As pessoas na sala de jantar, por Walter Hupsel

O nosso amigo Walter Hupsel, também conhecido como Salvador por causa da sua terra natal, é chapa das antigas do pessoal do Guaciara. Colega de faculdade do Tiago é um interessado nas teorias sociais, na ciência política, em rock e mais um monte dos assuntos que a gente trata aqui no blog.

Recentemente, começou também a escrever uma coluna semanal no Yahoo! e o texto que ele escreve diz muito sobre um problema muito comum a muitas pessoas que escrevem para os grandes portais: a farta distribuição de ofensas nas caixas de comentário.

Ao invés de ser um espaço para debates e aprofundamentos, o espaço vira uma guerra de desqualificação que no limite tem como objetivo a anulação dos argumentos contrários.  O texto abaixo nasceu de uma conversa nossa sobre virulência nos comentários. Leiam, o Salvadô pode explicar tudo isso bem melhor a vocês.

Depois, é correr pra internet!

As pessoas na sala de jantar, por Walter Hupsel

É a primeira participação no Guaci, fora dois comentários perdidos em posts antigos. Blog que sempre acompanhei pela qualidade dos seus textos, pela pluralidade, pela amizade dos cabras daqui.

Publico aqui uma pequena reflexão, despretensiosa, motivada pela bizarrices dos comentários que leio sempre nas minhas colunas do Yahoo! E por algumas conversas esparsas com o grande Lauro que teve o estalo de cunhar, também despretensiosamente, a expressão que me apropriarei a partir deste momento: as pessoas da sala de jantar.

Uma coisa que sempre me incomodou foi a “personalidade autoritária”, pessoas que anseiam impor às outras seu modo de pensar, seu mundo preto e branco. Não admitem a menor liberdade fora desta caixinha, nem pluralidade de visões e muito menos de “estilos de vida”. Acho, sim, que estamos retrocedendo no tempo e cada vez me vejo mais perto de Weimar.  Pessimismo tosco? Talvez, mas os comentários aos meus textos reforçam esta minha visão escura e sombria.

Pra quem não acompanha minhas colunas no Yahoo! Uma breve sinopse: escrevi duas colunas sobre o problema das drogas, uma defendendo eticamente a liberdade de seu uso e outra sobre como isso foi pauta de uma política externa intervencionista dos Estados Unidos, que usaram o “medo das drogas” – claramente ligados a etnias ou países, como fonte de legitimidade das suas ações internacionais.

Pretendia escrever mais uma, sobre a violência interna do tráfico, a corrupção que gera, a “guerra” urbana, mas abortei o projeto por dois motivos: 1) não queria ser visto como o colunista de um tema só e 2)a saraivada de projéteis disparados contra mim, com teores que fariam o General Custer parecer uma Dercy Gonçalves.

Este texto está na gaveta, e será publicado um breve.

Depois escrevi sobre nossa querida elite, que se encastela cada vez mais e, logo na sequência, este sobre nossa pena de morte informal, quando a polícia faz o trabalho sujo e a população aplaude!

Sempre cheios de ódio, de passionalidades e de falta de reflexão, os comentários fariam minha vó temer por minha vida. Posso até ouvir a voz dela pedindo pro querido neto dela parar de tratar destes temas. JURO!

Foi neste contexto, de completa perplexidade, que conversei com laurose. Indagando conjuntamente “Que porra é esta?”, “da onde vem esta galera?” que vieram duas constatações:

Nós, pessoas da elite cultural/intelectual, criadas dentro dos muros das escolas particulares e das universidades, não conhecemos o povo brasileiro (perdoem minha abstração… povo?)

A segunda, decorrente desta constatação em certa medida até que óbvia, é uma tentativa de entender o que está se passando, ou, “quem é esta galera?”.

Cunhamos (já roubei!!!) a expressão “pessoas da sala de jantar” em referência óbvia à musica dos Mutantes.

Quem são estas pessoas, as da sala de jantar?  São aquelas que sempre existiram, mas nunca tiveram oportunidades de se expressar, que emitiam seus comentários apenas no almoço de família na casa da vó.

Entre iguais, numa caixa de ressonância, suas opiniões reverberavam, a ponto das opiniões virarem verdades inabaláveis. “Ora, como alguém pode pensar diferente?”

Agora, com a internet e uma certa “popularização” da banda larga, elas aparecem, aparecem e soltam suas vozes, suas verdades.  Desacostumadas com o debate (pois nunca o enfrentaram), vêm o outro cheio de ódio, e, tal como crianças, partem para a agressão e desqualificação do “adversário”.

Este fenômeno é interessante e merece mais atenção, coisa que não sou o mais indicado a fazer.  O fato é que a internet trouxe microfones pra esta galera, e nosso dever é ouvi-las, até mesmo para nos conhecer melhor, saber o que é de fato o Brasil, saber mais sobre quem é a nossa classe média. Saber um pouco melhor quem são as pessoas da sala de jantar.

Quem são estas pessoas, as da sala de jantar?  São aquelas estão ocupadas em nascer e em morrer.

13 comentários sobre “As pessoas na sala de jantar, por Walter Hupsel

  1. Freud faria uma festinha por aqui.
    Gosto MUITO dos textos do Walter, meu baiano exilado favorito… rs.

  2. É triste a falta de disposição em argumentar somada a facilidade em ofender, xingar e até criar depoimentos difamatórios falsos! Triste demais. 😦

    Mas os textos do Hupsel são realmente sensacionais! E acho que apesar da reação, as pessoas acabam refletindo – ao menos uma parte… (quero acreditar).

  3. Me espanta muito a tendência autoritária dos comentários, como o Walter falou quase-Weimar. Será que é só essa necessidade de expressão unida à falta da prática do debate? Falta de educação? Não sei, mas é uma coisa para se ficar atento, já que esses espaço acabam configurando um pouco das relações e da opinião pública. É curioso.
    Salve os Mutantes!

  4. Apenas pra somar: das críticas e posicionamentos os que mais me impressionam não são os violentos, mas os desqualificadores. Pedir um pouco de razoabilidade ou escrever sobre a necessidade de respeitar o outro é facilmente desqualificado como “papo chato”, “moralista” e por aí vai. Essa é a violência maior em qualquer debate, na minha opinião.

  5. Olha, se serve de consolo, havia lidos seus dois textos sobre as drogas e eles foram amplamente discutidos em duas listas que participo. Nem cheguei a olhar os comentários. Acho que o primeiro blog ao qual atinei aos comentários foi aqui, até porque conheço 80% das pessoas que comentam, fica parecendo um papo de boteco virtual.

    Mesmo quando tinha um blog com certa audiência, nunca me importei com os comentários – ainda vivíamos a web 1.0 etc etc.

    Falando de um ponto de vista pedestre, eu sempre me espanto com a violência real e virtual e a falta de consideração ao outro. Tive a felicidade de ser professor por quase dois anos e viver em contato com adolescentes, ver como eles reagem à argumentações um pouco mais elaboradas do que um raciocínio de TV. E gostava de provocá-los. Uma coisa a qual logo me atinei foi a um racismo invísivel mas quase pleno (falo de cidades no sul das Geraes) que me dava uma depressão foda. Por outro lado, prefiro não cansar de me surpreender, positivamente, com as poucas coisas legais que vivi entre a molecada, de gente preocupada em pensar o mundo e às vezes até tentar melhorá-lo. É uma felicidade igual a quando nos deparamos com um texto legal n Yahoo, sabe? Não acredito que estamos perto da República de Weimar, agora, o fascismo é um lance sempre presente com maior ou menor ressonância. Por isso sempre admirei/apoiei as pessoas que ficam alertas contra isso.

  6. Este tema é muito legal e urgente!

    Ultimamente, por um repouso forçado, passei a ler muito os comentários de notícias, colunas e blogs na internet e – como deve ser comum à maioria deste blog aqui – fico cada vez mais chocado.

    Tenho acesso particular à internet desde 1996, uma época em que eu era o único do meu meio a usar seus recursos. Vivi a época dos BBS e das primeiras salas de chat, passando pelo IRC, depois ICQ e depois fóruns de música, política e futebol em diversos tipos de protocolos e redes. E senti desde o início o mesmo prazer que a galera tinha – diante do anonimato e de um avatar fantasioso (o tanto quanto se queria) – de ser um ator, de testar idéias, capacidades, de brincar com desconhecidos, arrumar sexo e até romances impossíveis. 😉

    E sempre, mesmo no início quando o ciberespaço era só nerds e geeks, o que ficava claro era que todos os ambientes virtuais era meio vaso sanitário e meio divã das pessoas. Vivi com amigos virtuais e reais batalhas verbais gloriosas e, claro!, sofri agressões também impressionantes. Acho que conheci bem um “Povo” (Hupsel) que não teria oportunidade só na base do Pop Pastel (encontro de tribos em BH).

    Espero que o papo aqui renda pra ver se me lembro de exemplos interessantes para análise e debate. Talvez eu tenha alguma utilidade na pesquisa, pela experiência intensa de uma época de descobertas, de html 1.0, de ataques a sites famosos, de captura de senhas, de fotos de pedofilia que surgiam livremente nas suas pastas sem sua permissão… Acreditem, o controle hoje evita m&rd@ muito maior!

    Por enquanto, sigo a deixa da Marjorie e registro que também ando preocupado com a crescente onda dos “contra os “chatos” politicamente corretos”. É muito fascismo!

    Abraços! Parabéns Walter e Guaci, mais uma vez!

  7. Politicamente incorreto é um eufemismo pra racista, sexista e homofóbico. É uma forma PC da extrema direita se referir a ela mesma. Assim como a correção política, por meio apenas de uma correção ortográfica, queria diminuir o grau de ofensa, os saudosos da escravidão no Brasil agora se referem a si mesmos, para evitar a agressão eles próprios, de “politicamente incorretos”. Autor racista, batata: politicamente incorreto. Locutor machista: politicamente incorreto.

    Aqui no Ágora o Ricardo discute o texto do Salvador: http://agora.opsblog.org/2010/07/onde-ou-quando-comeca-um-debate-2/

    Muito legal a participação de todos aqui. Muito obrigado

  8. Hupsel, eu que estudo filosofia sempre me lembro da definição kantiana de espaço público e espaço privado: ele defende um texto crítico, mas condena a desobediência -em uma universidade, por exemplo. A sensação que eu tenho com essas pessoas da sala de jantar é essa: questionar a ordem, fazer uma manifestação em praça pública, tudo isso é deplorável. Mas xingar outra pessoa na internet é ok, porque afinal, existe a “liberdade de expressão”. E “viver democraticamente” é fazer uso da liberdade de internauta que sai xingando, humilhando os interlocutores. Que o Kant desculpe a leitura rasa, mas eu nunca engoli essa história…

  9. Oi Walter, tentei mandar um comentário sobre um texto seu no Yahoo, não sei se consegui, mas concordo em que o futebol tem que ser arte e divertimento, desde a hora em que a gente destroça o jardim da mãe jogando com os primos (foi o meu caso, jogando com o pai do Lauro e do Tiago, e tive que cortar o cabelo no natal de 1974 por isso) até quando é a hora de uma grande final, como esperamos todos que seja Espanha e Holanda. Bom jogo!

  10. children, não nos desesperemos. cada vez mais lemos comentários de anônimos que deveriam ocupar o espaço do autor do texto.

    Arthur, sento sempre quando possível ao lado dos adolas no metrô há anos. Curto demais o vocabulário, visual e temas da molecada. Uma das tristes conclusões que chego é a seguinte: me dão medo quando andam em bando nas ruas, ameaçam a integridade física de qualquer um, principalmente de idosos e mulheres. O líder do grupo sempre se exibe para os demais camaradas de uma forma muito agressiva. E não estou me referindo a nenhuma classe social específica. Também tenho fé na zuventude.

  11. André,

    sou eu mesmo… valeu pela leitura e pelos comentários, aqui e lá. E viva o futebol moleque, que custam cabelos e madeixas mas legam alegrias!

  12. olha só a pérola em um texto meu para o canal contemporaneo: “Rafa meu caro! Que texto cabeça… confesso que li por alto, mas tem boas passagens. Porém um pouco prolixo. Seja mais sintético, meu amigo, escreva menos para as pessoas lerem mais. Quanto à Bienal, veja o que escrevi no comentário do texto do Alberto Simon.
    ab
    Antonio Malta” hahahahah! muito bom! acho que é isso: a doença contemporanea do EXIBICIONISMO. a minha vizinha não consegue chegar do supermercado e não contar para o prédio inteiro como foi a aventura. as pessoas tem opinião de tudo, mas não querem se informar sobre NADA.
    a por ellos españa!

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