“pássaros marrons-acinzentados do tamanho de galinhas trotando entre os arbustos em grupos de dois ou três”*

korhaan

Na semana passada, os professores aplicaram a prova regimental. É o momento em que eles enxergam o fim do semestre. Embora ainda esteja um pouco distante, agora surge no horizonte. O Professor fica menos apreensivo que os alunos, mas não muito. Chega à sala de aula na hora, espera os estudantes se acalmarem, inicia as instruções e entrega as questões e a folha de prova de acordo com a ordem numérica da lista de chamada.

Age como um balconista de cartório: organiza pilhas de papel e entrega as folhas que devem ser preenchidos. Depois de responder as perguntas, os estudantes entregam os formulários para o professor que os arruma de acordo com a ordem preestabelecida.

Entre uma coisa e outra sobra algum tempo. Durante toda semana, escolheu um livro e o leu de cabo a rabo. Resolveu escrever uma resenha sobre um pedaço curto, escrito em alta velocidade. Eu parafrasearei o que ele disse.

Leu de segunda a quinta, em intervalos de 3 horas, Infância de J.M. Coetzee. Havia acabado Verão, do mesmo autor, e estava empolgado. Como conhecia Juventude, foi ao livro que deu origem à série. O escritor é da África do Sul, a Copa do Mundo é na África do Sul. Em uma dublagem, Coetzee (que se pronuncia cutziih), disse que gosta de sabonetes Phebo e detesta estar em açougues. No livro, ele falava dele mesmo na terceira pessoa, mas não pareceu magnânimo e não pareceu  maluco.

Na terça feira, lá estava o professor, em sala de aula, sentado de costas para o quadro negro às dezenove horas e quinze minutos. Enquanto os alunos redigiam as suas provas, ele olhava para o seu caderno e tentava descobrir que diabos era um korhaan.

Sabia que era um bicho. Um bicho sul-africano. Um bicho que gagareja, mas duvidava. Talvez ele não fosse um bicho sul-africano, mas um que existe na África do Sul. Como a Copa, “na África do Sul”. Nenhum bicho é sul-africano. Entre os bichos não existe nacionalidade. Bicho é bem louco, nem sabe que é bicho. Não sabe porra nenhuma. Bicho não deve saber nem nem que os outros animais pertencem a espécies diferentes da dele.  As vezes sabe, outras vezes não.

Contaram pro professor duas coisas sobre isso: A primeira é que cachorro pensa que o pessoal que mora com ele faz parte de uma mesma matilha. Não só os outros cachorros. O dono dele, a mãe dele, a mãe do dono, a mulher, os amigos e amigas mais próximos, até um gato. Outra história veio da internet. alguém contou que depois daquele tsunami muito famoso, uma tartaruga criou um hipopótamo que havia se perdido da sua família. Hipopótamos não gostam de família, querem ficar sozinhos com água até o focinho.

Depois que entregaram as duas primeiras provas, ele havia avançado na leitura. Queria saber o que era Paawn. Poucos minutos depois, que raios é um muisvöels, o que é skaapstecker. Mas a segunda dúvida teve vida curta. Pois já na página seguinte soube que não precisva saber o que era aquilo. Já sabia demais. O autor lhe contou que “as cobras se casam para toda a vida, (…) quando se mata o macho, a fêmea vem procurar vingança” (COETZEE, Infância, p.86).

*o trecho é do livro supracitado

11 comentários sobre ““pássaros marrons-acinzentados do tamanho de galinhas trotando entre os arbustos em grupos de dois ou três”*

  1. elegante e imponente o korhaan, faz lembrar uns passarões que aparecem aqui na barra do sambaqui… gostei bem de seu texto, e me lembrei de que você me presenteou, há uns natais atrás, com “desonra”. na época achei admirável, fiquei lendo um dia todo sem parar. beijos, saudade.

  2. agora vou ter que parar com os do Conrad e ler esse fulano aí pra ter o que prosear… em terceira pessoa!

    mas fiquei na pilha mesmo de ler um do Irvine Welsh que saiu no Brasa e vi numa livraria…

  3. Porra Pedro, parabéns, que massa! Será que depois rola de mandar a resenha pra gente publicar aqui no Guaciara. Tb gosto muito do Bolaño. Massa demais.

  4. O Coetzee é bem legal. Esse texto na verdade poderia participar do concurso Yngwie Malmsteen de comentário de livro, mesmo assim seria reprovado, mas como tenho postado pouco, achei massa colocá-lo no blog. Pedro, agora fui eu quem ficou na fissura de ler a resenha. Se você não nos mandar, amanhã copio do blog da Companhia e posto aqui.
    Agora, Claudis até o mês que vem conheco o bendito sambaqui.Muito obrigado pelo que você e o Gilson falaram, tocaram o coraçãozinho desse que responde. Claudis, eu também adoro o desonra, acho que é o livro do africânder que eu mais gosto.
    abração e muito obrigado a todos

  5. Tem louco pra tudo. A inignação pela perebice é maior do que tudo. Já jpa a Veja publica uma matéria sobre o subdesenvolvimentismo do futebol.

    O engraçado é que nem EUA, nem Cuba e nem Venezuela têm um time que presta.

  6. Lauro, já a Coreia do Norte manda bem no chamado “ferrolho”. Sem falar na Bolívia, que vive ganhando na altitude.

    Na minha opinião, esse “diagnóstico” da Fox era a gota d’água que faltava pro Lula declarar guerra contra Morales (afinal, além de tudo o mais, trata-se de um país aficionado pelo balompédio), mas ele obviamente não vai querer atrapalhar o seu projeto pessoal de criar a União das Repúblicas Socialistas Bolivarianas da América do Sul, e Caribe.
    Sorte nossa que José Serra é o homem que tem coragem de fazer coisas que precisam ser feitas (haja vista a rampa antimendigo), e vai mandar bala nessa indjada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s