Wagner Malta Tavares e as exposições na cidade

O meio de arte de São Paulo está pegando fogo. Desde o mês passado ótimas exposições abriram ou estavam em cartaz na cidade. No IAC podíamos ver os relevos espaciais e bilaterais de Hélio Oiticica (numa mostra muito bem feita pelo curador Cauê Alves) e a pintura de Miguel Bakun.

Hoje a cidade tem em cartaz uma exposição muito boa de Tatiana Blass: Teatro para cachorros e aviões, na Millan Galeria. Também está aberta a visitação  a individual Esto Fue Otro Lugar, do excelente artista argentino Matias Duville. Além de retrospectivas muito bem feitas do artista e inovador Gordon Matta-Clark, no MAM, e das gravuras do famoso pintor cubano Wilfredo Lam, na Estação Pinacoteca.

Também dá pra ir a ótima mostra do Véio, um escultor sertanejo de primeira. A curadoria é do artista Paulo Monteiro (que, inclusive, mora no Guaciara) . Como quase toda arte é urbana, pior, metropolitana, é bom ter uma perspectiva visual da vida rural.

Momento Silvio Santos: ainda não estive na mostra Brasiliana da Pinacoteca, mas deve ser fina.

Neste sábado abrem duas exposições blockbusters: Uma do Warhol, na Pinacoteca do Estado e outra do Hélio Oiticica no Itaú cultural. A do Warhol é uma reunião de trabalhos do museu da Andy Warhol Foundation em Pittsburgh.

Andy Warhol Museum em `Pittsbugh

Estive lá em 2008, durante a pesquisa que eu fazia para o mestrado, tanto a coleção, como o passeio pela cidade, me fizeram entender muito as razões para as primeiras escolhas do artista. Pittsburgh é uma cidade historicamente proletária. Cresceu muito pela mineração e siderurgia. Quem trouxe esse crescimento foram dois dos primeiros milionários americanos: Andrew Carnegie e Henry Clay Frick. A fisionomia da cidade foi dada pelos trabalhadores de lá. Aliás, o pai e os irmãos de Warhol eram mineiros.

Mais do que isso, o museu conta com as time capsules, que permitem que acompanhemos o dia-a-dia de Warhol (literalmente). É um mundo de documentos e preciosidades. Acredito que se escolheram o melhor do museu, a exposição estará bonita.

Mas o que importa mesmo é a exposição que abre hoje, às 20h, no Instituto Tomie Ohtake : Herói, de Wagner Malta Tavares. De acordo com o release, a individual vem “com quatro esculturas, uma instalação, dois vídeos e fotografias”. Marca dez  anos de produção do artista.

Wagner Malta Tavares: Herói (2010), fotografia por Denise Adams

Desde sempre, eu acompanho a obra do Wagner.  Cada vez com mais entusiasmo. Quando conheci o seu trabalho, ele esculpia blocos geométricos severos e irregulares, em gesso e mármore. Deles saiam fios com cores brilhantes e florescentes. As cores quebravam a seriedade do paralelepípedo e pareciam mostrar um universo fantástico no interior do bloco. Podíamos pensar em uma luz que sai de dentro de um objeto tão opaco ou, que dentro daquela pedra, pulsava uma energia maior do que a sua aparência sugeria.

Dessa forma, a arte atuava como um desmentido do que “os olhos podem ver”. Pois sempre supomos mais do interior daqueles objetos. No entanto, eles nos encantam também por seu aspecto pop e até cenográfico. Embora eles sempre tenham unidade em si, quando relacionamos uns com os outros, recriamos nos objetos inanimados e pouco antropomórficos uma espécie de persona teatral.

A sua nova escultura, chamada Herói, sugere algo do tipo. Feita com uma capa vermelha a tremular com o vento soprado por um ventilador, ela é na verdade um objetão. No entanto, tenta se mostrar como figura, mas é objetiva demais pra isso. No entanto, é objetiva de menos para vermos uma abstração concretizada . Assim, ela tem algo de uma fantasia que não disfarça quem está a vestindo. Uma dramaturgia, que da mesma maneira que os filmes B e o teatro épico, não tenta fazer que as coisas sejam o que elas não são, mas sugerem o personagem.

É que Wagner trabalha com efeitos especiais. Não são aqueles efeitos caríssimos, que vemos hoje em dia, em uma arte mais preocupada em entreter e fazer barulho nos fracos cadernos de cultura. São efeitos vagabundos, onde descobrimos o truque antes de acontecer a mágica. Por isso, são de uma honestidade danada. Mais do que isso, têm algo de trágico. Acredito que essa noção trágica do inevitável, do impossível, aparece na poética do artista por ele ter plena consciência de que a ilusão como projeto, como utopia se tornou impossível. O outro lugar, os mundos fantásticos só aparecem agora para mostrar a nossa fraqueza e os riscos que corremos.

Mas já foi diferente, na pintura gótica, por exemplo — penso sobretudo em Cimabue –, os artistas tentavam demonstrar a santidade das imagens. Lionello Venturi certa vez disse, diante daquelas pinturas, nos perguntamos: “quem são aqueles personagens?”.  Mais do que quem eles são,  depois de responder a pergunta notamos que eles são milagreiros. Hoje a arte não engana ninguém, mas Wagner procura transformar os objetos com formas simples em objetos misteriosos.

O artista e intelectual Robert Smithson, certa vez, separou os artistas contemporâneos a ele como trágicos e sensitivos. O critério adotado para separar um do outro parece arbitrário, mas quando vemos a lista, fica claro que não é. Isso porque trágicos eram os que preferiam filmes de horror e sensitivos os que preferiam ficção científica.  Entre os trágicos estava Andy Warhol (que uma vez foi chamado de Drella — Drácula e Cinderela), entre os sensitivos, Donald Judd. Artistas que Wagner Malta Tavares admira.

Fora a preferência cinematográfica, acredito que WMT reúna as duas coisas no mesmo trabalho. Muitas vezes sua obra parece um artefato encontrado em outra dimensão, objetos insólitos. Em um dos seus filmes, Barqueiro (2008), vemos um barqueiro transportar um minério brilhante de uma costa a outra. Em outro,  uma casa começa a se iluminar na medida em que o sol se põe. Como se o astro rei fosse dormir dentro da casa. Certamente, lembra algumas inversões das pinturas de René Magritte, mas, para mim, o modelo é o monolito do filme 2001, de Stanley Kubrick.

Wagner Malta Tavares: O Barqueiro (2008).

Tais efeitos não disfarçam o que têm de farsa. Eles são uma farsa sobre o fantástico. Têm bom humor e guardam em si uma aparência falsa. Mas é essa aparência que faz do herói um anti-herói. Atribui humanidade àqueles aparelhos que sopram e brilham, o que faz o público se identificar com eles. Mas a identificação não é com a nobreza moral dos super heróis, mas com a impossibilidade de alcançarmos a nobreza dos gestos,  o céu e os poderes de quem grita “para o alto e avante!”

PS: Junto com a abertura da exposição do Andy Warhol, acontecerá, na Pinacoteca do Estado, o lançamento do livro dedicado à obra do grande artista e compositor Eduardo Climachauska (O Clima). Com texto de Agnaldo Farias, a brochura deve estar uma beleza.

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