Real Politik no dos outros…

Um texto no NPTO sobre PIB e eleições me levou a pensar  sobre a aliança PT-PMDB em Minas Gerais, a partir do cala-boca que os petistas mineiros receberam. É claro que o apoio ao Hélio Costa sinaliza um fechamento das contas eleitorais entre os dois maiores partidos da base governista. Foi o PT anunciar o apoio  e o candidato pemedebista ao governo de Santa Catarina, Eduardo Pinho Moreira, fechou com a Dilma. Quase no mesmo dia, o PMDB do DF declarou chapa conjunta com o petista Agnello Queiroz. No Paraná e no Pará, tudo indica que a história vai se repetir.

Mas eu acho que a decisão de jogar o PT de Minas aos leões vai além da composição com o PMDB. O apoio a Hélio Costa tem mais um destinatário: Aécio Neves. Tudo que Lula não queria era uma campanha que reproduzisse a disputa nacional em Minas Gerais.O presidente sabe que um concurso eleitoral de popularidade entre ele e Aécio no Estado poderia tirar mais votos do que uma polarização meramente regional (e olha que o Lula ia ganhar o troféu de popularidade com folga). Por isso, sua insistência em não lançar ninguém do PT.

Para Aécio o acerto também funciona lindamente. Tudo que ele queria era o Pimentel fora da disputa em MG. O petista tem uma imagem muito colada no ex-governador (que o chamava de “meu prefeito”) e essa proximidade certamente poderia embolar a continuidade de seu projeto em Minas. Lula também sabia disso e não queria a popularidade do candidato ao senado pelo PSDB contra a candidata do PT.

Mais do que entregar a candidatura ao PMDB, com essa chapa, o PT parece que entrega o governo para o grupo aecista. Em três meses, Helio Costa já perdeu 20% de seu eleitorado percentual. A ladeira abaixo é certa e o candidato pemedebê se bobear fecha a eleição com menos de 20%. Dificilmente o eleitor do PT (como eu), vai votar no Helio Costa. O sujeito tentou sabotar a Confecom, participou do tal evento do Instituto Millenium, ele que fique lá no Grupo Roberto Marinho com os dele. Meu voto não tem. O Anastasia também não tem. O Aécio que não é bobo nem nada, tá careca de saber isso e já comemora. Ficou difícil do professor “choque de gestão” perder.

Se eu fosse de um PC do B ou de um PSB da vida, tratava de lançar um candidato, por mais fake que ele seja. É a chance de engordar bastante a participação no eleitorado. É a chance de milhões de mineiros terem em quem votar.

Volto ao tema das alianças e acho que ela indica uma estratégia do Lula para um novo modelo de governabilidade. Parece que o presidente aposta suas fichas em duas disputas: o executivo federal e o Congresso. Como mostra o perfil de Michel Temer na Revista Piauí, todas as encrencas nos dois mandatos do Lula nasceram no Congresso (mais no Senado) e na dependência da base fisiológica.

O PT, dessa forma, ignora as disputas estaduais e se concentra no legislativo federal. Pra se ter uma idéia, nas eleições de 2002, o partido tinha candidato a governador em praticamente em todos Estados (menos em Roraima). Oito anos depois, vai reduzir suas candidaturas a Acre, Bahia, Mato Grosso do Sul, Pará, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina (que ainda não é certo), São Paulo, Sergipe, Tocantins e Distrito Federal. O número de candidatos caiu de 26 para onze em oito anos.

O PT se esforça para  eleger o máximo de senadores e deixa os executivos estaduais aos aliados. Do ponto de vista da governabilidade, tal estratégia parece ter a ver com o que escreveu Luiz Werneck Vianna no Valor há uns dias atrás:

Se Dilma pode ser eleita pelo lulismo, não poderá governar com ele, na medida em que ele é atributo intransferível do carisma do seu inventor. Ela terá de governar com o PT e com a coalizão política que a eleger, na qual está o PMDB, com um dos seus cardeais instalado na Vice-Presidência da República.”

Discordo de vários pontos do argumento do cientista político gramsciano e o texto rendeu uma conversa legal aqui.  No entanto, eu acho que a estratégia de Lula responde a essa necessidade de construir uma base de governabilidade muito forte no caso da eleição da Dilma ou uma bancada poderosíssima em uma (cada vez mais remota) vitória da oposição. A ação de Lula também responde ao argumento do Luís Felipe Alencastro, em entrevista também ao Valor, em que ele expressava o medo do governo Dilma se tornar refém das artimanhas do PMDB no Congresso, tentando garantir uma massiva presença petista no Congresso Nacional. Na entrevista ele dizia:

O que me assusta é a ideia de ter Michel Temer como vice-presidente. Ele é deputado há décadas e foi presidente da Câmara duas vezes. Controla a máquina do PMDB e o Congresso à perfeição. Vai compor chapa com uma candidata que nunca teve mandato e é novata no PT. O presidencialismo pressupõe um vice discreto, porque ele é eleito de carona, para trazer alianças e palanques. Aos trancos e barrancos, instaurou-se um sistema presidencialista que tem dado certo no Brasil. O fato de haver dois turnos, associado à integração do vice na chapa do presidente, deu estabilidade ao sistema. Foi assim com Fernando Henrique e Marco Maciel. Foi assim com Lula e José de Alencar. Dilma e Temer formam uma combinação inédita: uma candidata até então sem mandato associada a um político cheio de mandatos e dono do PMDB, que é o maior partido do Brasil, mas nunca elegeu um presidente e vai com sede ao pote. O PMDB pode estabelecer um vice-presidencialismo, com um papel de protagonista que seria descabido.”

O olho de thundera político do Lula vai muito além do meu reduzido alcance blogosférico e o PT tem mais é que construir uma base poderosa para não depender da rapa sinistra para aprovar projetos que ficam voando na morgação interesseira do Congresso. Só assim tudo que é falado em programas eleitorais pode virar verdade. No entanto, tenho minhas dúvidas sobre a eficácia de tal posição. O que me assusta nessa estratégia é que a falta de candidatos majoritários tende a enfraquecer bastante a legenda nas candidaturas legislativas. Tudo bem que o 13 vai estar na TV dia sim, dia não com a Dilma. O problema são os dias não em mais da metade dos Estados brasileiros.

O presidente do PT/MG, Reginaldo Lopes, parece dar o primeiro sinal da postura do PT nos Estados. Nas eleições proporcionais (para deputados estaduais e federais) o PT sai sozinho em Minas e assim não tem de carregar partidos menores com seu poderoso voto em legenda (de acordo com última pesquisa Ibope o partido tem simpatia de 30% dos eleitores no Brasil). Com isso, passam as chances de eleição de PCdoB, PR, PSC e congêneres para os cabeças de chapa da eleição ao governo estadual (no PMDB, no PDT, no PSB e assim por diante).

Pode ser até uma solução, mas não resolve um outro problema muito grave que pode afetar o PT muito em breve, a desmobilização das bases. A intervenção federal no PT do Rio liquidou as chances do partido no Estado. Em Minas Gerais, a ação pode ter o mesmo resultado. A falta de um candidato em quem votar é um choque de desilusão que, na capital mineira, já teve início nas eleições municipais de 2008.

O PT se agigantou e parece ser um partido onde a renovação é cada vez mais difícil. Os nomes novos têm pouco espaço e candidatos fora da zona de influência federal são sufocados pela máquina.  A disputa pelo governo de Minas entre Patrus e Pimentel e mesmo a disputa pelo comando da campanha da Dilma mostram isso. Se antes era uma máquina de personalidades políticas que respondiam sobre os diversos temas da federação, o partido é marcado por uma seqüência de nomes de pouca expressão nacional.

A caraterística do PT sempre foi ser um partido pautado pela democracia direta e com uma intensa articulação com a base. Isso é cada vez mais contestável graças às decisões dos dirigentes nacionais. Na África do Sul, um fenômeno parecido acontece hoje com o CNA – com implicações muito mais graves por causa do caldo racial forte.

No Brasil, os partidos fora da esquerda nunca se comportaram com esse grau de comprometimento democrático. A caricatura disso é o conselho de seis notáveis que referendou a candidatura do Serra pelo PSDB em 2002. Uma proposta de convenção na ápoca tinha efeito semelhante a um convite de banho numa piscina de ácido sulfúrico. A situação por todos os partidos não mudou nada, no PT parece ter mudado…

No governo Lula, a política das conferências nacionais e da construção de projetos legislativos com base  em consultas públicas ainda têm esse forte componente democratizante da origem do PT . Entre várias outras coisas (quem acompanha o blog sabe), essa é a razão em que eu vou votar na Dilma pra presidente. O problema é que a Real Politik suplanta cada vez mais a essência do Partido dos Trabalhadores que é construir uma política que nasce da base partidária. O PT ainda hoje, nas cidades de interior (nas poucas que eu conheço)  é o único partido que mantém reuniões regulares e que se estrutura como organização política de fato ( e não só uma legenda devotada a uma pessoa ou a um pequeníssimo grupo de interesses). Mas acho que essa falta de ação, que o governo federal impõe à estrutura partidária, paralisa esse tipo de organização.

Acho que a discussão é como continuar com o aprofundamento das políticas do governo Lula e ao mesmo tempo aprofundar a democracia em uma organização partidária  necessariamente popular e que impõe sua renovação para além da engessada estrutura burocrática. Uma hora ou outra o PT vai ter que encarar essa discussão se quiser continuar sobrevivendo no longo prazo.

5 comentários sobre “Real Politik no dos outros…

  1. muito interessante essa crítica que o Lauro formulou sobre os coflitos entre os anesios das baese e pragmatismo do comando petista. Mas eu acho que o real problema do governo da Dilma vai ser no judiciário. Se houve um tópico em que o Lula pisou feio na bola foi na escolha dos juizes do Supremo.A oposição já mostrou que vai transferir cada vez mais as questoes políticas pros tribunais.Movimento natural dada a impossibilidade de acesso ao executivo e a falta de maioria no Congresso. Estava conversando isso com o Idelber em Curitiba. Nao tem desculpa o Lula nao ter bancado um Fabio Konder Comparato ou um Dalmo Dallari pras vagas no STF. Seriam nomes inquestionáveis. Estamos atrasadissimos em relação a uma agenda civilizatória mínima (aborto, símbolos religiosos em locais públicos, democratização dos meios de comunicação, punição a torturadores) e nao vejo prespectiva disso mudar a curto prazo.

  2. Lauro,

    mais uma vez um baita texto.
    Algumas coisas me ocorreram. Acho que existe sim essa motivação consciente e estratégica a respeito de quais esferas priorizar nas eleições, etc e tal.
    Mas certamente, penso eu, existe (é inegável, pois de uma forma ou de outra, todos nós a temos)uma ânsia inconsciente por poder (ou o nome que for) que acaba atropelando uma série de coisas importantes, que você colocou muito bem no seu texto.
    Não conheço a política de MG, mas imagino que a candidatura Hélio Bosta tenha gerado a mesma sensação em você do que a aliança PT, PMDB aqui no DF gerou em mim.
    O PMDB/DF é o que temos de pior por aqui, casa gestadora de Roriz, o pai escroque de todos, só para ficar nisso.
    É impossível, pelo menos para mim, votar e fazer campanha (em primeiro turno) num candidato do PT, com um vice do PMDB por aqui: falta ânimo e estômago.
    Isso sem falar, que de longe também ouvimos as notícias da Maranhão, entre Roseane e o PT.

  3. Não precisa de ser totalmente verdade, ou totalmente com razão, mas notícias como essa são bem ruins:

    Hoje, após decisão do PT nacional de apoiar Roseana Sarney, manifestantes na sede do partido chamaram-no de “Hitler”. No começo da semana, foi a vez de petistas mineiros contrários à chapa liderada por Hélio Costa no Estado.

  4. Identifico duas coisas:

    1 – a base também tem sua “culpa” nesse processo (e pode revertê-lo com certa facilidade até, considerando o histórico). O surfe nos bons números do governo fez a “luta” arrefecer. Por ex. há dois anos que o mote nos discursos sindicais de 1 de maio é a comemoração de bons resultados e o chamamento pra mobilização.

    2 – qq processo interno de questionamento ou debate dentro do PT pode ser utilizado pelos adversários como “fogo amigo”. A marcação da dupla “oposição & mídia de aluguel” não dá trégua. Tudo no PT é mais difícil que em outros partidos.

    bora ver o Messi

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