Davi Bernardo – Nova Fronteira

falamos de Davi Bernardo aqui no Guaci, mas faltava escrever mais detidamente sobre o disco que ele acaba de lançar:  Nova Fronteira.

As composições do Davi soam frescas e novas, mesmo com a influência de clássicos da música brasileira como Tom Jobim, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Guinga e Edu Lobo. A cabeça aberta do Davi coloca esses nomes consolidados ao lado de artistas contemporâneos ou importantes para a história do rock como Brian Wilson, Beatles, Animal Collective, Captain Beefheart, Fred Frith e Fiery Furnaces. Sem forçações de barra e nem esforço de adequação. Tá tudo ali, lado a lado. E é nessa falta de bulas auto-explicativas que acho que mora o que mais me chama atenção na música do Davi.

Sua intimidade com as composições  vai muito além de sua formação como músico com diploma na mão. Aparece muito mais no fascínio que ele sempre teve como bom escutador. O autor de Nova Fronteira, desde menino, procurou desvendar tudo o que escutava, como se as notas, as distorções e os sons que saiam do seu toca-discos fossem uma língua estrangeira a se compreender.

Davi chegou a Pouso Alegre ainda bebê,  filho de músicos que vieram ser professores no conservatório municipal do interior e tentavam construir vida nova em Pouso Alegre, trazendo mais vida a pequena cidade. Sua cabeça  esteve ligada a música desde sua infância. Pensava em bandas e no trabalho de músico como brincadeira. Junto com o Corinthians, algumas bandas eram seus times e o motivo do seu fanatismo. Mais do que qualquer um na enorme turma de roqueiros de Pouso Alegre, Davi sempre me pareceu o sujeito que melhor tentava compreender a linguagem que todos escutavam.

Enquanto para a maioria dos garotos as distorções nos discos do Dinosaur Jr. ou do Thinking Fellers Union Local 282 pareciam formas inatingíveis que nem valiam a pena buscar, para o Davi aquilo ali era um pote de ouro a ser buscado, custe o que custar. Só se poderia entender o que eles estavam falando entendo a maneira como eles construíam suas canções. E assim foi também com os Beatles, com Coltrane, Miles, Jimmy Hendrix, Fred Friith, Edu Lobo, Tom Jobim e muitos outros…

Davi confiava na persistência e no tempo, uma cabeça muito distante da urgência e da ansiedade de fazer dos seus amigos que partiam pro rock (como eu) mais na base do instinto do que na reflexão.

Por isso, Davi se trancava em seu quarto e por horas media os acordes, decorava as letras e memorizava os arranjos de suas paixões musicais. Eu acredito que esse jeito tão profundo foi o que levou ele a demorar tanto tempo a começar a compor. A música Nova Fronteira que dá nome ao seu disco é muito mais significativa do que parece. Indica o caminho de colocar estruturas melódicas que dialogam com todo esse passado musical e, principalmente, com uma vivência coletiva.

E as letras dizem muito disso, das paisagens à matita perê de Nova FronteiraErrante, ao lirismo urgente de Dia pela noite e Teresa, passando pela reflexão de Boa Morte. Tudo entremeado com arranjos exuberantes que não têm medo de errar e com um compromisso de não se acomodar aos formatos persistentes nas produções atuais da MPB.

Se a melodia pode ecoar a riqueza harmônica mineira dos anos 70, o acompanhamento cheio de paisagens sonoras e estruturas traz o trabalho de Fiery Furnaces e Animal Collective a nossa memória. As declarações de amor e as belas melodias surgem de estruturas fragmentadas e complexas.

Necessariamente autoral , Nova Fronteira é o resultado de um extenuante trabalho de estúdio em que Davi Bernardo captou e executou quase tudo que se escuta ao longo de seus quase quarenta minutos. Por mais de um ano (entre setembro de 2008 e novembro de 2009), ele exercitou todos os ofícios de músico, arranjador, compositor e técnico de estúdio e voltou a sua cotidiana reflexão musical. Dessa vez em um ofício que não tinha nada além de suas composições como base e algumas letras de seus amigos.

Mesmo cercado de um universo tão cheio de referências, a música do Davi  chega com uma voz muito única que ainda tem muito a descobrir, mas que já se mostra em uma riqueza de possibilidades e de pontos de vista que foge às interpretações mais rasteiras. É uma reflexão muito profunda de alguém que buscou uma voz sua a partir de uma reflexão prática a partir de um repertório gigantesco. O disco vale muito a pena e deve ser escutado várias vezes.

12 comentários sobre “Davi Bernardo – Nova Fronteira

  1. Show no Teatro Municipal de Pouso Alegre dia 27 de agosto com balada dançante depois. Compareçam todos.

  2. Enquanto aguardo ansioso ouvir essa obra, conto com Pouso em Alegre circa 27/8, para casal liberado e disposto para a alegria! ;-P

  3. Poxa, tbm quero ouvir! Só fico degustando no myspace! =/

    Se eu tiver como ir para Piei na época, certeza que vou no Teatro vê-lo! Parabéns, Davi! Vida longa ao que é feito de bom e a tudo o que ainda virá!

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