Ninguém mata o futebol, por Rafael Campos Rocha

Heitor contra Aquiles

O Brasil perdeu e não parecia tragédia nacional. Ninguém se acostuma, no Brasil, com Copa do Mundo sem drama. Tem que ser ou um papelão como em 2006 ou uma euforia como em 94. Ou uma tragédia mesmo, como em 82.

Na África, um time metódico e que se abstinha de brilhar (até porque o único jogador de ataque brilhante, acostumado a ser o responsável por todos os times que passa desde os 19 anos, não está em grande forma física), foi derrotado por um time mais metódico e que está realmente se abstendo de brilhar para ganhar a sua primeira Copa. Ponto. Felipe Melo fez o que se esperava dele, Robinho idem. Sneijder também.

Mas isso era porque o Brasil não veio nessa copa para ser protagonista. Terminado o jogo, duas horas depois, a maior batalha, o jogo de futebol dos meus séculos foi travado unha a unha, canela a canela na cidade de Joanesburgo.

Impossível escolher dois adversários mais simpáticos: africanos em sua casa lutando para resgatar o orgulho de um continente versus uma senhora adormecida à quase um século, o berço do futebol-arte, encostado na prateleira da historia. Mas não na lata de lixo. O Uruguai chegou nessa copa para dar prazer, oferecer seu corpo em holocausto. Para quem acha que essa coisa de massacrar timinho é um porre e gosta de mesmo é de futebol. Gosta de ver uma luta, não uma surra. E uma luta é que foi presenteada para todos os mortais que ligaram a TV nessa tarde de sexta-feira.

Pra quem gosta de livro velho, a Ilíada é desse tipo de história emocionante, em que somos tomados por uma coisa muito maior que o orgulho nacional, ou qualquer um dos chauvinismos que atrapalhou todas as suas versões posteriores da história no correr dos séculos. Lá não tem vilão – no sentindo de vileza – todo mundo é honrado e corajoso. Todos são heróis. Para derrotar Heitor só Aquiles. Para derrotar Aquiles só o infalível Paris. Sua primeira flechada no baixo ventre de Helena levou o grego a contragosto para Tróia, somente para tomar a última e única flecha disparada pelo troiano durante toda a guerra e mergulhar seu rosto no pó. A Ilíada é do caralho. E o jogo Gana e Uruguai não fica atrás.

Começa o Uruguai atacando e o excepcional Forlan – um homem que já tinha transformado um modorrento Uruguai e Brasil em um maravilhoso 3 x 3, no início do milênio – mostrando que vem para uma Copa do Mundo para levar adiante, continuar a escrita do futebol para além dos conchavos escrotos da burocracia capitalista da FIFA, CBF, GLOBO e toda essa caterva. Forlan foi pra África para jogar futebol. E se não tem o talento exuberante de um Özil, de um Messi, de um Kaká, tem a paixão pelo Jogo (não o prazer, a paixão), naquele sentido alto, desobrigado e desinteressado que o Jogo tem. O Jogo é a própria sublimação, é o evento civilizatório por vocação. É o símbolo pragmático da paz na espécie, do conjunto de elementos contra a adversidade da natureza. Foi assim com a Grécia arcaica, e é assim até hoje com os homens, as hienas e os guepardos.

Mas as tentativas sul-americanas não surtiram o efeito-gol e os ganeses, liderados pelo incansável Boateng, encurralaram os celestes em seu campo, até que a sensacional bola Jabulani fez mais um gol na copa, pelos pés de seu títere da vez: Muntari. Sem mística, meus caros, não existe épica.

E como toda épica, essa Copa também tem a sua herança. E nosso herói Forlan, filho de lendário Pablo Forlan, volta a colocar o Uruguai no jogo pelo mesmo artifício de Muntari: apela ao grande espírito de Jabulani e – como na Ilíada – os Deuses se sacodem atrás de um favorito.

Mas o mais espetacular, o elemento essencial da épica tinha que vir: o sacrifício. O atacante em grande fase, o óbvio aspirante a artilheiro da copa do mundo defende no último segundo de jogo uma bola com a mão, dando a chance de um pênalti contra o Uruguai. Se fosse gol, o gesto de Suarez não passaria de um momento desesperado. Um sacrifício inútil como os pobres-diabos que vão queimar seu coco nos desertos árabes ou seus corpos nos edifícios de Manhattan.

Mas o artilheiro ganês na Copa, o panzer Gyan, errou o pênalti. E Uruguai foi para a prorrogação. Temos um vilão? Gyan? E quem vai cobrar a primeira penalidade na disputa final, depois de duas horas de futebol frenético e incansável? Ele mesmo. Macho pra caralho. E converte. O resto é história. Pênalti aqui e ali, Uruguai nas semi-finais. Podia ser oposto, tanto fazia. Aqueles 22 caras provaram que ainda é um mundo bom, jovem e forte pra se morrer nele.

13 comentários sobre “Ninguém mata o futebol, por Rafael Campos Rocha

  1. Vi o final desta batalha épica. Foi demais! O Rafael conseguiu pinta-la brilhantemente. Parabéns!

  2. Gostei da mão do Luicito Suarez. Exemplo da metis dos gregos, os estratagemas astuciosos para driblar os deuses. E diferentemente das mãos de Luis Fabiano, Henry e Maradona, foi punida no jogo, mas fez a diferença.

  3. lindo lindo. como o jogo. chorei de emoção, como se houvesse ganho uma luta, não uma briga.

  4. foi um jogo memorável, emocionante, pra ser lembrado durante geraçoes e o Rafael capturou esse sentimento de um jeito brilhante.

  5. Somente um reparo ao texto do Rafael: o título poderia ser “Ninguém enterra o futebol”.

  6. o jogo foi foda mesmo…. e o texto ficou excelente!! lendo agora fui montando os lances na minha cabeça de novo… que foda

  7. E o penal do Loco Abreu? Foi foda demais… o bobo da corte dando o tiro de misericórdia.
    Aguante Uruguay con alma tricolor!

  8. Rafael, aqui vai o elogio supremo (espero que vc entenda): vai tomá no cu sô…

  9. Depois de ver um Brasil que não emocionou e implodiu depois do Felipe Melo começar a fazer bobagens, foi maravilhoso assistir Gana x Uruguai. O final foi de arrepiar, mas o texto do Rafa foi simplesmente sublime. Valeu!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s