Terra deu, terra come

Quem estiver em São Paulo hoje ou amanhã não pode perder Terra deu, terra come do nosso chapa Rodrigo Siqueira.

Documentarista porreta, Rodrigo já tinha andado por várias quebradas do Brasil pra fazer  o filme Aqui favela, rap representa, em que dividiu a direção com Júnia Torres.

Dessa vez, o Rodrigo se meteu no povoado mineiro de Quartel do Indaiá,  distrito de Diamantina. A antiga comunidade de garimpeiros de ouro e diamantes reúne uma série de remanescentes de um quilombo, bem longe da vida urbana.

Lá, o diretor concentra sua narrativa em Pedro de Alexina. O senhor de 81 anos comanda a cerimônia para encomendar a alma do amigo João Batista, que acaba de morrer, aos 120 anos.

Sem ter chance de falar com ele, copio aqui o texto do próprio Rodrigo sobre o filme, que eu encontrei no blog do Maurício Stycer:

Na virada de 2004 para 2005, estava mergulhado e enredado pelo livro “Grande Sertão: Veredas”, do escritor mineiro João Guimarães Rosa, um dos mais importantes romancistas de língua portuguesa. Famoso por atrair ao sertão de Minas Gerais estrangeiros de todos os cantos do mundo, o livro fez com que eu e minha mulher imprimíssemos uma viagem em busca do sertão mítico e profundo retratado por Guimarães Rosa. “O sertão está dentro da gente”, diz Riobaldo, o personagem principal do livro.

No meio do caminho, encontrei o sr. Pedro de Almeira, conhecido como Pedro de Alexina, guardião das tradições fúnebres que os africanos trouxeram para a região de Diamantina, no século 18. A mistura de diferentes povos da África nas minas de diamante fez nascer na região o dialeto banguela, que fundia as línguas destes povos ao português. Do dialeto, sobraram apenas algumas cantigas de trabalho e de rituais fúnebres, conhecidas como vissungos. O encontro com Pedro de Alexina transformou minha viagem em uma expedição ao imaginário da tradição oral que remonta aos povos andantes, que carregavam suas histórias fantásticas entre a Índia, a China, a África e o Oriente Médio.

Seguimos nossa viagem sob a sensação de termos encontrado o que nos parecia uma Sherazade personificada em um griô africano. Suas histórias emendam umas nas outras, misturando os contos populares ao mundo vivido e a uma miríade de mitos de diferentes origens. Dois anos depois, em maio de 2007, voltei ao Quartel do Indaiá, comunidade remanescente de quilombo, para fazer um filme com seu Pedro. Desta vez, minha viagem foi muito mais longe. Em 30 dias, seu Pedro me transportou para um espaço e tempo indefinidos, distantes, mas ao mesmo tempo muito próximos das minhas memórias de infância em Minas, próximas do meu “sertão interior”.

Mediado pela imaginação, pela memória dos antepassados e de suas histórias pessoais, Pedro me levou a um lugar onde o sertão mineiro encontra a África de séculos atrás, onde a morte encontra a vida e onde Deus e o “Outro” coexistem todo o tempo. Das mais de 40 horas de material que produzi sobre esse lugar e sua gente, poderia fazer diversos filmes diferentes. Mas apenas um tomou parte em mim, pro bem e pro mal, como em um contrato com o Demo. Uma parte que me ecoa até hoje, como se fosse uma história fantástica ouvida por uma criança em noite de lua. Mais que uma experiência fílmica, posso dizer sem demagogia, seu Pedro tornou-se um companheiro que me ajuda a traçar a minha passagem por aqui.”

O filme concorre na mostra competitiva do festival É tudo verdade. Assistam o trailer (ou aqui) e visitem o site do filme.

16 comentários sobre “Terra deu, terra come

  1. Galera, vê se descola uma cópia depois, fiquei afinzaço de ver, trata de um tema que muito me interessa.
    Abçs.

  2. Vou falar com o Rodrigo pra gente armar uma sessão aí em Piei. Podia ser bem legal. Acho que na Univás o pessoal animaria. De qualquer forma, o Rodrigo é afim de passar o filme em tudo quanto é canto.

  3. Eu também, fiquei muito impressionado. Nunca vi alguém filmar de modo tão bonito o que existe de sobrenatural no mato do interior depois que fica escuro.
    Amigos de Piei, acho que rola de descolar altos filmes legais que não entram em circuito pra vocês fazerem uma mostra.

  4. Se conseguir o doc. sobre o RAP do mesmo diretor seria massa também. Lembro que vi umas partes na casa do Leo, mas não vi depois de montado.

  5. Terra deu, terra come leva o caneco de melhor documentário nacional do ‘É tudo verdade’. O filme é muito bom, até agora, o filme mais lefgal que eu vi no ano

  6. Só digo uma coisa, galera: o seu Pedro, do filme, é FODA. ninguém pode deixar de ver esse filme.

  7. estou doido para ver o filme terra dei terra come, como posso fazer para diquirir?

  8. Estive lá também companheiro. Só que em 2008. coneci a “Sinêca” filha de Pedro.Ela foi quem me levou atéseu pai. Minha passagem por láfoi guiada pelos cruzeiros do caminho. Até hoje preciso reotornar lá.

    O mundo é apenas o que nós pensamos que ele é.

    Abraços…..!!!!!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s