Na ponta do pé

Como  o Jay disse, a participação no evento Agenda 2010: Futebol e Política, do Sesc Paraná, foi presente de aniversário, natal e dia das crianças. Impressionante, como ao discutir futebol as mesas pudessem passar por tantas coisas que tratam esse blog: política nacional, judicialização da sociedade, comercialização e registro autoral do mínimo gesto do corpo, música e, principalmente a questão: por que o futebol diz tanto sobre o que os brasileiros somos? Tudo isso dito por um pessoal legal nas mesas de discussão, nos restaurantes antes e depois do evento e nas andanças pela capital paranaense.

Cheguei em Curitiba  no começo de tarde de quinta, vindo em um voo carregado de parlamentares que voltavam de Brasília para as suas bases. O time nas poltronas da aeronave tinha representantes de todos os partidos e o engraçado, pelo que pesquei aqui e ali (na base da orelhada), era que a pauta comum deles naquele dia era o time do Santos. Até sujeitos detestáveis, com quem eu nunca concordaria, tinham impressões parecidas comigo quando o tema era Paulo Henrique Ganso.

A companhia no hotel melhorou muito. Velhos chapas estavam lá como Israel do Vale, Rodrigo Merheb, Joaquim Toledo, Idelber Avelar, além do ótimo Marcos Guterman. A conversa não era muito diferente: será que o Dunga levaria algum dos “meninos da Vila” para a África do Sul? Quem ele poderia levar Neymar, Ganso, Wesley…? Por que o Santos tem essa longa tradição de times tão bonitos de ver, o que acontece por lá?

A conversa virou música, literatura (por que tão pouca literatura boa sobre futebol no Brasil?), governo Lula até chegar no dilema ludopédico mais quarentão do Brasil: o fracasso em 82 e o diálogo profundo desse evento com a redemocratização.

Nessa hora, eu e o Jay nos calamos às hipóteses mais variadas e às profundas dúvidas que no limite evocam um modelo de país que se deseja a partir desse jogo. Um jogo em que o placar nem sempre é o resumo dos acontecimentos ocorridos nos dois tempos de 90 minutos. E que em ano de Copa do Mundo levanta o questionamento o que é mais importante: levantar as platéias, envolver todos em um futebol que é jogado no limite da criação ou ganhar?

O papo ficou ainda mais animado com a chegada de Francisco Bosco, que iria se somar à mesa de debate comigo e com André Mendes Capraro. A  conversa passou da eficácia da língua do futebol até como a crítica que é feita por Tostões, PVC, Sócrates, dissecando jogadores e jogadas, é tão ou mais relevante quanto o que se faz na crítica de livros e de música.

Para o evento à noite, o horizonte não prometia ser dos melhores, uma gripe havia segurado José Miguel Wisnik, o principal convidado da noite, em São Paulo. Ele chegaria amanhã com o Sócrates. Iriamos entrar na mesa de debates com time desfalcado.

A conversa andou bem sem o fera. O que está escrito  em seu livro Veneno Remédio acabou dominando as discussões. e algumas perguntas do púbico durante a noite. O essencial no entanto era se perguntar sobre como esse mundo de YouTube, de video-tapes permanentes e de invasões de privacidade na vida dos craques muda o jogo. Esses fantasmas de jogadas que todo mundo assiste quando quer parecem assombrar o que seriam as lendas do futebol da nossa geração. Com a vida e as jogadas dos nossos gênios da bola sob uma lupa poucos se salvam ao longo do tempo. Como disse Capraro: “Os craques passam e a idolatria a grandes nomes é cada vez mais uma coisa antiga. São ídolos momentâneos”.

O componente paternalista em que qualquer ação do jogador na vida pessoal passa a ser usada contra ele se tornou recorrência e mesmo gênios como Ronaldo ou Tiger Woods têm seu talento contestado frente à má-atuação e à exploração ostensiva de suas opções de vida, como mostrou Bosco.

Sem tocar nessas polêmicas, José Miguel Wisnik trata esses jogadores em seu livro como os craques pós-pós modernos. Eles emulam jogadas de seus grandes mestres; consolidam jogadas-marca (usadas até com fins publicitário), se inspiram em jogadas nos video-games,  e reinventam o seu futebol nos mais variados esquemas táticos. Jogam um futebol multinacional que não cabe mais em nenhuma escola.

A necessidade de internacionalizar o jogo  e de coloca-lo sob uma lógica mais técnica e compreensível a todos e dentro de padrões internacionais faz com que os estádios sofram uma elitização profunda. Curitiba, com a super-moderna Arena da Baixada, é o exemplo mais claro disso. Os ingressos, como no futebol europeu, são caros e pouco acessíveis a maioria da população. Com isso, times de apelo popular cada vez mais reféns de uma wine and cheese audience (excelente expressão que eu relembro de cabeça de uma das várias conversas com Idelber).

Mais do que isso, o jogo é judicializado e tudo que saia de um protocolo pré-estabelecido é penalizado como uma deturpação do jogo.

É nessas, que o futebol do Santos aparece como uma imensa novidade. As jogadas rápidas, a sem-cerimônia com que os rivais são “humilhados” em campo e a comemoração do time que se estica pra muito depois dos jogos traz elementos novos (e recupera elementos antigos) para o jogo. Tudo isso ficaria mais claro na mesa do terceiro dia do evento e, antes disso, quando o Doutor Sócrates, entre autógrafos, garrafas de vinho e cerveja, nos mostraria que a organização política do futebol vai muito além do que a gente pensava.

Mas isso fica pro próximo post.

12 comentários sobre “Na ponta do pé

  1. é isso ai,Laurão, uma das coisas que me deixou mais feliz nesse evento foi reunir pessoas de áreas tão diferentes cada uma trazendo um tipo de sensibilidade e referência pra gente partir do futebol e debater cultura, sociedade, história, mídia, investimentos públicos. Acima de tudo eu fiquei muito feliz com o timaço que apareceu pra jogar.

  2. Perdi. As vezes o sustento do dia a dia atrapalha, mas fazer o que. Eu só queria comentar um texto do tostão no fim de semana sobre a “coerência” do Dunga, vocês leram?

  3. Concordo sobretudo com o que ele diz sobre o Zé Roberto. Esse sim era titular absoluto na minha seleção.

    Aí vai:

    TOSTÃO

    Pior é o técnico confuso

    HOJE, VOU especular, tentar descobrir quem serão os 23 jogadores que irão ao Mundial na África do Sul e o que se passa na alma de Dunga. É muito difícil. Não compreendo nem minha alma, ainda mais a de Dunga.
    Vou me basear em suas convocações, em seu pragmatismo e em sua tão elogiada coerência. Nem sempre a coerência é uma virtude. “Coerente é o sujeito que nunca teve outra ideia.” (Millôr Fernandes)
    Para o gol, seriam Júlio César, Doni (acredite, se quiser) e Victor. Nas laterais, Maicon, Daniel Alves, Michel Bastos e Gilberto. Na zaga, Lúcio, Juan, Luisão e Thiago Silva. No meio, Gilberto Silva, Felipe Melo, Josué, Kleberson, Elano e Ramires. Kaká e Júlio Baptista seriam os meias de ligação e, na frente, Robinho, Luis Fabiano, Nilmar e Adriano. Nenhuma surpresa. Os outros sete de sobreaviso seriam Gomes, Alex (Chelsea), Leonardo Moura, André Santos, Lucas, Diego Tardelli e Grafite.
    Nos meus 23 preferidos, entrariam o goleiro Fábio, Marcelo, André Santos, Zé Roberto (da Copa de 2006), Ronaldinho, Ganso e Diego Tardelli. Sairiam Doni, Gilberto, Michel Bastos, Kleberson, Ramires, Júlio Baptista e Nilmar. Seriam sete mudanças. Para completar os 30: Gomes, Jonathan, Michel Bastos, Lucas, Alex (Chelsea), Alex (Fenerbahce) e Neymar. E ainda sobrariam Nilmar e Grafite.
    Em meu time titular, Marcelo entraria no lugar de Gilberto ou de Michel Bastos, Daniel Alves, no de Elano, e Zé Roberto, no de Felipe Melo. Ganso seria o primeiro reserva de Kaká, e Ronaldinho, o de Robinho. Ganso (ou Ronaldinho) substituiria Elano, se fosse necessário mudar o esquema tático.
    Gilberto Silva, Felipe Melo, Josué e Elano são apenas bons jogadores, comuns, mas não há outros melhores em suas posições, com exceção de Zé Roberto, que continua jogando muito bem.
    Se Fábio jogasse no Tottenham, time de Gomes, na Roma, equipe de Doni, ou no Porto, time de Helton (outro cotado), muitos pediriam sua convocação. O Cruzeiro não é pior que nenhum desses times.
    Ronaldinho continua jogando bem e dando os mesmos passes espetaculares de quando pediam sua convocação. O Milan é que não o ajuda. Mas, como todos pedem Ganso e Neymar, esquecem Ronaldinho. Querem ainda que Ronaldinho jogue como em seus melhores dias no Barcelona. Isso nunca mais vai acontecer.
    No mesmo raciocínio, criticam Robinho para elogiar Ganso e Neymar. Os três são excepcionais e decisivos para o Santos. Robinho é um dos jogadores mais importantes da seleção brasileira. Ataca e ainda volta para marcar pela esquerda. Dunga adora isso.
    Se minha seleção treinasse e jogasse várias partidas, eu certamente perceberia coisas novas e mudaria alguns jogadores. Por isso, discordo, mas entendo algumas preferências de Dunga.
    Compreendo ainda a relutância de Dunga para convocar um jogador que nunca foi chamado. Para ele, seria trair seus princípios, sua cara, sua alma e sua coerência. Sua cara está colada na alma. Se tentar separá-las, rasga. Pior que ter um técnico rígido e teimoso é ter um técnico confuso, que não sabe o que quer, um “”Maria vai com as outras”.

  4. Dunga é Teimoso e Zangado, tomara que se mostre um Mestre. Fico torcendo para que Julio Batista e Josué (ou Kleberson) se machuquem para que o Ronaldinho e o Ganso tenham chance de ir.
    O evento deve ter sido muito legal, fico feliz por vocês que participaram.

  5. Assim todos nós esperamos né André. Ele é sortudo né, e a gente reclama, mas o time tem muitos jogadores bons (a defesa é ótima), o problema pra mim é só a falta de opção tática mesmo. Somos muito limitados no Kaká e o Júlio Baptista não tem rendido tanto. Sei lá, acho se tivesse um outro meia mais criativo, eu tava mais tranquilo.

  6. Após esses anos como técnico, eu passei a respeitar o Dunga; acho que o Brasil vai passar fácil da 1a fase e também acho que somos um dos times favoritos para o título, junto com os de sempre – os que já ganharam outras Copas. Na minha opinião, o único problema que pode ser decisivo negativamente para o Brasil é esta dúvida sobre a real condição física do Kaká. Se ele estiver “bichado”, a coisa se complicará demais!

  7. sei não, pra mim um treinador que não encontra lugar para Paulo Henrique Ganso e Ronaldinho Gaucho e Neymar no meio de tanto Josué, Kleberson, Elano e Felipe Melo tem um certo problema de percepção. O que eu gostaria era de ver novamente o Brasil jogando um futebol vistoso, encantador, se pudesse ganhar a copa ótimo,s e não que pelo menos faça história. A possibilidade de ser campeão com aquele futebol sonolento de 94 não me seduz em nada.

  8. @Rodrigo,

    Concordo em gênero, número e grau…
    Tudo menos o futebol de 94!
    Vocês lembram do Zinhao enceradeira?!
    Peloamordedeus!!!

    Oburrocrata

  9. Não gosto de secar ninguém, mas fico torcendo para alguns se machucarem para o Ganso e o Gaúcho irem, além de ter alguém para gerenciar o jogo se Kaká estiver bichado a gente teria uns artistas em campo. Também concordo em gênero, número e grau com o Rodrigo.

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