TENSÃO NA COREIA, Pablo Pires Fernandes

O blogue está mais lento. Todos estamos ocupados e cansados. Posso falar por mim, o ano foi difícil e mal consigo juntar uma linha na outra, uma oração à outra. Além disso, o fim do semestre é sempre mais duro para quem dá aula, mas também temos férias de julho (oxalá). Por isso, nos valemos sempre da ajuda preciosa dos nossos amigos. Desde o ano passado, publicamos com maior regularidade quadrinhos geniais de Rafael Campos Rocha e com menor do Fabio Zimbres. Aliás, na semana passada, FZ abriu a belíssima Marginal, exposição no espaço +Soma com alguns dos seus desenhos e com um painel maravilhoso com mais de 13 metros de comprimento.

Além destes colaoradores mais freqüentes, sempre recebemos o apoio de amigos, como o Arthur Dantas, o Daniel Pitta, a Luciana Travassos, o Demétrio Toledo e tantos outros. Ultimamente, o Pablo Pires tem nos dado a honra de abrigar algumas de suas matérias sobre os conflitos internacionais nessa extensão eletrônica do Guaci. Aproveito mais uma vez do cabra e incluo um texto dele sobre a Coréia do Norte. Aqui ele amplia uma matéria publicada no Estado de Minas na semana passada. Mas antes das notícias, o lamento de  Kim Jum Il direto de Pyongyang:

História mal contada

Relatório que acusa a Coreia do Norte de ser responsável pelo naufrágio da corveta do Sul é cada vez mais criticado. Evidências são questionadas e emergem suspeitas de práticas da Guerra Fria de falsa propaganda

Pablo Pires Fernandes

O relatório sobre o naufrágio da corveta sul-coreana Cheonan, que deixou 46 marinheiros mortos em 26 de março vem tendo sua legitimidade posta em dúvida. O episódio abriu uma crise na Península Coreana e o documento, divulgado por uma comissão de 12 investigadores de cinco países (Austrália, Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e Suécia), em 20 de maio, aponta que o navio foi torpedeado por um submarino norte-coreano.

Há vários dias a versão oficial já vem sendo questionada por blogueiros de várias partes do mundo. Nesta semana, a China levantou dúvidas sobre o resultado da investigação e, com a visita do ditador Kim Jong-il a Pequim, o governo chinês parece ter se convencido de que o colega comunista não tinha nada a ver com a história. Ontem (terça, 8), a Rússia somou-se ao coro da suspeita. O chefe das Forças Armadas da Rússia, o general Nikolái Makárov, disse que é cedo para tirar conclusões que culpam a Coreia do Norte pelo naufrágio.

Fontes do governo disseram à agência russa Interfax que “após estudar os materiais apresentados (por Seul) e os danos ao casco da corveta, especialistas russos consideraram de pouco peso a série de argumentos da comissão internacional sobre a implicação da Coreia do Norte no afundamento da corveta”. A Rússia enviou uma equipe de especialistas para analisar as provas apresentadas pela comissão de investigação e prometeu divulgar o resultado.

Desde os primeiros momentos após o naufrágio, a Coreia do Norte negou qualquer envolvimento com o incidente. Depois da divulgação do relatório, Pyongyang acusou a Seul de fabricar mentiras e pediu para que uma comissão de especialistas do próprio país verificasse as provas. O governo sul-coreano negou o acesso ao material, já que as relações foram rompidas.

Apesar de a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, em visita à Ásia na época, ter declarado que as conclusões da investigação são “esmagadoras” e  “sem sombra de dúvidas”, no sentido de apontar a culpa para a Coréia do Norte, fato largamente reproduzido, de maneira conclusiva na mídia mundial, há vários pontos mal esclarecidos no relatório.

A primeira delas é o fato de a região do Mar Amarelo, onde ocorreu o acidente, ser fortemente monitorada, não apenas pela Marinha sul-coreana, como por forças dos Estados Unidos – que mantêm 28 mil soldados lotados na Coreia do Sul – e estavam praticando exercícios militares conjuntos até poucos dias antes do ocorrido. Quatro navios dos EUA ainda estavam na área. O relatório afirma que o torpedo teria sido disparado de um submarino da classe Sango ou Yono, respectivamente com 3 toneladas e 1,2 tonelada. Eles teriam deixado um porto norte-coreano três dias antes do ataque e retornado três dias depois (as afirmações do relatório não garantem certeza, apenas “acham” que isso ocorreu, com base em deduções posteriores). Pergunta-se: como é possível que um submarino de tamanha grandeza não tenha  sido detectado, sobretudo quando o próprio barco afundado, o Cheonan, era equipado com os mais modernos sensores anti-submarinos e sonares para esse tipo de detecção?

A área marítima é uma das mais rastreadas do mundo, com diversos equipamentos em um estreito entre ilhas relativamente pequeno, não é um oceano aberto. O lado sul-coreano dispõe de toda a tecnologia e cooperação – in loco – dos marines dos EUA. Mesmo que os submarinos não tenham sido detectados, o Cheonan deveria, no mínimo, ter registrado o disparo do torpedo, um dado militar básico, qualquer navio de guerra detecta, a tempo, um torpedo inimigo em sua direção. Fora que comparar a tecnologia sul-coreana/americana com a do velho regime comunista é brincadeira.

O general americano Walter Sharp, dois dias depois do naufrágio, afirmou: “Não detectamos qualquer movimento fora do comum dos militares norte-coreanos”. Na mesma época, militares sul-coreanos, em depoimento no Parlamento, descartaram uma ligação de Pyongyang com o naufrágio. Esse fato foi reportado no Korea Times, de Seul, citando o nome do general.

Especialistas também questionam o fragmento do torpedo apresentado como prova do ataque norte-coreano. Sobre o projétil, havia escrito “Número 1”, (Nº 1), em uma cifra geralmente distinta do que as usadas pelos militares de Pyongyang. Outro torpedo capturado há sete anos tem marcação diferente. (Aqui entra um fato específico, de numeração e grafia, próprias dos militares norte-coreanos – uma diferença de beon para ho, o que é grafado de modo oriental. Estava grafado beon – acho que é um tipo ideogramático, desculpe a ignorância, mas deduzi isto do que li e vi, graficamente – em vez de ho, isso prescindindo o número 1. O de sete anos atrás, e a prática do Norte é ho. Este estava beon. Isso tudo é gráfico, um ideograma. E estava a caneta, simples, o que poderia ter sido acrescido por qualquer um. Uns, inclusive, afirmam que é da lista do arsenal dos EUA (sic?)).

Também houve especialistas afirmando que o fragmento mostrado estava corroído e que deveria estar no mar erodindo por pelo menos alguns meses e não apenas as semanas que sucederam entre o incidente e a divulgação das provas. Isso foi citado por jornais sul-coreanos. O relatório não foi assinado e nenhum dos 12 técnicos e especialistas que o produziram deram qualquer entrevista depois da divulgação do documento. Dos 12 especialistas que produziram o relatório, apenas um sueco não é “aliado” da Coréia do Sul.

O jornalista e documentarista britânico John Pilger escreveu uma coluna no jornal New Statesman na qual ele relata que Ralph McGehee, um ex-agente da CIA (agência de inteligência dos EUA) usou de propaganda falsa – chamada black propaganda – na Guerra do Vietnã. No episódio, a CIA abateu um navio americano com armas norte-vietnamitas para justificar o um bombardeio dos EUA contra os comunistas. Este fato, não tanto difundido (se a mídia americana não menciona, raramente vira verdade difundida, claro), já se tornou fato histórico incontestável. Citando McGehee, o jornalista relata que a CIA mantém um estoque de armas “comunistas”. Pilger sugere que o mesmo pode estar ocorrendo no caso coreano.

Do lado político, o presidente da Coreia do Sul, Lee Myung-bak, passa por problemas de popularidade e uma eleição regional estava agendada para dias depois do acidente. O fato, no caso, não o favoreceu e seu partido sofreu uma derrota. De um lado, os anti-Kim (eu acho que eles têm toda a razão) e, de outro, os céticos, que inclui parte da esquerda (não por afinidade com o Norte, mas por desconfiança do discurso oficial e do alinhamento incondicional aos EUA, mas, principalmente da dificuldade de lidar com a economia- sempre, o bolso!) e a comunidade exilada norte-coreana que acredita (sic) numa possível união etc. Apesar de todas “evidências”, uma pesquisa do Japan Today, do dia 23, portanto, três dias depois da divulgação do relatório, apontava que 48% acreditavam que os EUA e não a Coréia do Norte (com 46%) eram os responsáveis pelo ataque. E o Japão é um aliado!

Do ponto de vista dos EUA, emana do Congresso e de um certo público republicano uma pressão para lidar com o regime ditatorial norte-coreano de maneira mais agressiva, impondo sanções, por exemplo. Mas, sobretudo, naquela ocasião, estava em jogo a decisão japonesa de aceitar ou não as bases americanas na ilha de Okinawa. As bases têm forte oposição da população local, sobretudo depois de vários incidentes de abusos sexuais por parte dos marines a garotas do lugar (e eles estão sob jurisdição americana).

Depois do incidente, telefonemas da cúpula americana, incluindo o presidente Obama, convenceram o primeiro-ministro Yukio Hatoyama de renovar a concessão da base militar. Mas Hatoyama havia prometido, na campanha, de não fazê-lo e, quando renunciou, dias depois, pediu desculpas por não cumprir a promessa de retirar as bases americanas de Okinawa. A secretária Hillary estava no Japão no dia seguinte da divulgação do relatório que condenou a Coréia do Norte. Ela disse: “Quero dizer francamente ao povo japonês que a presença das tropas dos Estados Unidos no Japão é indispensável para a segurança do Japão e para a paz e estabilidade da região no atual ambiente de segurança”.

Na quarta-feira, a Coreia do Norte enviou ao Conselho de Segurança da ONU uma carta em que rejeita as acusações de que teria afundado uma corveta sul-coreana. O regime comunista disse ser vítima de uma conspiração dos EUA. A carta assinada pelo embaixador Siin Son-ho é uma resposta à queixa formalizada por Seul na semana passada, com um pedido para que a comunidade internacional evite novas agressões. “Com o tempo está ficando mais claro, por meio de análises militares e científicas, que as ‘descobertas da investigação’ por parte dos EUA e (da Coreia) do Sul, que desde seu anúncio eram objeto de dúvidas e críticas, nada mais são do que uma conspiração destinada a alcançar os objetivos políticos e militares dos EUA”, disse a carta, reproduzida pela agência oficial de notícias KCNA. “Se o Conselho de Segurança levar adiante as discussões sobre as ‘descobertas da investigação’ (…), ninguém será capaz de garantir que não haverá graves consequências para a paz e a estabilidade na Península Coreana.”

*Artigo adaptado de texto publicado no Estado de Minas, em 9 de junho.

4 comentários sobre “TENSÃO NA COREIA, Pablo Pires Fernandes

  1. muito, muito bom. e o tom pop do team america mantém o guaciara especialíssimo. contente em fazer parte.

  2. aim so RONERY, so ronery, so ronery and sadry arone.
    é pura bobagem, mas eu curto demais isso.
    ‘why is everyone so fucking stoopid? why aren’t more people interigent, rike me?”

  3. essa bagaça é toda feita no stop motion, é tudo bonequinho isso aí. e o esqueleto no aquário é do hans brix (hans blix), infeliz secretário da agencia nuclear da ONU.

  4. A quem interessa a cisão
    Coreanos então divididos
    A não ser ao agressor
    Que são os Estados Unidos
    Esse é nazi capitalismo
    Irmão gêmeo do sionismo
    Que a todos tem agredido

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