Davi Bernardo manda muito bem

Esse é o Davi

O que há de pior (na música) são jovens fazendo música velha. Eu entendo os mais velhos tocarem coisas velhas porque isso está dentro deles, eles cresceram tocando e ouvindo determinado som, mas essa galera que acha que jazz é ficar tocando tema/improviso/tema, que blues é só aquele de 12 compassos e que rock bom é rock velho me deixa indignado, esse papo de “bom e velho rock’n’roll” é pra pessoas retrógradas.”

A frase aí em cima é do Davi Bernardo, que está pra lançar o seu primeiro CD, Nova Fronteira. O disco é altamente recomendável e deve ser ouvido com a máxima atenção. Música brasileira que não paga pau pra ninguém, que retrata a experiência forte dos amigos no interior e de um artista querendo ter uma voz própria. O bagulho é sério.

O que ele disse para o Trama Virtual tem a ver com uma coisa que também me incomoda muito, a necessidade da música emular alguma coisa reconhecível. Nessa necessidade de citar (para a imprensa, para se tornar reconhecível no mercado brasileiro e estrangeiro etc.), a música acaba dizendo muito pouco sobre as novas experiências que a maior parte das pessoas vive.

A necessidade de se adequar a um figurino muito delimitado dos nichos da indústria da música não é coisa só de caricaturas passageiras do mercadão fonográfico. Vai um pouco além. Tá cheio de gente por aí vestindo a roupa, repetindo o discurso e assumindo bandeiras de um tropicalismo do século passado ou de um samba cujos principais compositores estão quase todos mortos. Esses são só dois exemplos. A máquina de citações só começa aí.

Outro dia tive um pequeno debate sobre esse assunto com o Pedro Alexandre Sanches (no post com a ótima entrevista com José Ramos Tinhorão) sobre como poucos nomes da música brasileira de classe média (a tal MPB) dizem pouco sobre o mundo que eles mesmos vivem. Como a coisa dura pouco. Acho que isso tem muito a ver com esse maneirismo baseado nas citações. Também acho que tem a ver com uma música que tem muito pouco a dizer (e reforço que não falo só das letras).

Tem um monte de gente fazendo coisa boa, mas, na minha opinião, pro trabalho ter força, tem de mostrar alguma coisa que eu sei o que é, mas tenho dificuldade pra explicar. Um elemento de identificação profunda com as coisas que o sujeito vive  no dia-a-dia. O Davi traz essa vivência de interior muito forte na música dele. De ficar o dia inteiro com o violão na mão, de tentar entender como faz cada coisa na música, de dar importância grande pras histórias contadas pelos amigos. E de fazer uma música que fale muito de um mundo que não é só dele, mas de um monte de gente ao redor.

A música que ele compõe não é dessas que é elaborada pra virar disco imediatamente, pra virar show em uma casa de São Paulo, mas é um conjunto de canções que em primeiro lugar diz muito respeito a uma localidade, a um grupo de pessoas. Essa força de identificação coletiva diz muito sobre a possibilidade da coisa durar.

Sou envolvido até o pescoço com o trabalho dele, mas acho que vale a pena escutar essa voz que apresenta uma sonoridade cheia de vida  e de experiências de vida novas. Além disso, acho que o Davi é um arranjador como poucos, que constrói histórias sonoras lindas em cada música, sem caretice nenhuma e com muita vontade de ser único e essencialmente vivo. Ainda tô tomando coragem pra escrever sobre cada música do disco, mas enquanto isso escutem aí.

13 comentários sobre “Davi Bernardo manda muito bem

  1. E o Davi é gato igual as divas da nova MPB, o que é mais massa e dá um caráter transudo para suas elaboradas e “minimalistas” criações!

  2. é isso mesmo lauro. é o que contece com toda arte hoje em dia. a necessidade de ser rotulado pra poder ser cosumido. e pensar que dar um rótulo omo “minimalista” prum cara como judd era xigar a mãe dele. procê ver.

  3. Rafael, deixa o disco dele sair pra segurar essa coisa toda. O importante não é ser músico do ano, mas ter um trabalho que diga respeito a vida das pessoas e é sobre isso que eu tô tentando falar.

    O legal do trabalho do Davi é buscar um caminho dele, dentro de uma reflexão que ele tem sobre música que passa pelo jeito como ele toca e se relaciona com a música e a maneira como as coisas são feitas.

    O problema maior do que é feito na nova MPB é que todo mundo já sai com a etiqueta pronta. Não demora muito e se o Davi vingar vão tentar etiquetá-lo tb (esse clube da esquina do século 21 já é uma tentativa). E é uma bobagem. Se ele fosse do Paraná ou do Rio Grande do Norte procurariam outro rótulo. E quem para pra escutar o som dele sabe que é muito mais que isso.

    A coisa é que falar de música, de arte, de quadrinhos, livros, parece ser muito chato para quem escreve sobre isso. Então neguinho sai inventando personagens pra tecer perfis razos e que dizem pouco sobre o trabalho das pessoas.

    Ao invés de instigar, o leitor a pensar sobre o som e a ouvir o que tem ali, procurar coisas que possam ter a ver, preferem reduzir a uma coisa só pra tentar vender ingresso, disco, matéria de capa, sei lá…

  4. Muito legal! ! !
    Pra gente acompanhar a tragetória e evolução,independente de tudo! Musica!
    Esse cara ta de parabéns puta disco legal, musicas legais. E gostei muito desse ultimo comentário do Lauro.E o primeiro do Arthur.

    “O que há de pior (na música) são jovens fazendo música velha”.

  5. ñ poderia concordar mais com a postagem (viu, Tiago, aprendi, rá!). Davi é fera neném!

  6. Apesar de no campo o Davi só ficar na banheira, a música dele não tem esse oportunismo do arremate para a glória. Tem uma coisa singela, de quem vai pouco a pouco ficando íntimo de como as coisas surgem, estão e ficam. É muito mais uma postura de homem do que papo de arte. Num tem deslumbre e paetês… as experiências e vivências são uma massa (às vezes nem massa são!) de fino gosto e longa, humilde e densa digestão – como as lembranças confusas (e bêbadas, no meu caso) de uma noite em Maio com os amigos, as amigas, as idéias, as palavras, os descaminhos. Quem não dá teto pras besteiras de ego, desbanca a filosofia e faz da vida esse breve instante, vive nos segundos mas dá aos outros séculos.

  7. Bacana! Clube da esquina do século 21? Nada, tem Minas mas também escutei ecos de Gentle Giant e de Fairport Convention nas músicas dele, mas isso é viagem minha, o som do cara é muito bom e original, valeu, Lauro!

  8. Manda bem mesmo. Em todos os sentidos. Até minha mulé paga pau pra ele. Tive a oportunidade de assistir o cara no fim do mês passado e vi que era coisa de primeira, muito envolvente.

    E nas horas de folga até presenteou os amigos com “o bom e velho rock and roll” lá nos bastidores, hehehe. Sucesso, meu velho!

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