O estacionamento: episódio do Folhetim da congestão

Nos últimos meses, estive em três capitais do sudeste brasileiro. Em cada uma delas vivi um episódio incômodo com a cidade. As experiências que confirmam os piores diagnósticos de Lewis Mumford. Se ele escrevia no começo desse novo mundo do capitalismo transnacional, hoje vivemos um momento em que está manifesto o esgarçamento das energias daquela ordem econômica. Embora não saiba nada de sociologia contemporânea e de economia, acredito que os exemplos dizem alguma coisa sobre a queda recente do liberalismo como utopia. Este é o primeiro, seguirão mais dois, ou mais.

Rondal Patridge (1963)

Diante daquilo, lembrei da frase do Bandido da Luz Vermelha: “O terceiro mundo vai explodir, quem tiver de sapato não sobra, não pode sobrar”. Olha que sou bastante otimista com o país e com a América do Sul.

De volta à vaca fria. Todo natal eu vou para Belo Horizonte. Embora eu nunca tenha morado na cidade, minha família é de lá e a minha mulher também. Aproveito para ficar mais tempo na cidade e rever os grandes amigos que tenho. É uma época curiosa, a cidade parece vazia, pois algumas coisas cerram as portas e espera-se menos gente a se divertir na rua. Mas a população é tomada por uma ansiedade, como se quisessem aproveitar o resto de ano.

Neste ano, decidimos ficar por lá até depois do reveillon. O ano foi duro, não valia a pena sair para algum lugar que nos cansasse mais do que descansasse. Dois ou três dias depois das festas, a ressaca da comilança passou e resolvemos botar a cara na rua. Depois de rodar de um lado para outro, resolvemos ir no cinema. Supúnhamos que a cidade estaria mais tranquila. As férias escolares deveriam ter feito a meninada viajar com a familia ou com os amigos.

Não pensamos em nenhum filme, qualquer um seria bom. Era passar o tempo, não nos maravilhar ou ir curtir cinema. Fomos na sala mais próxima, do shopping da Savassi. Chegamos em um horário bom, mas não conseguimos estacionar no shopping, o estacionamento estava lotado e um homem acenava da direita para a esquerda com os dois braços. Como a rua também era tomada em suas laterais pelos automóveis, tentamos uma vaga no estacionamento local. Quase não conseguimos, mas fomos ligeiros e pagamos um dos dois lugares que ainda sobravam .

Ao entrar no estabelecimento, descobrimos que não havia mais ingressos. Não é que eles tinha se esgotado  para a próxima sessão, é que o cinema não tinha mais entradas disponíveis até a sessão das quatro do dia seguinte, em nenhuma das várias salas. As filas não se acumulavam mais diante das bilheterias, mas rumavam para a entrada dos auditórios e para o balcão de informações.

Esquisito, mas paciência. Tentamos outra sala perto, da Praça da Liberdade, sem sucesso. De lá, migramos para o Diamond Mall. Um shopping center no bairro de Lurdes. Uma vizinhança chique. Tudo bem que o prédio é do Atlético, mas não precisava ser tão zicado. Na entrada, nada indicava o caos que enfrentaríamos. A rua estava engarrafada como sempre, mas nada demais.

Assim que subimos três metros de rampa, a coisa começou a se modificar. A fila era bem grande, mas andava. Um pavimento sem vaga, dois pavimentos sem vaga, terceiro também sem lugar para parar. Fomos ao último pavimento, no terraço que, aliás, era onde a Juliana prefere estacionar. Ao chegarmos lá, a coisa se complicou bastante.

Atá a cancela, vimos três carros na nossa frente, depois dela e  atrás de nós: uma multidão de automóveis. O carro se mostrava completamente inútil. Feito para a locomoção mais veloz, agora nos deixava sem ter como ir e nem vir. É um clichê, mas não encontro melhor forma de definir isso.

Ninguém entrava ninguém saia. Encalacrados, esperamos por cerca de duas horas e meia. Como se estivéssemos diante do filme Empire, de Andy Warhol. Um dia que passa sem conseqüência, a repetir um ritmo automático.

Só que aqui, a ordem das coisas nem automática era, estava encalacrada. Tudo preso, irremovível. Parecia um daqueles joguinhos com letras que se mexem em um retângulo com pouco espaço livre. Lá, o espaço era menor, menor que um carro. O curioso é que ninguém – inclusive nós – abandonou os autos.

Ficamos todos presos, infelizes, mas resignados, como se tal calamidade fosse a ordem natural das coisas. Evidentemente, desistimos do filme de trinta minutos. escutamos quatro discos na íntegra e começamos a nos comportar como bichos acuados, disputando cada brecha com uma violência selvagem.

Ao sairmos, a noite refrescou os ânimos, esvaziou a cidade e apagou nossa memória. Um pouco irritados, um pouco cansados. Comemos e fomos à locadora, lotada, é evidente.

8 comentários sobre “O estacionamento: episódio do Folhetim da congestão

  1. Oi, Tiago,
    O relato é quase um relato das nossas desgraças diárias, né?
    Então penso em congestão, mas também penso em dispersão.
    Vejo um embate bastante mal resolvido, porque pouco levado às vias de fato, sobre o que é bom em termos de qualidade de vida: aglomeração (para evitar o termo congestão, que em si já é ruim, claro) ou dispersão.
    Essa questão – que é tratada pelo Munford, mas que antes era discutida pelo Ebenezer Howard, pelo Cerdá, pelo Camilo Sitte, por todos os reformistas, pelos higienistas e provavelmente por todos que discutiam forma urbana – ainda é assunto para as novas abordagens do Urbanismo, notadamente do Novo Urbanismo, e está na raíz da discussão das cidades “sustentáveis”.
    Nós, arquitetos urbanistas, entendemos que uma cidade compacta não é ruim, principalmente pela otimização da infra-estrutura (além de outras vantagens da aglomeração). A questão, no entanto, é: quão compacta e apoiada em qual estrutura?
    É certo que não vamos advogar, ou ratificar como adequado, o padrão americano apoiado no binômio: carro + condomínios fechados ou loteamentos. Mas a verdade é que hoje é assim que cresce a urbanização… em BH também, né?
    Do meu ponto de vista, embora a dispersão pareça mais agradável aos olhos, ela é ainda mais danosa ao coração, principalmente nas cidades de “urbanificação” incompleta, como as nossas metrópoles.
    Particularmente eu penso que nós aqui juntamos o pior de três mundos: a alta densidade construída européia, com a baixa densidade populacional americana (e seus carros) e com um padrão de desigualdade que é nosso mesmo.
    Agora, para mim, o mais desesperador é notar a incapacidade e a impossibilidade do urbanismo (aqui colocado não como atribuição do arquiteto, mas dos diversos saberes), como ciência positivista que é, de resolver esse dilema colocado! Até onde dá para intervir?

  2. Nossa, o Arthur falou a maior besteira agora. Claro que PA tem shopping e cinema, fio. Onde você acha que o Paraguai trabalha? Fica difamando, nussss. Deixa ele vir aqui que nós vamos arrebentar ele.

  3. Luciana, que comentário legal. Acabei de aprender adoidado com você. Só para esclarecer, quando eu falo de congestão, não falo de aglutinação, mas de uma oferta mercantil tão extensa do espaço que torna a vida inviável ou totalmente colonizada. Assim, tudo se torna trabalho, o tempo livre, o trajeto, os caminhos de um lugar a outro. A essa alienação do espaço, se somaria o fato de que se oferece um espaço menor do que o necessário. Mas, acho que a dispersão (perfeitamente descrita por você) na forma de condomínios fechados e periferias também faz parte do mesmo processo. Por isso, penso na relação entre as vilas operárias e os trens no século XIX. Esses espaços eram lugar para se amontoar entre um turno e outro. O turno continuava no percurso e até nos sonhos. Mas, muito obrigado, você abriu uma clareira que para mim é desconhecida
    beijão

  4. Tiago,

    Tutu não tá de parabéns não, fi. PA tem shopping, cinema e no fim da tarde tem até um rushzinho, que nem cidade grande, bem.

  5. Concordo quase totalmente. Minha única dúvida é se o espaço é que é exiguo ou se a estrutura é que é inadequada… eu aposto na segunda hipótese! Acho que podemos até mesmo falar isso sobre a oferta de cultura e lazer, não? Insuficiente, concentrada, tb mercantilizada…

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