se a NET e você chegassem a um acordo voluntário, sem coação; 2) que não existe ESCOLHA no segundo caso, onde não há um mercado livre de compra de direitos de assistência de jogo de futebol pela TV; 3) que o estado argentino está indo além de garantir uma faculdade, uma possibilidade transação, está se colocando no lugar da economia de mercado no terceiro caso.

    Não existe ideologia no que estou dizendo, poxa. Estou descrevendo uma situação da maneira mais objetiva que eu posso.

  13. Carlinhos, até aí eu chego, o problema é anterior.

    Nos dois casos existe uma forma de equilibrar poderes que podem ser bons pra alguns agentes do mercado e mais ou menos desvantajoso para o poder público. O Estado não impõe nem o acordo que permite não mostrar nenhum jogo e nem o acordo que mostra todos os jogos, ele negocia ambos com outro poder constituído importante: o poder das empresas. É inocente supor que esses negociantes não atuem como parte de um poder político. As empresas não fazem o que fazem pelo poder da mão forte do estado. Muitas vezes o estado negocia com o lobby das empresas, muitas vezes atende aos seus chamados, outras, impõe vontades políticas que vão contra a vontade das empresas, mas não se trata de um mercado monolítico contra um estado monolítico, mas da luta entre agentes políticos.

    Por exemplo, não necessariamente, o hipotético acordo argentino supõe pagamento do estado. Estou chutado, mas de repente existe uma clausula legal que obriga as emissoras com concessão ceder os serviços. De repente., é um acordo vantajoso para as empresas argentinas e não para o consumidor, mas, de qualquer modo, se trata de uma relação de poderes que parece equilibrada. Assim como o poder das empresas brasileiras também. Bem, o caso é que a iniciativa privda também constitui os seus poderes, eles não são uma coisa só e eles não atuam, definitivamente, pro benefício do consumidor, mas o da empresa.

    Existem outras histórias que nos fazem pensar a partir do seu exemplo. O caso da Itália na última copa é um deles.

    Lá a empresa tomou o estado e parece tomar paulatinamente as outras empresas.

    A concessão de transmissão televisiva, por exemplo, não obriga que o grupo de televisão aberta e a cabo que contratou a copa do mundo transmita o campeonato. Assim, fora os jogos da Itália, todos as outras partidas (inclusive as rodadas finais) foram exibidas ao vivo apenas para os usuários do sistema de pay per view.

    Trata-se de um sistema de telecomunicações, como de boa parte do mundo, garantida por concessões do poder público. assim, ou se paga, ou ninguém assiste.

    Claro que é um contrato livre entre usuário e a empresa, mas o do vendedor de crack que domina uma região e do usuário também é. Agora,podemos dizer que o estado está ausente da economia neste setor?

    Eu acredito que não. É ele que garante esse poder à empresa privada. Mas aí poderiam argumentar, não existe escolha. Bem, mas aí foram as empresas que não seguraram a concorrência. A Ambev também faz todo tipo de terrorismo pra outras empresas não prosperarem aqui, tudo dentro das leis e tudo dentro da disputa de mercado, mas faz de tudo pra fazer o seu poder se consumar. Até compra concorrentes pra quebrá-los.

    Não sei se no caso do argentino hipotético isso seria de graça ou não, pois a emissora pode lucrar com publicidade e as leis de concessão de repente implicam cláusulas como essa.

    O que quero dizer é que em todos os casos o estado entrou como agente político bem como as empresas. Ambos procuraram o que era mais vantajoso para os agentes que atuavam em nome de poderes constituídos. Portanto, não acho que se trate de uma luta por fundamentos mais ou menos liberais, mas uma luta de poderes e interesses. Acho que esse dualismo estado versus mercado pode ser útil, mas muitas vezes me parece jogar uma cortina de fumaça que não permite entender relações mais concretas e históricas.

  14. Tiagoso,

    Dizer que a empresa pode cooptar o estado para buscar uma regulação favorável (caso da itália) e que o consumidor se beneficiaria da concorrência (casos do crack e da ambev), não é exatamente uma crítica aos fatores positivos da econômia de mercado, né?
    O fato de se atribuir valor a pulverização do mercado é um sintoma de que se confia nesses processos atomizados e não dirigidos.

    abs.

    Ps.: o caso da argentina foi como eu descrevi.

  15. Carlinhos, não sei se é ruim ou bom, mas será que nesse caso não foi um bom negócio pras empresas de telecomunicações da Argentina? Não se trata de pensar aqui no que é positivo ou negativo, mesmo porque esse tipo de avaliação me parece dizer respeito a uma idéia de ‘bem comum” que sempre me parece difícil de ser determinada. Acho que é parte da disputa, uns levam outros não.

    Sou um asno no assunto, mas não me parece que alguém faça esse tipo de proposta sem acordo. O estado é uma instituição ocupada por governos com políticas determinadas, o mercado também, com a diferença de que os seus agentes nem sempre têm os mesmos interesses (bem, no caso dos governos isso também acontece, mas é outro assunto). O que me parece pouco esclarecedor é tratar o mercado como um monolito que necessariamente tem interesse na concorrência sem interferência do poder público. Acho que tem esse interesse quando for útil pra ele, o resto é doutrina. Por isso, me interessa entender mais historicamente a razão de cada empresa.

    De resto queridão, o exemplo italiano foi só uma caricatura pra mostrar que se trata de uma relação de poder que mesmo que pareça vertical, muitas vezes se dá numa horizontalidade não imaginada. Abração e obrigado pelo papo (está muito bom)

  16. Sim, Tiago, funciona do mesmo jeito. Pra vc ver que mercado existe mesmo sem o Estado, contrariando tudo o que a gente disse acima.

    Mas, pro consumidor de crack, seria melhor que se regularizasse esse mercado e que a “Crack Incorporation” competisse com a “Crackev S/A” ou com o “João Oliveira Crack Ltda.-ME”. Além de baixar o preço, iríamos ter crack com aroma de chocolate, crack light, extra light. Tudo conforme a preferência do freguês.

    Mas, só pra reafirmar: desde o primeira mensagem estou dizendo que o mercado não é um monolito intocável (nada é), que possui falhas, mas que, por outro lado, realiza valores positivos (liberdade de escolha) e transmite informação relevante entre as pessoas. Ou seja, tudo, o que é bom e o que é ruim, tem que ser colocado na balança pra gente definir o que quer, pra saber se o quê deve ser feito ou se algo deve ser feito. Um exemplo ridículo que nos proporciona o Serra: se deve dar enxoval para as futuras mamães? Eu acho que não.

    Esclarecendo o caso argentino: havia um contrato pra transmitir os jogos por ppv. Se quebrou o contrato e o Estado e a AFA fizeram outro, com o Estado pagando 10 vezes mais, sob o argumento que “futebol é cultura”, para transmitir na tv aberta. A publicidade que rola é só oficial, do tipo “Cristina e vc, tudo a ver”.

    Depois a gente pode continuar a conversa ao vivo.
    abs.
    P.S: parece que o reloginho que marca o horário das mensagens está atrasado uma hora.

  17. Carlinhos, o meu ponto é exatamente oposto ao seu. Ninguém realiza valores positivos, a luta é por interesses, e para conquistar os interesses é necessário poder. Sendo assim, acho ahistórico dizer que necessariamente o mercado produz liberdade de escolha, pode produzir como pode não produzir.

    Não acho que seja positivo e nem negativo. Para mim, essa discussão mais mercado versus mais estado sem referência nenhuma aos diferentes contextos históricos, geográficos e sociais, não faz sentido. é só doutrina. Pelo menos eu não entendo. aliás, nesse caso, acho que a questão não é o que é positivo e o que é negativo, mas: positivo pra quem?

    Bem, alguns leitores aqui do blog, como Carlinhos, Demétrio, Herlon e muitos outros entendem disso mil vezes melhor que eu, mas me parece muito modelo pra pouca evidência empírica.

    PS: Carlinhos, tenho bode da política argentina em geral, ma marcaram um golaço com a aprovação do casamento gay.

  18. Saquei.

    Só pra esclarecer uma questão semântica aqui: usei realizar não como sinônimo de criar, produzir, mas no sentido de fazer operar. Meu ponto é que a livre escolha está no sistema, no próprio mecanismo de ajuste, preços e quantidades são escolhidos pelos agentes e comunicados aos demais.

    Na descrição do processo e dos seus possíveis resultados, a gente consegue debater objetivamente.

    Agora, acho que quando entra o papo de valor, não dá pra ser tão consistente mesmo. Se não existe alguém com autoridade pra definir os valores e dizer quais são, tudo vira “doutrina”, como vc diz. Não dá nem pra dizer que “liberdade” representa algo bom. São pontos puramente subjetivos. O problema é que, se não for assim, se a gente não tentar engolir os sapos que vêm amarrados no discurso, o debate ético fica impossível (e não faz sentido falar sobre o valor do mercado, da democracia ou de qualquer outra coisa).

    O casamento gay foi meio no susto. Mas pensando no assunto, acho que falta para os gays no Brasil a mesma mobilização dos evangélicos. Tipo: deveriam ir vaiar candidato que se diz contra o casamento gay. Acho que existem mais gays do que carolas no Brasil.

    abraços

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