Uma troca sobre as crises

Durante o fim de semana, troquei emails com meu pai e meus irmãos – é, em blog, às vezes, algumas das regras que garantem o bom senso jornalístico acabam suspensas, entre elas a confusão entre vida privada e debate público – sobre a crise grega. A troca resultou em comentários interessantes não só sobre o problema enfrentado pelos países da zona do euro, como também sobre a crise de 2008, suas causas e consequências. Juntei os emails e coloco aí embaixo, para contribuir com o debate.

A troca começou com uma pergunta que fiz ao meu pai, Joaquim Eloi, PhD em economia pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT): a crise grega está mais ligada à farra fiscal (e é, assim, resultado de má governança interna) ou às armadilhas de uma união monetária (resultando de um acordo que se revelou prejudicial para o país)? Seguem aí os comentários.

Papandreou: Don't stop 'till you get enough. Agora alguém vai ter de limpar essa bagunça.

I. A crise grega, causas, soluções, lições (comentário de Joaquim E. C. de Toledo, economista)

Certamente, é uma boa pergunta, que me fez meditar mais um pouco sobre o assunto: a crise grega é consequência de políticas fiscais irresponsáveis, ou é resultado de uma “armadilha monetária” criada pela adoção do Euro ?.  Em minha opinião, há pelo menos tres perguntas a responder, efetivamente: a causa da crise grega; as restrições impostas por um regime monetário de moeda comum, não-nacional; e, finalmente, a solução viável para a Grécia.

Primeiro, a causa da crise grega.  Será o Euro uma armadilha monetária, e a verdadeira causa da crise ?  Não acredito.  Afinal, a Alemanha também tem o Euro, mas seus títulos de dívida são vistos como de baixíssimo risco, e a Alemanha é o baluarte financeiro europeu.  Quais as diferenças entre Alemanha e Grécia ?

Alemanha: estabilidade fiscal, com baixa relação dívida / PIB e déficits fiscais módicos; ojeriza por inflação; poupança nacional relativamente elevada; salários reais subindo em linha ou até abaixo dos ganhos de produtividade; em consequencia de tudo isso, superavits externos em conta corrente, e elevada competitividade internacional da economia alemã.

Grécia: desequilíbrio fiscal crônico, com elevadíssimos deficits e dívida pública em trajetória claramente insustentável (mascarados por contabilidade “criativa” e fraudulenta); baixo nível de poupança nacional; atividade econômica estimulada por consumo público e privado, viabilizados por endividamentos explosivos; pressão de demanda / atividade gerando aumentos de preços de “non tradeables”, ou seja, aumentos de salários reais (o trabalho é o non-tradeable por excelencia…) muito além dos ganhos de produtividade, reduzindo cada vez mais a competitividade da economia grega; em consequencia, elevados deficits em transações correntes e crescente dependencia de fluxos de capitais externos.

Assim, a crise grega é o que é: grega… .

Segundo, as restrições impostas pela ausencia de uma moeda nacional.  São basicamente tres: não há poder de emissão; não há política monetária independente; não há a possibilidade de desvalorização / depreciação.  Sem o poder de emissão e com o governo se endividando (em moeda “externa”, por definição), há sempre o espectro da moratória, mesmo quando há a capacidade e a vontade de pagar: a moratória pode ser deflagrada por uma crise de liquidez.  Sem uma política monetária independente, não há a possibilidade de se recorrer à combinação de juros reais baixos e inflação como forma de reduzir o custo da dívida e torná-la sustentável (ou seja, sem a necessidade de uma moratória explícita).  Finalmente, sem a possibilidade de mudar a taxa de câmbio, a mudança de preços relativos entre tradeables e non-tradeables (leia-se a redução de salários reais) tem que ser feita com deflação de preços e salários nominais: ou seja, ao invés de subir um preço (a taxa de câmbio), é preciso reduzir muitos milhões de preços… (e a deflação ainda por cima aumenta o custo da dívida, agravando enormemente o problema).

Terceiro, a solução.  Acho que requer a combinação de tres coisas: mudanças fiscais, com redução do deficit (através de uma combinação de cortes de gastos e aumentos de impostos); reestruturação da dívida pública, com forte redução compulsória de seu custo; e, finalmente, o abandono do Euro e a criação de uma moeda nacional, que óbviamente será acompanhada por depreciação e inflação (especialmente de tradeables).  A nova moeda tem que ser introduzida com uma reforma monetária que mude todos os passivos do sistema financeiro na Grécia, bem como de empresas e pessoas físicas, para a nova moeda, de forma compulsória.

Em tese, com um programa abrangente, a economia grega poderia minimizar o impacto recessivo do ajuste fiscal com o aumento da competitividade externa e, logo, com o aumento das exportações líquidas do país.  Os custos do ajuste serão divididos por muitos: credores internacionais e domésticos, os que vivem no ou do setor público, capitalistas domésticos (maiores impostos), e trabalhadores (menores salários reais).

A crise grega tem lições para nós.  Primeiro, mostra o acerto das medidas tomadas nos governos FHC: refinanciamento de dívidas de entes sub-nacionais (estados, municípios, empresas e bancos estatais) pela União (que tem o menor custo de endividamento); rígido controle do endividamento desses entes; Lei de Responsabilidade Fiscal, para evitar deficits insustentáveis.  Segundo, mostra o erro do governo FHC, ao permitir a ocorrência de elevados deficits externos, com forte apreciação cambial, devido ao “boom” economico no início do Plano Real.  Terceiro, mostra o risco das políticas do governo Lula, que estimulam fortemente o consumo (reduzem a poupança), apreciam a taxa de câmbio (elevam de modo não sustentável o salário real, reduzindo a competitividade externa da economia), e geram elevados e crescentes deficits em transações correntes.

II. Otimismo e leniência (comentário de Marcelo Gaspari C. de Toledo, economista)

Concordo com todos os pontos e adicionaria um fator a mais que vem da economia comportamental: o otimismo exagerado e a leniência nos tempos de boom.

Peguem qualquer paper que tenha sido escrito três anos atrás e vocês verão que só se  falava da maravilha da convergência entre o centro e a periferia da Zona do Euro. Muitos diziam que a inflação mais alta na Grécia e decorria de uma convergência da produtividade – a produtividade na Grécia supostamente era baixa e estava crescendo em direção à dos países mais avançados dentro da área comum. Agora sabemos que não era isso – foi uma convergência de taxas de juros que levou a um boom de crédito do centro para a periferia, inflado pela poítica do Banco Central Europeu (BCE) e da insistência da União Européia em querer fingir que todos os países do euro eram iguais.

Foi o mesmo nos EUA: agora todo mundo fala dos absurdos do subprime, das inovações financeiras perversas etc, mas à época, era uma verdadeira maravilha celebrada por todos: os mercados estavam conseguindo que as pessoas com renda relativamente baixa comprassem imóveis.

Foi o mesmo na crise asiática, foi o mesmo com o México que, na década de 70, gastou o petróleo antes da exploração.
Foi o mesmo em Dubai – que agora está reestruturando sua dívida.
Foi o mesmo na Irlanda – o “Tigre Celta”, até pouco tempo (aqui, a experiência recente de um baixo padrão de vida recente fez com que a sociedade topasse com maior facilidade o aperto de cintos de agora).

É a frase já batida do cara do Citi: “quando a música está tocando, todos continuam dançando”.

A história está repleta de casos de quebra de uniões monetárias. Uma recente – da Rep. Tcheca e Eslováquia em 1993-1994 – nos dá uma boa idéia de que isso pode acontecer, sim. De fato, surfando na crise, tinha gente (claro, os que estão apostando contra) espalhando a mentira de que a Alemanha iria pular fora do euro.

III. Mercado financeiro, regulação e direitos (comentário de Joaquim Toledo Jr.)

Eu acrescentaria o seguinte: além de possível capitalização política populista da história das hipotecas, crédito imobiliário etc, quem estava radiante com os novos mágicos produtos financeiros eram, evidentemente, os bancos, que garantiam o retorno imediato de operações nebulosas com a cobrança de taxas e mais taxas. isso garantiu não só o papel fantasioso de permitir que famílias comprassem casas, ou casas maiores – até perderem-nas pro novo credor – mas também que os bancos garantissem, independente da viabilidade real das operações, retornos vultosos.

Até a Newsweek acha que a Goldman Sachs, por exemplo – que desempenhou papel importante na crise de 1929 (na geração da crise, bem entendido) – só serviu no último século para criar e estimular bolhas no mercado financeiro. Nos anos 1990, depois de décadas na encolha, o banco retornou e foi protagonista da bolha da nova economia, .com.

Por isso o que precisa ser feito é 1) reduzir o risco de moral hazard, impedindo que banqueiros se sintam à vontade para trabalhar de forma incompetente, na certeza de bailouts generosos; 2) lembrar que transações entre indivíduos privados – pessoas e bancos, por exemplo – precisam ser regulamentadas segundo princípios jurídicos que em outros casos são aceitos de forma natural: impedir que as pessoas sejam expostas, contra seu conhecimento, a riscos e, principalmente, que a obscuridade e complexidade do universo financeiro seja usada contra elas. A justiça, ou, se se quiser, o Estado, deve proteger os indivíduos comuns das más intenções do mercado financeiro, assim como existem agências que medem e controlam os riscos de produtos farmacêuticos etc.

IV. Fim de jogo (comentário de Demétrio Gaspari C. de Toledo, sociólogo)

Além dos problemas mais imediatos apontados por vocês, há que se levar em conta os problemas de fundo que geraram a crise. A dificuldade de lidar com a crise é que ela começou há uns 100 anos. Logo, reverter suas causas envolve, além de ações políticas e econômicas duras, viagens intertemporais em máquinas do tempo, desfazer o que está feito e coisas do tipo.

Em primeiro lugar, há que se reconhecer que a Europa é inviável demograficamente: os europeus estraçalharam suas populações em escala industrial duas vezes em um período de 30 anos (em ambas as vezes recorrendo também a métodos industriais – gases venenosos na I GG – graças ao desenvolvimento da indústria química alemã – campos de extermínio e bombas atômicas na II GG – aqui uma singela colaboração dos americanos com os alemães exilados nos EUA). Isso gerou uma estrutura demográfica em forma de ampulheta: uma base (crianças) larga, um centro minúsculo (quando causado por guerras, afetando sobretudo homens jovens – parte expressiva da força de trabalho e da capacidade reprodutiva de uma população) e um topo também largo.

Juntaram a isso taxas de crescimento demográfico 1) baixíssimas, ou 2) iguais a zero ou mesmo 3) negativas. Puseram em cima uma economia com índices radicalmente diferentes de produtividade (Alemanha numa ponta, Grécia na outra) e um modelo social em que a poupança de uma população economicamente ativa cada vez menor deve sustentar uma população economicamamente ativa cada vez maior – a conta não fecha.

Todos as análises que li deixam de fazer a pergunta que coloca no mesmo barco epistemológico a economia política, a sociologia política e as histórias de detetive: quem ganha com isso? Dizer que é o sistema financeiro é apenas meio verdadeiro: alguns poucos ganharão, muitos perderão. Quem ganhou e ganha com isso são as economias mais fortes da UE, Alemanha e França, que não por acaso (e muito menos por amor aos PIIGS) estão colocando dinheiro pesado e suporte político irrestrito no enfrentamento da crise. Essas duas economias se beneficiaram muito da união monetária e atualmente não conseguem ver motivos para desfazê-la – ou seja, Alemanha e França acham o futuro muito promissor. E os PIIGS, aliás, também – por sinal, eles ganharam horrores até ontem e não se tem notícia de ninguém ter reclamado.

É por isso que a Grécia não vai abandonar o euro – não por enquanto, porque ninguém quer, nem os países quebrados nem os que estão inteiros por enquanto, porque eles todos acham que podem ganhar com a união monetária, e a bem da verdade, até agora estão ganhando.

A grande dificuldade é que manter níveis de vida acima da renda ou esdruxulamente luxuosos e extravagantes (por exemplo, a Espanha, que não tem futebol, mantém uma liga milionária – um luxo que eles se dão mas pelo qual não podem pagar) via endividamento sem fim não é sustentável economicamente. Por outro lado, esse arranjo político do tipo “paraíso na terra” que muitos países europeus querem – tudo do bom (férias sem fim, 35, 30 horas de trabalho por semana, auxílio de retorno de férias, aposentadoria aos 60, futebol de alto nível em país de cabeça de bagre e perna de pau), nada de ruim (trabalhar, aumentar a produtividade, exercer responsabilidade fiscal, gastar dentro de seus rendimentos) – não vai ser facilmente deixado pra trás, compreensivelmente, uma vez que ninguém é bobo, a começar pelo cidadão comum. Mudar essa estrutura política, esse sistema de responsabilidades individuais e coletivas mútuas (do indivíduo com o coletivo e do coletivo com o indivíduo, modelo genericamente conhecido como welfare state europeu) vai ser muito difícil, e é por causa disso que a quebradeira final é apenas questão de tempo.

A crise ensina algo muito valioso: o cidadão comum precisa ser protegido dele mesmo. É preciso dizer a ele que sempre que alguém bater a sua porta com um maço de papéis que, em troca de umas merrecas suas, garantirão uma montanha sem fim de dinheiro, ele precisa soltar o cachorro em cima do safado. Agora, se convidou pra tomar um cafezinho pra ouvir a proposta com mais calma, aí, dançou. (Aliás, esses dias vi um golpe na tv em que o sujeito liga pras pessoas e oferece “uma viagem com tudo pago pra cinco pessoas pra assistir os jogos da seleção na cidade de Cairo, na África Central” – o sujeito só precisa pagar o IOF numa lotérica, “que este ano é de R$ 385,00”. Eu acho que isso deveria deixar de ser crime: levar o sujeito na lábia, sem violência – na verdade, em geral contando com a cumplicidade do otário no malfeito, ele também espertinho (pena que não o bastante…) – é mérito do contador de histórias).

Os gregos continuam achando que estava tudo uma maravilha antes da crise (e estava mesmo!), tanto que não querem que nada mude. Ignorância das regras do jogo não passa de cinismo. Como o Marcelo disse, enquanto a coisa ia bem, ninguém reclamava, era tudo uma beleza! O problema é que, por definição, alguém sempre perde. Querer o melhor dos mundos, o paraíso na terra, não dá: os benefícios da especulação sem os malefícios da especulação. Isso ainda não foi inventado.

O que nossa limitada percepção pessoal/existencial da história não nos diz, uma rápida olhada nos livros de história responde: “countries come and countries go”. Nada é eterno, tudo muda, inclusive a estrutura geopolítica. É apenas questão de tempo para que as atuais potências cedam lugar a outros países. Os gregos que o digam!!!

Por sinal, é bom que se diga: não existe convergência de níveis de desenvolvimento econômico, hipótese levantada por Solow – aliás, ele mesmo descobriu isso, vendo que a convergência só ocorria entre países com condições iniciais muito parecidas, o que levou os teóricos do crescimento econômico contemporâneo (por exemplo, a escola do crescimento endógeno) a falar em convergência condicional (isto é, condicionada a um estado inicial parecido/comparável). Os retornos são crescentes, e não decrescentes, para quem está na fronteira do crescimento econômico, logo, ceteris paribus, tudo continuará igual ou pior para quem está atrás, a não ser que o país tome para si a tarefa de reverter essa situaçã

Fernandinho e sua turma, todos muito mal-informados e pouco lidos, acreditam em convergência, tanto que quiseram e querem mexicanizar o Brasil com sua linda Alca. Pergunte pro Chaves (o do oito, não o Hugo), o que ele acha dos modelos de crescimento econômico com convergência, e ele vai te dar com a marreta biônica na cabeça: Tein!!!!!!!!!! Cale-se, cale-se, cale-se!!!! Você me deixa louco!!!!

31 comentários sobre “Uma troca sobre as crises

  1. caraca, me senti mais inteligente depois dessa. Que família du capeta!

  2. Geeente,
    nada a ver com esse post, mas cadê o post de aniversário dos irmãos Mesquita, outra família du capeta!!
    beijos!!

  3. Muito bom, aprendi pra cacete. Presentão de aniversário. Só queria saber o seguinte, o regulamento do sistema bancário e da circulação de capitais é comum em toda a Europa? Existem regras muito diferentes de um país para outro? A dúvida me veio para tentar entender, incllusive, se existe formas de protecionismo no interior do bloco. (de ser pergunta de gonorante mesmo)

  4. Tem muita gente achando que está tudo bem no Brasil atualmente, que está tudo uma maravilha, que vender soja e minério de ferro pra comprar badulaque da China é nosso destino manifesto… hmm, é bom começarmos a nos preocupar…

  5. Resposta ao Tiago: até onde eu saiba, poderiam existir em tese diferentes regras. No entanto, como não pode haver protecionismo interno na União Européia, levariam vantagem as instituições com sede nos países com regras mais favoráveis (favoráveis para as instituições, claro, não para as sociedades…). Para evitar a desvantagem de suas instituições nacionais, todos os países acabam adotando as regras do país mais desregulamentado. Resultado bom para quem adora ver crises financeiras…

  6. Bem, eu acho que o Brasil tem se preocupado. Em um outro post o Demétrio conta de uma série de iniciativas e de programas de se prestigiar a inovação e formas de se produzir produtos mais valiosos. Fora que a China não produz mais “badulaques” eles sim estão sofisticando muito a indústria deles.
    Elóis, muito obrigado pelos esclarecimentos. A minha dúvida na verdade é o impacto que essa crise teve em um país fora da zona do Euro: A Inglaterra. O baque foi terrível e não sei o que eles pretendem fazer. Mas será que isso dá uma desorganizada no sistema financeiro da europa?

  7. Acho que o sistema financeiro inglês não será afetado significativamente pelos novos aspectos da crise, ou seja, os problemas dos PIIGS. A recessão e o desemprego continuam fortes, é verdade. A combinação de baixas taxas de juros e depreciação da libra – os ingleses agradecem a Deus não terem adotado o Euro -, junto com o crescimento intenso da China, Índia e alguns outros emergentes, como o Brasil, podem ajudar a recuperação inglesa.

  8. Demétrio tocando duas ideias do campo ambiental: a capacidade suporte (que não está presente só nesse campo, claro) e o consumo consciente.
    Sempre tive uma dúvida, e como não conheço muito da área posso até estar falando bobagem, e nem sei direito se vou conseguir perguntar o que quero (rsrsrs). Mas será que existe uma maneira de definir uma taxa de crescimento (financeira) que seja sustentável, ou mais que isso, responsável, além da qual um ganho ou crescimento passaria a ser danoso (não obviamente pra quem recebe)?

  9. Muuiiito bom. Tudo. Muiiiito bom, mesmo.

    Fiquei com uma dúvida sobre a questão, levantada pelo Demétrio de que, segundo Solow, não existe convergência de níveis de desenvolvimento econômico.

    É que, sempre me pareceu (pelo menos foi isso que entendi do Samuelson), que o Modelo-Solow (aquele mais básico) levava à conclusão que os países menos desenvolvidos têm maiores/melhores chances de crescimento acelerado (pelo menos se analisamos capital, trabalho e tecnologia).

    Ele dizia que o investimento em capital, que tinha um retorno decrescente, não explicava o ritmo de crescimento dos EUA, por exemplo. O crescimento ali se produziu em um ritmo superior ao previsto pela teoria. Havia, então, um resíduo considerável que deveria estar ser atribuído aos avanços tecnológicos (por exemplo: a compra de mais um arado a tração animal, rende menos que o anterior, enquanto a sua substituição por um trator, permite um salto de produtividade). Mas o ponto é os subdesenvolvidos não precisariam investir em R&D, pois poderiam comprar (ou roubar) a tecnologia (muitas vezes, barata) disponível. Isso explicaria, para mim satisfatoriamente, os saltos felinos de economias pobres, com ritmos de crescimento superiores a 10%, normalmente baseados na compra (ou cópia) de novas tecnologias incorporadas em capital (ficando no exemplo da agricultura: a mecanização do campo, realizada em curto prazo, em um país de cultura rudimentar , produz enormes ganhos de produtividade).

    Minha dúvida é sobre o ponto do trabalho de Solow (com enfoque em K, W, T), que permite que se chegue à conclusão oposta ou como entra na análise as condições iniciais (e, se possível, indicação dum livrinho sobre o assunto).
    Abraços.

  10. Joaquim Toledo Jr, Parabéns! Excelente post!

    Claro que não concordei com tudo, em especial o finalzonho e o lance da mexicanização, mas realmente muito elucidativo.

    Parabéns novamente!

  11. Tiago,

    A economia do México depois do Nafta mudou e muito. Ela deixou de ser uma economia fraca e ganhou músculos e se tornou muito mais vigorosa, claro que puxada pela locomotiva americana. Sei que existem muitos problemas e a política lá é uma zona, mas é inegável que eles aumentaram em muito seu PIB. Acredito que um reflexo disso é o Sr. Carlos Slim ser o mais rico do mundo.

    Claro, não pdoemos esquecer do efeito tequila de 1997 (ou 1999?) e que foi muito sentido no Brasil e arrasou a popularidade de FHC.

    A tal da ALCA tinha essa intenção. Claro que a liberação geral seria destrutivo para alguns setores de toda a economia da AL e principalmente para os mais pobres, tipo a Bolívias da vida. Se esse processo todo fosse conduzido por etapas e gradativamente acho que seria extremamente promissor para a América como um todo. Mais ou meos como foi feita a união européia.

    Se os EUA conseguissem ter todos os mercados da América livres de barreiras alfandegarias e quem sabe até um processo de “dolarização” da América, será que eles também não aceitariam pagar a conta como fazem os alemães na zona do Euro? Não tenho uma opinião totalmente formada quanto a isso e como seria o seu comportamento, mas acredito que se a ALCA tivesse saído do papel, uns governos toscos como Chaves, Morales, Correa não teriam tido espaço para prosperar e o governo Lula poderia ser realmente o grande Player a contrabalancear com o Tio Sam na ALCA.

    Infelizmente o Brasil não é o líder que deveria ser na AL, nem no mercosul conseguimos ser melhores que nossos hermanos!

  12. Oi Carlinhos,
    O modelo neoclássico de crescimento, cuja versão canônica é o modelo de crescimento exógeno de Solow, mostrou sérias limitações quando aplicado a dados empíricos. Os economistas descobriram então a duas conclusões: primeiro, uma associação positiva entre condições iniciais e taxas de crescimento econômico de longo prazo. Significa dizer que a convergência ocorre apenas quando há semelhanças das condições iniciais. Segundo, os economistas chegaram à conclusão de que o resíduo do modelo de Solow era grande demais, deixando muita coisa de fora, sobretudo fatores como instituições, política industrial e conhecimento/tecnologia.
    Uma das principais fraquezas do modelo de crescimento exógeno é que ele trata a tecnologia e a mudança tecnológica como variáveis não-econômicas no curto prazo (no longo prazo, é o resíduo, aquilo que o modelo não explica) e pressupõe livre fluxo e acesso às tecnologias entre os países. Um conjunto de autores retomou o problema do crescimento econômico justamente daí, incorporando a tecnologia ao problema com o seguinte argumento geral: a mudança tecnológica é um fator determinante do crescimento econômico não só no longo como no curto prazo porque a mudança tecnológica/inovação respondem a determinantes econômicos, logo, devem ser considerada variável do modelo (quanti ou quali ou histórico).
    As principais críticas do modelo neoclássico de crescimento econômico exógeno são a escola do crescimento econômico endógeno e a economia evolucionária.
    Os primeiros partem do trabalho de Solow e em certo sentido aprimoram criticamente o modelo dele “endogeneizando” a variável mudança tecnológica. Eles argumentam que a mudança tecnológica é uma ação econômica racional com efeitos sobre o crescimento econômico, o que faz dela uma variável endógena. O truque teórico e econométrico está em atribuir a um dos fatores retornos crescentes. Este fator, que não tem custo adicional de reprodução uma vez realizado, é a tecnologia em sentido amplo (conhecimento economicamente aplicado pode ser melhor): depois de inventada, uma “ideia” tem um custo de reprodução que tende a 0 e retornos constantes ou positivos.
    Leia Paul Romer (“The Origins of Endogenous Growth”, 1994 e “Endogenous Technological Change”, 1990, The Arc of Science”, 2005) e Daron Acemoglu, Phlilippe Aghion e Fabrizio Zilibotti (“Distance to frontier, selection, and economic growth”, 2002). Romer, Aghion e Acemoglu são os principais autores. Se quiser fazder o curso do Acemoglu no MIT, acesse http://econ-www.mit.edu/faculty/acemoglu/courses e faça o curso de pós dele no MIT pela internet e pelo Youtube! Acesse também http://ocw.mit.edu/OcwWeb/web/home/home/index.htm, o MIT deixa centenas de cursos inteiros dos professores para acesso gratuito, indo desde aulas gravadas em vídeo, passando pelos programas, exercícios, provas e ppt. das aulas. Vale muito a pena.
    A economia evolucionária faz uma crítica mais radical, de fundamentos, daquilo que ela chama de teoria ortodoxa, com o que quer se referir à teoria neoclássica de modo geral. O argumento desses autores abre mão da ideia de comportamento maximizador e do conceito de equilíbrio e propõem uma teoria econômica análoga à teoria evolucionária biológica, com fatores como seleção e mutação das firmas determinando a mudança econômica. A economia evolucionária vai usar no lugar das técnicas de cálculo e da regressão, ferramentas matemáticas e estatísticas tradicionais da econometria noeclássica) a matemática dos processos ou cadeias de Markov, que permitem modelos em que as condições do estado presente determinam uma função distribuição de probabilidades das escolhas e resultados possíveis no período seguinte por parte das firmas. O trabalho canônico é Nelson e Winter, Uma teoria evolucionária da mudança econômica (1982/2005).
    Voltando à não-convergência segundo o modelo do crescimento endógeno: como a fronteira tecnológica é dinâmica e o acesso à tecnologia varia entre firmas e países, os países e firmas em que o conhecimento economicamente aplicado tem maior peso tenderão a manter ou aumentar a distância dos demais, pois os retornos crescentes do fator tecnologia compensam os retornos decrescentes dos outros fatores. Isso leva à não-convergência ou à convergência condicional.
    Veja que o crescimento por saltos felinos da tigrada envolveu um brutal avanço da tecnologia e da inovação naqueles países.

  13. Cesar você tem certeza que o Brasil não é líder na região do continente?
    A mexicanização mencionada aqui foi a dependência completa da economia mexicana em investimentos em dólar. Que quebrou e desindustrializou o país. Acho que é dessa incapacidade de investimento, que fez com que o plano Real acabasse entre 1997 e 1998 que o Demétrio falou.

  14. Tiago,

    Sei que o Brasil é líder, mas acho que é de forma ineficiente. Acaba sendo um líder natural pelo tamanho tanto geopolítico quanto economico. Poderia ser mais líder, mais influente e se impor de forma efetiva e decisiva.

    Legal essa sua explicação, como você mesmo falou, disse o que eu achava que era essa mexicanixação.

    Acho que esse tema será um dos pontos das eleições presidenciais.

  15. Demétrio, existe alguma mudança no padrã de ação coletiva previsto em cada um desses modelos? Sei lá, essa economia política é acompanhada de algum tipo de sociologia?

  16. Prezados do Guaciara,

    Só tenho a agradecer a qualidade do post e das explicações. Parabéns. Super parabéns.

    Pelo que entendi o Tiago está de aniversário? Parabéns também.

    E uma pergunta de leigo: caso a Grécia abandone o Euro, a crise não vai se agravar muito? Não haveria, então, uma corrida fenomenal aos bancos? Se isto for verdade, então esta possibilidade é apenas teórica?

  17. Valeu Demétrio, pelas dicas (vou anotar) e pela aula.

    Agora, deixa eu ver se entendi:

    -Solow, que só pensava em sexo, resolveu que era prudente escrever sobre outro assunto, e criou aquele modelo de crescimento, onde o investimento em capital não é suficiente para demonstrar os ganhos de produtividade. Acreditou que a explicação estava na tecnologia, que era um fator externo ao modelo, não estava no gráfico mas alterava a pendente das curvas.

    – Outros caras viram isso e lhes pareceu que o modelo não era satisfatório. A tecnologia que era o fator principal, o X do problema, era tratada como “maná do céu”. Isso deveria ser mais bem explicado. Existiam barreiras culturais, institucionais, religiosas, de incentivos, etc., que evitavam o livre fluxo tecnológico.

    Para apresentar respostas, duas turmas:

    – Os caras que tentaram endogeinezar a tecnologia, que tentaram explicar os ganhos com um modelo parecido ao de monopólio natural (na parte em que tem custos marginais próximos a 0 e custo médio decrescente). Imagino que, para sustentar a idéia da ação racional, eles sustentem que os “costos hundidos” (não sei como é o nome disso em português), devam ser enfrentados por alguma instituição, como patentes, leilão estatal ou outra coisa qquer. Com base nisso consideram que quem sacasse a importância da tecnologia se daria melhor, pois se beneficiaria dos retornos crescentes em escala.

    – Os caras da economia evolucionária, que usam umas coisas doidonas de matemática (Para mim, por falta de referências, essa parte é a mais difícil. A única coisa que vi que passa perto disso foi um texto do Axelrod sobre dilema do prisioneiro iterado, mas era diferente. Ao contrário desses caras, ele considerava que seres irracionais podem apresentar comportamentos maximizadores por seleção natural e fatores genéticos).

    Agora, minha dificuldade sobre o problema do aumento da distância entre os países ricos e pobres, a partir da análise do exemplo tigrada é que: se a gente for olhar, eles quase nunca estão na fronteira tecnológica mundial (quem está lá não consegue crescer 10%). Os ganhos de produtividade, normalmente, são baseados em tecnologias já existentes importadas, que apresentam os mesmos ganhos de escala. Por outro lado, se o negócio fosse ser o segundo em tecnologia, ninguém investiria em nada, todos estariam esperando alguém ser o primeiro a inventar para chupar (no sentido de copiar) depois. Então, se a gente mantiver todos os outros fatores de fora (instituições, cultura, etc), me parece que a questão seria definir qual custo é menor: criar ou importar tecnologia. E, aí, talvez seja o caso de analisar o ponto de partida que vc falou. Talvez se possa dizer que, para o cara que está perto da fronteira tecnológica, como o custo da tecnologia nova é maior, o produto marginal da invenção seja maior e o da importação de tecnolgia seja menor.

    Mas, na verdade, já não sei. Estou tomando um vinho, aqui, e já estou começando a viajar…

  18. Só postei aqui para a conversa migrar pra cá. A discussão de cima começou a descer a ladeira. Suposições de que o Itamaraty e o Lula são burros por não entrarem em acordo com os EUA não me interessam. aliás, suposições desse tipo não me interessam.

  19. Oi Carlinhos,
    Em primeiro lugar, excelentes suas intervencoes, muito obrigado.
    Uma das questoes relacionadas aos modelos de crescimento exogeno e endogeno diz respeito ao tipo de politica de desenvolvimento que elas indicam, pressupoem ou recomendam. No modelo de Solow, a tecnologia e considerada algo que nao responde a estimulos economicos – o progresso da ciencia eh um fenomeno exogeno e que cresce a taxas constantes. No modelo de crescimento endogeno, a tecnologia faz parte eh um fenomeno economico orientado (tambem) por razoes economicas. Em termos de politica de desenvolvimento, o modelo de crescimento exogeno indicaria politicas de investimento em capital (o Solow tentou trazer a questao da tecnologia para dentro do modelo diferenciando capital mais novo de capital mais velho, assumindo que o capital mais novo tem mais tecnologia)/ os modelos de crescimento endogeno, pelo contrario, tratam tecnologia e instituicoes como fatores diretamente associados ao crescimento economico, logo, as indicacoes de politicas de desenvolvimento recomendam tamb[em investimentos em inovacao e instituicoes.
    O texto do Acemoglu, Aghion e Zilibotti ajuda a pensar as diferencas entre paises mais e menos avancados. Segundo eles, dependendo da distancia da fronteira, algumas politicas e investimentos tem retorno maior. Em paises mais distantes da fronteira, investimentos e politicas voltadas para aumento do capital teriam retornos maiores (o que vai em linha com o modelo de Solow, em larga medida), mas a medida que um pais se aproxima da fronteira tecnologica, investimentos em tecnologia e inovacao tem retornos maiores (aqui eh o modelo de crescimento exogeno quem fala).
    Gosto do modelo de crescimento endogeno porque ele mostra a necessidade de politicas de desenvolvimento mais pro-ativas. Gosto tambem porque sou sociologo e todos esses caras do time do ccrescimento endogeno sao muito proximos da economia institucional, discutindo portanto instituicoes e politicas publicas, acao coletiva, gr5upos de interesse etc. Enfim, eh mais a minha praia.
    Em tempo – a literatura sobre crescimento economico diz que o modelo de Solow e semelhantes sao reprovados no exame empirico. A convergencia so aconteceu, no seculo XX (e mais especificamente, na segunda metade do seculo XX) entre paises parecidos. Mas temos que lembrar tambem que esses modelos sao modelos demudanca economica, logo, eles nao querem dizer que nada muda, que ricos continuam ricos e pobres continuam pobres. Eles enfatizam, de diferentes modos, os meios pelos quais os paises podem convergir!! O que Romer e companhia querem eh mostrar que a convergencia eh possivel se os paises adotarem as politicas corretas.
    Mas, francamente, sei la, vai saber…
    Um abraco!

  20. Perfeito, Demétrio. Vc mapeou bem a onda dos caras. Bom demais ter referencias desse assunto. Eu é que tenho que lhe agradecer.

    Tiago,também aprendi muito. Como sempre.

  21. O Guaciara acaba de inaugurar a seção Bibliotoca Telê Santana. O canto vai reunir textos de referência que aparecem aqui nos posts e nos comentários. Começamos a coleção com alguns textos que o nosso mestre Demétrio citou na discussão desse post. Confiram lá:

    https://guaciara.wordpress.com/biblioteca/

    The Arc of Science, de Paul Romer
    http://time.dufe.edu.cn/article/romer/3.pdf

    DISTANCE TO FRONTIER, SELECTION, AND ECONOMIC GROWTH, de Daron Acemoglu, Philippe Aghion e Fabrizio Zilibotti

    https://guaciara.files.wordpress.com/2010/05/acemoglu-aghion-e-zilibotti_2002.pdf

  22. olha só, e eu só encontrei esse post agora! muito bom. engraçado, é um tipo de texto que só funciona no blog, né? só não concordo com europeu perna-de-pau do demétrio. mas agora, depois do 18/12 é fácil falar isso…

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