JOSÉ BENTO: TEMPO FORA DO TEMPO

A EXPOSIÇÃO DO JOSÉ BENTO CONTINUA ATÉ O DIA 22/05, NA GALERIA CELMA ALBUQUERQUE EM BELO HORIZONTE.

SEGUE O TEXTO QUE FIZ SOBRE OS SEUS NOVOS TRABALHOS

Up (2009 - 10)

Para o Lauro, meu irmão. Para o Joaquim, outro irmão.

I

E não há um pedaço de madeira nessa exposição. Nada que nos lembre a natureza e suas indeterminações. Bem, pelo menos nada evidente.  Talvez por isso o primeiro contato com o trabalho já tenha sido surpreendente. O segundo também foi, mas por outras razões. Na primeira vez, não vi a superfície marcada, os corpos pesados, os troncos acidentados repousando uns sobre os outros. Nada da brutalidade que associam à fisionomia ao trabalho de José Bento.

Nem a cor heterogênea de toquinhos bem feitos, reunidos em arranjos seriais de alguns trabalhos aparece aqui. Na exposição, nenhum dos objetos que ele utilizou parece ser único, singular e individual (como tudo que vem da carne e da terra). São partes feitas pelas máquinas. Máquinas que trabalham em um ritmo constante. Faça a chuva ou faça sol, independente da quantidade de húmus ou enxofre no solo.

Vai ver que quem atribuiu essa fisionomia a um trabalho tão variado estava enganado. Acho que se olharmos para a novidade das peças recentes do artista, esse engano pode ser desanuviado. Aqui, tudo parece leve, durável, como se não envelhecesse e não estivesse sujeito às contingências do tempo.

The Cure

As obras da exposição A primeira vez têm a pele lisa da tinta acrílica, da impressão mecânica, do pedaço de plástico. São feitas com materiais processados industrialmente: lâminas de metal, ferro, cabos de aço, capsulas de remédio, ímãs muito potentes (utilizados em portos e fábricas) e uma série de fotografias registradas em negativo de alta precisão. Tudo muito bem acabado, pintado. Aparentam às coisas que saem de armazéns de fábrica. Por isso, boa parte dos materiais recebe um banho de cor. A cor apaga as distinções de uma peça e outra. É tudo igualzinho. Como a maquiagem, a tinta esconde as marcas do tempo.

Além disso, são objetos e imagens do cotidiano, novinhos em folha. Aspiram à perfeição e o ordinário dos objetos produzidos em série. Tal a coca-cola, buscam manter sempre o mesmo sabor. Curioso, mas além de não lembrar a natureza, é a primeira exposição colorida do artista que vejo. Com cores artificiais: cor de bala, cor de brinquedo, cor de remédio, cor de luz de farmácia. Tudo sem personalidade. Com o brilho e a beleza das pessoas que notamos de relance.

Roda
Roda

Por isso, esses materiais e formas se relacionam como se não tivessem o mesmo grau de comprometimento que os troncos demonstravam quando se juntavam para formar uma escultura. Isso não é pouco. Antes, a criação do artista buscava ‘casar’ pedaços de árvore. Fazer com que eles entrassem em simbiose e ainda interferissem no espaço onde estavam instalados. Depois de receberem a forma artística, seu peso e sua temperatura natural pareciam restaurados, mais que isso, fortalecidos. Assim, um tronco se imantava ao outro e desenvolvia uma relação íntima com o lugar.

Agora não é assim. Elas podem estar em qualquer espaço. São feitas de objetos quaisquer. Mesmo a instalação Up – que eu prefiro chamar de escultura – pode ser desmontada e montada em qualquer lugar adequado, com tamanho suficiente. Pode ser feita com outros balanços, outras traves, outras gangorras. Basta que tenham a mesma altura, formato e recebam o banho com as mesmas cores. Mas estão na galeria como nós ficamos por vezes em um consultório dentário ou um parque de diversões, passando o tempo.

Nas grandes esculturas que Bento fez nos anos noventa, ele sobrepunha ou avizinhava cepas largas de madeira e as fazia um corpo só. As partes modificavam seu sentido pelo gesto artístico. A transformação, porém, não tinha a ver com o gesto picassiano de fazer de uma coisa se tornar outra, completamente diferente. Para o gênio espanhol nada tinha sentido fixo. Assim, ele tomava objetos de uso comum, retirava a função que nós dávamos a eles e, em uma brincadeira, os tornava bichos, brinquedos, figuras e planos. Embora retirados do contexto, os materiais que José Bento trabalhava tinham sentido fixo e, mais que isso, adquiriam um parentesco rijo ao se avizinharem.

Mesmo porque, ele não partia de objetos de uso, mas de uma matéria que acabava de deixar de ser uma forma de vida. Depois de cortado e entalhado, o tronco ainda se mostrava vivo. Com uma natureza que independia da terra, mas se mostrava nos veios, no peso, nos buracos na madeira. José Bento nos apresentava o material como se ele carregasse dentro dele uma natureza mais antiga que a raiz de onde ele saiu.

Não por acaso, Bento fez uma série em que figuras esculpidas brotavam de dentro dos troncos. Inventou uma relação endogâmica[1], comum ao material, em que o vegetal se fazia animal ou outro vegetal ou mineral ou um ancestral de todas essas coisas juntas ao mesmo tempo. De qualquer forma, as peças pareciam carregar um calor que a matéria morta não possui.

O calor aparecia mesmo em trabalhos formalizados de maneira mais geométrica. Os tocos cortados e organizados de forma mais serial se pareciam mais com um mobiliário, ou com objetos que foram deixados em algum lugar. Mas a singularidade cromática de cada peça, desenhada pelos veios, desfazia essa serialização. Aqui, penso nas Rodas dos anos noventa, no Cobogó e nos pisos móveis que José Bento levou para o Museu de Arte da Pampulha nos primeiros anos do nosso século. Elas tinham a temperatura e se refaziam em uma nova natureza, como se a refundassem, em uma narrativa próxima da Teogonia de Hesíodo ou das primeiras passagens do Gênesis.

Até em trabalhos sem pau, como as fotografias em preto e branco de cachorros, algo de uma natureza que se cria diante dos nossos olhos aparecia. Na série, dois bichos pretos se desprendem uns dos outros. Daquele monte de pelos começam a aparecer patas, corpos, anunciando que dois bichos saíram de lá e originarão uma espécie.

cobogó e Chão na Galeria Bergamin, em 2006

II

Nesta exposição, as coisas não são assim. Bento trabalha com peças separadas, individualizadas, que se reúnem circunstancialmente. Embora sugiram relações poderosas, estão meio soltas, avulsas, ou, como o artista sugere: próximas e distantes uns dos outros. Do mesmo modo como a multidão é um ajuntamento de gente, mas de um pessoal que não se conhece e se reúne de maneira arbitrária.

Tomemos os comprimidos que percorrem a mesa em The Cure. Eles são muitos em um espaço amplo. Tocam-se, sobrepõem-se, mas o vínculo mais íntimo entre um e outro tem a profundidade afetiva do abraço que um torcedor dá no seu vizinho de arquibancada na hora do gol. Um vínculo que dura apenas o momento em que nos reconhecemos como torcedores do mesmo time e ficamos eufóricos com isso. Sem intimidade, sem simpatias duradouras. Aliás, muitas vezes, melhor nem saber quem é esse sujeito mesmo.

The Cure (2009 - 10)

Nas fotografias da série que dá nome à exposição isso é mais explícito. José Bento retratou as etapas da inauguração de uma praça. Retratou a finalização da obra, sua conclusão, a festa de inauguração e a multidão se dispersando. A praça, a princípio, é um vazio entre quatro vias. Aparece cercada. E é um recipiente parecido com o que os comprimidos deslizam em The Cure. Quando aberto, vemos os primeiros anônimos circularem por lá, mas ainda é pouca gente. Durante a inauguração, o espaço fica repleto, formam-se imagens de figuras coloridas que se amontoam em um espaço amplo. Até que, novamente, ela se torna uma superfície onde deslizam corpos.

Fora a relação imediata entre os personagens aludida, outra opção do artista parece revelar esse vínculo entre uma parte e outra: a imprecisão e a não linearidade da seqüência de fotos. Embora eu tenha esboçado algo como uma narrativa através das imagens, ela só é sugerida. Nada indica que exista uma ordem entre uma parte e outra. Embora seja uma série, montada em uma seqüência, a relação entre as partes é suposta e possui um vínculo frágil. Tão frágil que poderia sugerir outras coisas na medida em que a ordem se modificasse.

III

Portanto, é notável ver uma obra que tratava da origem das coisas, da persistência de certa anima[2]; tratar de temas tão comezinhos e cotidianos. Além disso, Bento mostrava a persistência ou passagem do tempo nas esculturas ao sugerir e entalhar certa historicidade no seu material. Claro, uma historicidade que remetia a um tempo que a história ainda não tinha esse nome, mas que marcava os trabalhos com uma duração e uma ancestralidade. Ele fazia uma pele com idade, exibia deitado ou em pé, marcando uma história e um peso.

A idade das coisas é um tema tradicional da arte. Donatello, ao entalhar a sua Maria Madalena em madeira, em 1457, apresenta o personagem bíblico como um personagem histórico. Lá ela está sujeita às violências da vida e a aproximação inexorável com a morte. Então, os veios da madeira são aproveitados como marcas na pele. O Rosto se mostra judiado, a superfície de seu corpo e se junta ao seu cabelo, e emenda-se na pele que Madalena veste. Ela além de envelhecida antes do tempo, com uma feição insalubre, parece animalizada. E foi feita assim de modo brutal, como só as melhores civilizações conseguem fazer.

cio (2003)
cio (2003)

No século XV, o pintor italiano Andrea Mantegna (1431 – 1506), influenciado por Donatello, leva a passagem do tempo mais longe. Além de tratar as passagens do evangelho como cenas da história, fazer os personagens terem indícios de uma época, ele atribuía idade às formas da natureza. As pedras da caverna de São Jerônimo se mostram gastas. A pele do rosto do santo enrugada. Até a grama que sai da fenda entre a terra e a rocha tem idade.  Às vezes é vigorosa e nova, mas também pode ser ressecada e velha.

A tradição chegou a José Bento. Quando ele marcava um tronco, víamos uma idade e até uma história nele. Em um trabalho recente, ele cavou uma árvore grossa e fez um assento dentro dela.  No interior do tronco passava um filme com um pica-pau a desbastar a madeira. O filme era longo. Uma observação lenta como o trabalho do passarinho. O bicho moldava a árvore e a fazia sua morada. Mudava a árvore em um trabalho de dias, meses, até anos. Em uma narrativa duradoura.

A primeira vez (série)

Nos trabalhos novos, o tempo não passa. Como disse antes, os materiais não têm idade. São peças sem passado marcado. Aliás, o tempo não as modifica em nada.  Elas sempre parecerão novas, nascidas ontem. Em dez anos, aparentarão a mesma idade. Além disso, as relações entre as peças, embora sejam às vezes congeladas, são momentâneas, fugazes. A ação desses pedaços despersonalizados acontece sobre um formato fixo, com poucas variações. É como se fossem relações que deixaram de existir, mas ainda estão por ali. Tal uma imagem de um filme a se repetir.

Aparentemente é outro mundo. Cabe perguntar: que diabos estará José Bento a esculpir aí? Além disso, o que isso tem a ver com o trabalho que ele fazia antes? É adequado responder uma coisa de cada vez. Encontrando o que ele faz agora, desvendamos se existe algum fio que ligue o presente com o passado. Sobretudo, porque nos três trabalhos da mostra, o artista cria instantes memoráveis.

Na minha obra favorita, Up, ele suspende um objeto em movimento como se congelasse um instante. Aparentemente, ele não figura aqui um momento que passou e nem marca certa historicidade das coisas. É um momento que não se repetirá, mas que não se mostra como passado, mas como sempre presente. Assim, é um instante, mas um instante fora da história.

Todos os balanços, distribuídos simetricamente pela sala, se encontram. Um de frente para o outro. Uns se encontram em paralelo ao chão, outros perpendiculares. Formam linhas retas horizontais e verticais que se cruzam. Desenham estruturas ortogonais, cruciformes. É um instante de harmonia e perfeição acentuada pelas cores sem os acidentes da vida. São formas que mesmo que tenham deixado de existir (como em A primeira vez), continuam a existir na imagem. Assim, parecem compor uma cena metafísica, idealista. Que pretende inclusive a imortalidade. Mas o preço é caro. Ao atribuir esse tempo à escultura, o artista obriga que ela nunca mude. Que ela nunca tenha experiências que a acidentem e que de certa forma ela nunca tenha uma vida. Sem presente, sem passado e sem futuro. Talvez como os personagens de Adolfo Bioy Casares, na ilha de A invenção de Morel[3].

Em uma conversa que tive com o ateliê do artista ele me contou ter vontade de fazer uma escultura em que as pessoas olhassem e vissem a sua imagem refletida. Essa imagem permaneceria depois que o corpo refletido saísse de frente da superfície refletora. Assim, existiria, pelo menos momentaneamente, independente da vida.

Quando ele me contou isso, entendi tudo. Era a escultura de um espectro. De alguém que permanece depois que a vida se vai. Mais que isso, alguém que permanece da mesma forma. Naquele dia que consegui entender uma idéia que a muito me assombrava: A idéia de fantasmagoria. Algo que deixou de existir no tempo histórico e passou a sobreviver em outro lugar, em um tempo paralelo, que não passa.

Essas imagens olham para nós, mas sabem que, embora possamos nos ver de vez em quando, habitamos realidades distintas. Acho que José Bento materializa esse encontro com formas de tempo diferente. Isso responde a primeira pergunta. São estas durações, temporalidades que ele nos mostrava nas outras esculturas. Antes, ele parecia mostrar as dores e delícias das marcas da história. Agora, torna visível o que tem de aflitivo e fascinante em uma vida que não passa. Que ficou fora do tempo e do nosso espaço, mas que largou aqui a sua sombra. A marca que nos lembra que um mundo desconhecido paira entre nós.


[1] Devo a idéia da endogamia nas esculturas de madeira, sobretudo na tradição, a Paulo Monteiro.

[2] No sentido de energia que dá vida às pessoas, como a idéia místico-religiosa de alma mesmo.

[3] CASARES, Adolfo Bioy: A invenção de Morel. (1940).

2 comentários sobre “JOSÉ BENTO: TEMPO FORA DO TEMPO

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s