Versões do Modernismo na Coleção Tuiuiu

Alberto da Veiga Guignard: "Paisagem imaginante" (1955) óleo sobre madeira

Abro espaço para o meu próprio jabá. No sábado, a partir das 11h, abre a exposição que organizei para o Instituto de Arte Contemporânea de São Paulo (IAC). No fim do ano passado, fui convidado a escolher algum aspecto da coleção Tuiuiu para mostrar no Instituto.

Quando a visitei, percebi que seria difícil escolher uma faceta específica da coleçã, tentei entender a perspectiva que orienta as escolhas dos colecionadores e consegui montar esta exposição. Modéstia a parte, ficou muito boa. Mas os méritos não são meus, mas de quem criou o acervo, com gosto e paixão pela arte brasileira e mais, pela arte moderna. Segue o texto do Folder. Espero todos vocês lá.


Ainda está por se fazer um estudo esclarecedor a respeito da importância das coleções privadas no Brasil para o desenvolvimento das artes plásticas daqui. A série O Olhar do Colecionador, uma iniciativa do Instituto de Arte Contemporânea (IAC), visa justamente trazer a público algumas das melhores coleções particulares de arte do país. Assim, nada mais oportuno do que dar início a esse projeto com a coleção feita por Luciana e Luis Antonio de Almeida Braga, constituída sobretudo por obras da arte moderna brasileira.

Trata-se de uma coleção variada e pouca ortodoxa. Encontramos nela, por exemplo, trabalhos figurativos da década de 1960 e 1970 ao lado de uma pequena escultura de Alexander Calder; telas de artistas centrais para a pintura brasileira do século XIX, mas também obras conhecidas do neoconcretismo, como o Cubo vazado de Franz Weissmann, o Cubocor de Aloísio Carvão e um dos bólides de Hélio Oiticica. Ainda, instalações ambientais e esculturas enormes feitas por artistas contemporâneos.

É, evidentemente, um olhar baseado no gosto do colecionador e, logo, um olhar marcado pela arbitrariedade de suas escolhas. No entanto, a coleção não pretende satisfazer apenas necessidades domésticas. Muito pelo contrário, suas ambições são quase enciclopédicas, reunindo um espectro diversificado da produção brasileira moderna.

Essa modernidade, no entanto, é mais abrangente que a interpretação usual que atribui aos modernistas da Semana de Arte Moderna de 1922 o pioneirismo da arte avançada em um país, àquela época, bastante acadêmico. Ao passear pelas galerias da coleção, percebemos o desejo da arte de se atualizar e se tornar mais livre, em relação aos padrões vigentes, já nas paisagens do grupo Grimm e nas pinceladas velozes e carregadas de Arthur Timótheo da Costa e João Timótheo da Costa.

Por outro lado, ainda que reconheça a importância da “ousadia formal” desses artistas anteriores ao modernismo, os colecionadores têm predileção pelas vanguardas modernistas. Daí suas manifestações estarem representadas em diferentes lugares e momentos.

A coleção abarca uma cronologia extensa, que se iniciaria no fim do século XIX e se desdobraria até as investigações de alguns dos nomes consagrados da arte contemporânea, como Paulo Monteiro, Wesley Duke Lee, Antonio Dias, Iole de Freitas, Raimundo Colares, José Resende e Waltércio Caldas.

Olhando para o acervo, testemunhamos uma visualidade que quis se fazer e se fez moderna ao longo do século XX.

Como uma enciclopédia pessoal,tenta incorporar manifestações muito diversas desse período importante do nosso país, em que uma história não-linear, descontínua, parece dizer muito sobre as nossas artes visuais.  A história da arte moderna brasileira tem esse ritmo feito de espasmos, de manifestações que muitas vezes não se encadeiam na manifestação seguinte. Não há, aqui, um marco preciso de fundação dessas poéticas, tampouco existe um vínculo facilmente  identificável entre o que era feito no fim do século XIX e a década de 1920, bem como desse período com a produção abstrata do pós-guerra. É uma tarefa complexa reconhecer  um acúmulo intelectual nas primeiras décadas de arte moderna no Brasil. Muitas das poéticas não tiveram desdobramentos imediatos e claros.

Alguns desenvolvimentos aconteceram isolados no tempo e no espaço. Além disso, grande parte da nossa melhor produção é resultado de nomes independentes. Gente que não se identifica com grupos, que não participou de exposições famosas nem assinou manifestos. Que o diga a pintura de Guignard, a gravura de Oswaldo Goeldi e a obra de Sérgio Camargo, todos na coleção Tuiuiu.

Nesta exposição, agrupou-se algumas dessas propostas que, lado a lado, poderão ser comparadas, a fim de encontrarmos o que existe de continuidade e descontinui-dade nos desenvolvimentos da arte moderna nacional. Como ponto de partida, foram eleitas as obras de Tarsila do Amaral, Vicente do Rego Monteiro e Joaquim do Rego Monteiro. Mais tarde, nos anos cinquenta, a arte moderna parece ter mais autoconsciência de seu passado; porém se funda de novo, como abstração geométrica, pintura gestual e projetos ambientais. Acredito que seja depois desse momento que os artistas olhem para trás com menos ortodoxia e passem a refletir sobre a especificidade da arte brasileira. Por esse motivo, uma parte da exposição é dedicada à arte contemporânea.

Os ritmos truncados da arte moderna nacional, em particular, e da sul-americana (o Uruguai está representado por Joaquin Torres García) guardam semelhanças com os desenvolvimentos históricos do Brasil e de outros países da América Latina que tentaram modernizar as suas relações sociais, garantir uma isonomia política e construir um projeto de nação baseado na garantia de direitos. Muitas vezes, estes esforços sofreram reveses, mas é provável que, a cada vez que se inventava uma nova forma de viver, o país melhorava. Com a arte também foi assim.

Como se sabe, a presença pública das artes no debate cultural brasileiro ainda é pequena. Mas a vontade generosa de colecionadores privados tornarem a sua obra pública permite ao espectador interessado no assunto formular algumas hipóteses sobre os esforços dos artistas brasileiros no sentido de construir uma criação mais livre e variada. É bom para a história e é bom para a arte.

ATUALIZAÇÃO:

Serviço:
Instituto de Arte Contemporânea – Rua Maria Antônia, 258 (no anexo do Centro Universitário Maria Antônia),
Vila Buarque – São Paulo
tel – 11 3255-2009
Abre sábado às 11h
e fica até 27 de junho de terça a sábado das 10h às 18h

12 comentários sobre “Versões do Modernismo na Coleção Tuiuiu

  1. Legal Tiago, acho que é massa que aconteçam essas exposições inclusive pra se pensar qual foi o sentido do esforço modernista em criar uma arte com um vocabulário nacional que dialogasse com as vanguardas internacionais.

    Como vc sabe, entendo bem pouco do assunto, mas recentemente estive em uma exposição da Anita Malfati aqui no CCBB de Brasília e ela me fez pensar muito no trabalho da geração de 22.

    Colocadas lado a lado, as diferentes fases do trabalho da Anita me parecem meio desarticuladas entre si. Um tipo de Zelig da pintura que absorvia a técnica e o estilo dos pintores que ela admirava, mas que não parece desenhar um interesse formal próprio.

    Posso parecer até leviano, mas tudo chegava a mim como um esforço de compreensão da técnica desses pintores e uma tentativa de adaptar essas técnicas, sem muita reflexão sobre o que ela tinha pintado até então.

    No final da vida mergulha nos estilos de arte popular (antes, eu vi pinturas dela parecendo Portinari e Guignard) e parece que tentar absorver também aquilo, mas sem criar uma obra com alguma cara.

    É claro que só é uma pintora, mas uma muito importante e acho que sintetiza muito o ímpeto modernizante da pintura brasileira no começo do século 20, e essa dificuldade de traçar um caminho próprio pra arte dela.

    Minha dúvida é se esse percurso errático e sem muita certeza é generalizado no começo do modernismo brasileiro e qual o papel disso pra esse problema da falta de “presença pública das artes no debate cultural brasileiro”?

    E sabadão tô aí na exposição!

  2. Muito legal Tiago, não sei se consigo ir este sábado, mas com certeza passarei por aí.

  3. Vamos ao serviço:

    Versões do Modernismo
    Instituto de Arte Contemporânea – Rua Maria Antônia, 258 (no anexo do Centro Universitário Maria Antônia),
    Vila Buarque – São Paulo
    tel – 11 3255-2009
    Abre sábado às 10h
    e fica até 27 de junho de terça a sábado das 10h às 18h

  4. Tiago, parabéns pela exposição. Tenho certeza que está ótima. Quem sabe até Junho não a vemos juntos?
    Abs
    Rodrigo e Júlia

  5. ah, se tudo der certo, hei de passar por SP antes de 27 de junho para ver! e pra te ver também, ora bolas! que saudade. bjos, parabéns, claudinha.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s